No mês dedicado à conscientização sobre o câncer de próstata, o médico urologista Alexandre Goularte da Silva, o único especialista do SUS em Balneário Camboriú, faz um alerta contundente: o tabu ainda é uma barreira real que impede muitos homens de se cuidarem.
Segundo ele, o município tem estrutura para diagnóstico, mas parte da população masculina continua adiando consultas, ignorando sintomas e deixando de fazer exames simples, como o toque retal, por preconceito e/ou desinformação.
“Tem muitos pacientes com tabu, que demoram para buscar atendimento. O médico do posto faz a triagem, detecta a necessidade e mesmo assim alguns não fazem o exame por medo ou preconceito”, afirma o urologista.
Ele conta que atendeu nesta semana um paciente que já tinha diagnóstico, mas abandonou o acompanhamento e só agora retornou para avaliar como estava a evolução da doença.
2025: 31 biópsias e 20 casos confirmados

Em 2025, Balneário Camboriú solicitou 31 biópsias, com 20 casos confirmados de câncer de próstata apenas na rede municipal.
Em 2024, foram 20 diagnósticos positivos. A tendência é que o número real seja maior devido à subnotificação gerada pelo não acompanhamento.
“Os números poderiam ser maiores se todos mantivessem o acompanhamento. Muitos não voltam, não fazem os exames e deixam de iniciar o tratamento no momento certo”, ressalta.
Exame rápido, indolor e essencial

O especialista reforça que o exame de toque retal, principal ferramenta de rastreamento do câncer de próstata, ainda é cercado de estigmas, apesar de ser um procedimento simples.
“É um exame rápido, indolor. A barreira é muito mais psicológica. Ele não altera preferência ou orientação sexual, não traz sequela, não prejudica nada. Pode gerar um leve desconforto, mas é fundamental para prevenir a doença”, explica.
A consulta com urologista pelo SUS dura, em média, 30 minutos. O toque retal, no entanto, leva menos de um minuto.
Quando e como começar o rastreamento
O médico reforça a recomendação oficial: Homens a partir de 50 anos devem fazer o toque anualmente, homens a partir de 45 anos devem iniciar antes se houver histórico familiar de câncer de próstata e homens negros também precisam iniciar o rastreamento mais precocemente por apresentarem maior risco.
Além do toque, o exame de PSA (Antígeno Prostático Específico – utiliza-se internacionalmente a sigla PSA, do inglês “Prostate Specific Antigen”) deve ser realizado todos os anos.
“O PSA é importante e faz parte do rastreamento, mas não é definitivo. O toque tem muito mais precisão para detectar alterações suspeitas”, destaca o médico.
Fluxo de atendimento: tudo começa pela UBS
Por ser o único urologista da rede SUS em Balneário Camboriú, Alexandre atende os encaminhamentos vindos das Unidades Básicas de Saúde (UBSs). O fluxo funciona assim: O paciente procura a UBS, o clínico geral solicita os primeiros exames (como PSA), havendo indícios (como o PSA elevado), o clínico já encaminha com prioridade – o atendimento é feito no Ambulatório de Especialidades, que fica na Rua 1926, 1428 – Centro. O urologista avalia presencialmente e realiza o toque quando necessário. Em caso de suspeita elevada, é feita a biópsia prostática. Diagnosticado, o paciente é encaminhado para tratamento no Unacon (Unidade de Alta Complexidade em Oncologia) de Itajaí, que fica dentro do Hospital Marieta Konder Bornhausen, referência para toda a região.
Tabu, abandono de tratamento e a diferença entre homens e mulheres na rotina de cuidados
Alexandre aponta que a adesão ainda é menor que o ideal, mas que o Novembro Azul vem sendo um aliado na causa.
“O Outubro Rosa é mais difundido, as mulheres têm uma rotina de cuidado mais estruturada. O homem não. Ele demora para procurar atendimento, adia, posterga. Muitas vezes vai porque a esposa insistiu”, comenta.
Segundo ele, embora o Novembro Azul ajude na conscientização, ainda é necessário reforçar a saúde masculina durante todo o ano.
“Precisamos melhorar essa cultura. A saúde do homem vai muito além da próstata. Envolve rotina, sexualidade, disfunção sexual, hormônios e diversos outros fatores que ficam negligenciados e que o urologista também atende”, explica.
Mais do que prevenção do câncer de próstata: saúde masculina integral
O urologista lembra que diversas questões hormonais, como a baixa testosterona, também têm impacto direto na qualidade de vida e finaliza com um apelo:
“Quanto antes o homem procurar atendimento, melhor. Não é preciso esperar sintomas. Exame de rotina deveria ser algo comum. Podemos fazer mais, reforçar a saúde masculina não só em novembro, mas durante o ano inteiro, e também pensar em agregar mais políticas públicas para melhorar essa questão”, completa.

