A prefeitura de Balneário Camboriú anunciou, em coletiva de imprensa nesta segunda-feira (8), a gravidade do problema de saneamento que a cidade vive.
O assunto também será explanado em reunião pública na Câmara de Vereadores.
Pela primeira vez, segundo o diretor-presidente da Emasa, Auri Pavoni, a cidade tem em mãos um diagnóstico completo da rede de esgoto.
O levantamento foi feito com base em testes de fumaça que mostraram que há infiltrações, ligações clandestinas e cruzamentos entre rede pluvial e cloacal que estão sobrecarregando o sistema, elevando custos e colocando em risco a balneabilidade da Praia Central.
“Enquanto não resolver isso, vamos brincar de fazer saneamento básico”, resumiu Auri, lembrando que a situação “vem desde a época da Casan” e que, nos dias de chuva, a Praia Central praticamente inteira fica imprópria para banho”, disse.
Auri explicou que quando chove, mistura a água da chuva com o esgoto e causa poluição no rio e mar. As redes pluvial e cloacal precisam funcionar lado a lado, mas separadas.
“Hoje, se encontram de forma errada – quando há transbordamento nas ruas é sinal que estão misturadas as redes. A prefeitura focou em descobrir os pontos de conexões indevidas, e agora quer agir para entregar dois sistemas eficientes e sem ligações irregulares. É um problema que ninguém vê, mas que todo mundo sente”, disse Auri.
O Projeto Praia 100% Limpa

O plano apresentado na coletiva, batizado de Projeto Praia 100% Limpa, prevê até 18 meses de intervenções para corrigir as falhas estruturais da rede.
O foco principal é recuperar os pontos de balneabilidade da Praia Central.
“Há 10 dias procurei a prefeita e o vice Nilson Probst indicando ações importantes que Balneário Camboriú não pode mais perder tempo. O projeto de sanear Balneário Camboriú 100% não pode ser projeto de governo e sim de cidade. O sonho de balneabilidade 100%, inclusive em dias de chuva, é o grande desafio”, explicou.

Entre as primeiras medidas estão: Novo coletor tronco e rede auxiliar na Rua 3.700, com investimento de R$ 2,8 milhões (obra já em licitação), reforma de filtros e impermeabilização da Estação de Tratamento de Água (R$ 2,7 milhões), reforma estrutural do decantador 3 (R$ 1,5 milhão), assinada nesta segunda pela prefeita Juliana Pavan e aquisição de novas bombas (R$ 6,94 milhões até novembro). Atualização do parque de hidrômetros com 15 mil unidades novas, no valor de R$ 2,34 milhões.
Esse pacote soma R$ 17,1 milhões em investimentos imediatos, fora do orçamento previsto para este ano.
No total, a recuperação completa do esgoto da Avenida Brasil deve custar cerca de R$ 60 milhões até 2026 (saiba mais ao longo da matéria).
Neste momento, a Emasa está com R$ 25 milhões em superávit, resultado de cortes e aumento de arrecadação nos primeiros meses da atual gestão.
A receita prevista para 2025 é de R$ 140 milhões, sendo que o custo com pessoal é de R$ 21 milhões.
A Emasa estima que 60% são destinados ao tratamento de esgoto (R$ 71 milhões por ano).
Segundo Auri, o sistema de tratamento tem hoje 95% de eficiência em dias sem chuva, mas quando o pluvial se mistura ao cloacal esse índice despenca, jogando esgoto diretamente no mar.
“Estamos tratando esgoto como se fosse Balneário Camboriú e Camboriú juntas. É um custo a mais que leva à ineficiência da rede de esgoto. Temos que enfrentar o desafio”, afirmou.
Obras polêmicas na Avenida Brasil
A etapa mais sensível será a recuperação do emissário da Avenida Brasil, que exigirá intervenções em toda a extensão da via. Serão abertas linhas auxiliares para evitar que o esgoto retorne aos prédios, enquanto uma técnica de injeção de material vitrificado dentro dos tubos recuperará o emissário.
As obras começarão pela Rua 3.700 em direção à 2.900. A previsão é que o primeiro trecho esteja concluído em até 60 dias, embora o contrato preveja quatro meses. Os trabalhos devem seguir até início de dezembro e ser retomados após a temporada.
“Já há projeto, vamos ter que intervir em toda a Avenida Brasil e vai ser uma grande polêmica, porque vai importunar as pessoas. Já sabemos que vai dar barulho, porque vamos começar a abrir a Brasil, mas precisamos fazer. Ninguém gosta de atrapalhar a cidade, mas estamos tratando de saúde pública. Temos responsabilidade e a prefeitura autorizou. A licitação deve ser aberta dia 22 de setembro e a obra inicia no começo de outubro”, destacou Pavoni.
Como a obra será feita
Auri relatou que fará duas linhas de esgoto, na questão de um metro e meio do meio fio, de lado a lado, para conectar todas as ligações diretas na Brasil nessa nova linha.
A expectativa é fazer isso em 60 dias e aí, passando a temporada, em 2026 recuperar o primeiro trecho do principal emissário de esgoto na Brasil, que foi feito na década de 80, que é com uma anilha de concreto.
“É de metro a metro, então ela (a anilha) se mexeu devido às construções em toda a Brasil e hoje ela sofre muita infiltração de água do subsolo. Isso precisamos combater e vamos preparar para arrumar o grande emissário da Brasil. É impossível hoje nós imaginarmos que vamos fazer um novo emissário e cavar a Brasil na média de 5 metros… aí nós iríamos falir a cidade. Como hoje tem tecnologia para que a gente recupere o sistema sem fazer essa intervenção de cavar, então é isso que nós vamos fazer”, explicou.
A obra da preparação está avaliada em pouco mais de R$ 1 milhão, mas para recuperar o emissário ainda não houve licitação.
“Mas nós temos o orçamento de R$ 15 a 20 milhões por quilômetro. Temos esse valor e temos como fazer. Nós vamos licitar e aí vamos ver empresas com muita tecnologia embarcada, pois não é qualquer empresa que faz esse tipo de obra. Eu creio que nós deveremos investir na Brasil algo em torno de R$ 60 a 70 milhões”, pontuou.
Prefeita cita ‘coragem e transparência’

