TJSC debate violência contra a mulher e reforça legado de Indira Mihara quatro anos após feminicídio em Itajaí

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“Eu não queria fazer parte desta estatística, mas já que faço, quero fazer a diferença e ajudar para que não haja mais Indiras”, discursou a médica Ceres Felski, irmã de Indira, que participou do seminário

O Tribunal de Justiça de Santa Catarina (TJSC) encerrou nesta sexta-feira (12) o III Seminário do Programa Indira – “20 anos da Lei Maria da Penha: refletindo sobre relações de afeto, violências, silêncios e feminicídio”.

Realizado ao longo de dois dias na sede do Judiciário catarinense, em Florianópolis, o evento reuniu magistrados, pesquisadores, profissionais da saúde, representantes do sistema de Justiça e especialistas do Brasil e dos Estados Unidos para discutir prevenção, acolhimento e enfrentamento da violência contra a mulher.

Mais do que celebrar os avanços conquistados desde a criação da Lei Maria da Penha, o seminário também foi marcado por reflexões sobre os desafios que ainda persistem diante do aumento dos casos de feminicídio registrados no país e em Santa Catarina.

O encontro integrou as ações do Programa Indira, iniciativa criada pelo TJSC em memória da servidora Indira Mihara Felski Krieger, vítima de feminicídio em janeiro de 2022, em Itajaí.

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A história que deu origem ao programa

Arquivo da Família
Arquivo da Família

Indira tinha 35 anos e trabalhava no Poder Judiciário catarinense quando foi assassinada pelo namorado. O crime causou forte comoção em Santa Catarina e mobilizou discussões sobre a necessidade de ampliar mecanismos de proteção às mulheres, inclusive dentro das próprias instituições públicas.

Em resposta ao caso, o TJSC criou o Programa Indira, voltado à prevenção, acolhimento, orientação e encaminhamento de magistradas, servidoras e colaboradoras em situação de violência doméstica e familiar.

Ao longo dos últimos anos, o programa se consolidou como uma referência institucional no enfrentamento à violência contra a mulher, promovendo ações de conscientização e fortalecendo redes de apoio dentro do Judiciário catarinense.

Violência doméstica exige resposta coletiva

A juíza Naiara Brancher (Foto: TJSC/TRT/Ceres Felski)
A juíza Naiara Brancher (Foto: TJSC/TRT/Ceres Felski)

A coordenadora adjunta da Coordenadoria Estadual da Mulher em Situação de Violência Doméstica e Familiar (Cevid) e coordenadora do Programa Indira, juíza Naiara Brancher, destacou que discutir violência doméstica significa reconhecer uma grave violação dos direitos humanos. Segundo ela, admitir que mulheres que atuam no próprio sistema de Justiça também estão expostas à violência doméstica é uma forma de demonstrar que o problema atravessa todas as classes sociais, profissões e espaços institucionais.

“Falar sobre violência doméstica é reconhecer que estamos diante de uma violação dos direitos humanos de meninas e mulheres. Reconhecermos que mulheres que trabalham no sistema de Justiça também estão expostas à violência doméstica e familiar é uma forma de alertar que a violência doméstica é um fenômeno perversamente democrático na nossa sociedade”, afirmou.

Para Naiara, tornar público um programa inicialmente voltado ao ambiente interno do Judiciário também representa uma forma de incentivar outras organizações a adotarem políticas semelhantes.

“A ideia de tornar público um programa interno de prevenção e enfrentamento da violência doméstica é também uma forma de inspirar outras instituições, públicas e privadas, para que se tornem ambientes seguros para mulheres”, ressaltou.

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Ela também revelou que o Tribunal trabalha atualmente para expandir a iniciativa para outras áreas.

“Estamos desenvolvendo um projeto para replicar o Programa Indira na rede de saúde de Santa Catarina. É fundamental que as mais diversas instituições estejam dispostas a olhar para a violência doméstica e familiar dentro de seus ambientes. Quando damos visibilidade e acolhemos mulheres, ajudamos coletivamente a romper ciclos de violência”, acrescentou.

Especialistas nacionais e internacionais

A programação contou com palestras sobre feminicídio, violência doméstica, relações afetivas, violência virtual, patriarcado, direitos humanos e mecanismos de proteção previstos na Lei Maria da Penha.

Entre os destaques esteve a participação da professora Dabney P. Evans, da Emory University, nos Estados Unidos, reconhecida internacionalmente por pesquisas relacionadas à violência de gênero e saúde pública.

Lili Gramont, filha de Elena Gramont, assassinada por Lindomar Castilhos, com a camiseta da Indira (Foto: TJSC/TRT/Ceres Felski)
Lili Gramont, filha de Elena Gramont, assassinada por Lindomar Castilhos, com a camiseta da Indira (Foto: TJSC/TRT/Ceres Felski)

A pesquisadora apresentou estudos sobre avaliação de risco de feminicídio e compartilhou experiências de uma pesquisa internacional que entrevistou 160 autores de feminicídio em 11 países.

Outro momento marcante foi a palestra da psicóloga e ativista Lili de Grammont, filha da cantora Eliane de Grammont, assassinada em 1981 pelo ex-marido, o cantor Lindomar Castilho. Atualmente, Lili atua no acolhimento de mulheres em situação de violência e de órfãos do feminicídio.

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A voz da família

As irmãs de Indira, Ceres e Anuska com Lili Gramont (Foto: TJSC/TRT)
As irmãs de Indira, Ceres e Anuska com Lili Gramont (Foto: TJSC/TRT)

O seminário também contou com a participação da médica nefrologista Dra. Ceres Felski, irmã de Indira.

Sua presença trouxe ao evento uma dimensão ainda mais humana sobre os impactos da violência contra a mulher.

Ao compartilhar sua experiência, Ceres reforçou a necessidade de ampliar políticas públicas de prevenção e acolhimento às vítimas e seus familiares.

“Num momento e num estado onde os números de feminicídios crescem assustadoramente, discutir políticas de enfrentamento e de acolhimento às vítimas e seus familiares é primordial”, destacou ao Página 3.

A médica Ceres Felski de Balneário Camboriú com filósofo e escritor Renato Noguera, no Seminário (Foto: TJSC/TRT)
A médica Ceres Felski de Balneário Camboriú com filósofo e escritor Renato Noguera, no Seminário (Foto: TJSC/TRT)

Ela lembrou que a violência contra a mulher continua atingindo milhares de famílias e reforçou a importância de construir uma sociedade em que mulheres possam viver sem medo.

“Urge que possamos nos sentir seguras para andar nas ruas, pior, para estar dentro de casa e para vivermos uma relação saudável. Eu não queria fazer parte desta estatística, mas já que faço, quero fazer a diferença e ajudar para que não haja mais Indiras. Que seus nomes e suas histórias nunca sejam esquecidos. Que não se repitam. Nunca mais”, disse.

Um debate que segue necessário

Divulgação/TJSC
Divulgação/TJSC

Ao encerrar a terceira edição do seminário, o TJSC reforçou a importância de manter o debate permanente sobre a violência contra a mulher, especialmente no ano em que a Lei Maria da Penha completa duas décadas.

Mais do que discutir números, legislações e protocolos, o encontro trouxe à tona histórias reais de dor, superação e mobilização coletiva, reforçando que o enfrentamento à violência doméstica depende da atuação conjunta do poder público, das instituições e da sociedade. E, acima de tudo, reafirmou o propósito que inspirou a criação do Programa Indira: impedir que novas histórias tenham o mesmo desfecho da servidora que hoje dá nome à iniciativa.

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