A prefeita Juliana Pavan reforçou que a administração vai enfrentar o problema de frente, mesmo com o desgaste político e o incômodo à população.
“Trabalhamos não com maquiagem e sim com a causa. Não adianta ter uma cidade quase 100% saneada (uma bandeira bastante citada pelo ex-prefeito, Fabrício Oliveira) se não for o tratamento adequado. Falar dessas ações é sobre saúde pública. Fiquei preocupada, mas aliviada, porque o problema tem solução. Não poderia empurrar com a barriga, não é o meu jeito”, afirmou.
Juliana disse ainda que, neste momento, a prioridade é a poluição ambiental. O cabeamento subterrâneo, cujo custo é elevado, ficará para 2026, dentro da obra do Calçadão que já está em andamento com a iniciativa privada (ela disse que o custo é muito alto, e que a situação da Emasa precisa ser resolvida urgentemente).
“O cabeamento vai ficar pra outro momento, mas vai ser feito em 2026 na obra do Calçadão, que já está em andamento com a iniciativa privada. Faremos o cabeamento subterrâneo do Calçadão da Central e Rua 51. Na Avenida Brasil neste momento não tem como fazer e não tem valor para isso, o foco neste momento é no tratamento do esgoto”, acrescentou.
Sobre o impacto no trânsito da Avenida Brasil, garantiu que duas faixas serão mantidas abertas:
“O trânsito pode ficar lento, mas não vamos interromper. Por que não utilizar esses dois meses, se temos recurso e consciência do problema? Eu não me sentiria tranquila sabendo disso e não agindo”, pontuou.
Um desafio histórico
O sonho de devolver à Praia Central a balneabilidade plena, inclusive em dias de chuva, foi chamado de “desafio histórico” pela gestão municipal. Auri destacou que o Projeto Praia 100% Limpa não pode ser projeto de governo, mas de cidade.
Se cumpridos os prazos, Balneário Camboriú terá, em até dois anos, a orla 100% de balneabilidade assegurada por obras estruturantes.
“Vamos acompanhar e fiscalizar para que tudo saia do papel. É preciso expor para a comunidade, pois é um assunto sensível e importante para toda a cidade – por isso será debatido na Câmara. Queremos elevar a imagem da cidade como cidade que está em pleno desenvolvimento e que tem obras estruturantes que precisam ser feitas, e não me falta coragem para ir fazer. Está tudo muito organizado, a licitação em andamento, com tema sendo apresentado para a imprensa e comunidade. Se não fizerem da forma correta (a empresa que será contratada) eu chamo a atenção mesmo, porque é o nome da administração que estará lá. Não poderia empurrar com a barriga, não é o meu jeito”, completou a prefeita.

