Funcionários do Hospital Ruth Cardoso, do centro cirúrgico da unidade, procuraram o Página 3 para informar que começaram um abaixo-assinado para solicitar a substituição da atual coordenadora, C.C.M., por entenderem que a atuação dela ‘não vem atendendo as necessidades da comunidade hospitalar’. A prefeitura também foi procurada pelo jornal e se posicionou sobre a situação. Saiba mais abaixo.
O que dizem os funcionários
Os funcionários informaram que estão trabalhando sob pressão da nova coordenadora, inclusive atuando 12 horas sem poder se alimentar. O pedido para a troca de coordenação seria para garantir ‘um ambiente saudável, respeitoso e produtivo para todos os envolvidos’ e pedem que as autoridades avaliem a demanda (troca da coordenadora).
Uma nota que circula em grupo de WhatsApp cita ainda que, supostamente, a coordenação não possui conhecimento e preparo para atuar no setor.
Pronunciamento da prefeitura
A reportagem do jornal procurou o superintendente do processo de estadualização do Hospital Ruth Cardoso, Leocádio Giacomello, que enviou uma nota, assinada por Bruno de Oliveira Lopes, diretor de Enfermagem do hospital, explicando a situação.
Confira abaixo a nota na íntegra:
“Esclarecimentos técnicos e administrativos sobre manifestação coletiva da equipe de enfermagem e administrativa do Centro Cirúrgico
Contextualização e histórico da situação
Em atenção à notificação recebida acerca do abaixo-assinado subscrito por parte da equipe técnica de enfermagem e administrativa do Centro Cirúrgico, vimos, por meio deste, apresentar os devidos esclarecimentos técnicos, administrativos e éticos.
Cumpre registrar, de início, que o documento apresentado deve ser analisado à luz do contexto de reestruturação e qualificação técnica atualmente em curso no setor, iniciado com a chegada da atual coordenação, profissional de perfil técnico diferenciado e experiência comprovada em gestão de áreas críticas.
A partir de sua atuação, foi possível identificar necessidades de reorganização operacional, de revisão de fluxos assistenciais e de reforço das práticas de biossegurança, de modo a alinhar o funcionamento do Centro Cirúrgico às normas sanitárias e padrões de qualidade exigidos pela legislação vigente.
Cabe salientar que o Centro Cirúrgico é área crítica e de alta complexidade, regulada por rígidas normas de biossegurança, assepsia e rastreabilidade de processos, nos termos da RDC nº 50/2002, RDC nº 15/2012 e RDC nº 36/2013 da ANVISA, que impõem obrigatoriedade de planejamento, registro, controle e liderança técnica qualificada. Nesse sentido, a reorganização setorial vem sendo pautada na segurança do paciente e na melhoria contínua da qualidade assistencial, com base no modelo de Avedis Donabedian (estrutura, processo e resultado) e nos conceitos de barreiras de defesa de James Reason, voltados à prevenção de eventos adversos e à cultura não punitiva, porém responsável.
Assim, as resistências pontuais hoje observadas refletem o enfrentamento de um processo de transição gerencial necessário, que envolve restabelecimento de normas, reorganização de fluxos e readequação de práticas à conformidade técnica exigida por um ambiente cirúrgico seguro.
Da inconsistência do abaixo-assinado e ausência de elementos técnicos
Na análise do documento encaminhado, observam-se inconsistências relevantes:
Inclusão de assinaturas de colaboradora lotada de outro setor (SAME), respondendo diretamente à outra gestão;
Assinaturas de profissionais desligados da instituição, cujos relatos não guardam contemporaneidade com os fatos narrados;
Subscrições de colaboradores do plantão noturno, que permanecem no setor apenas após o término das cirurgias eletivas, sem participação direta nas dinâmicas de coordenação diurna e fluxos operacionais sob questionamento;
Ausência de qualquer registro formal em canais institucionais (RH, Comissão de Ética de Enfermagem, COREN ou Direção imediata) que sustente as alegações.
Ademais, o teor do abaixo-assinado carece de lastro fático e documental. Expressões genéricas como “não atender às necessidades da comunidade hospitalar” ou “ambiente desrespeitoso” não são acompanhadas de fatos determinados, datas, evidências, protocolos ou indicadores que demonstrem a veracidade das assertivas.
Afirmar a existência de “desrespeito” sem indicação de episódios concretos ou apuração prévia implica violação ao princípio da presunção de boa-fé e da ampla defesa (art. 5º, LV, da CF/88), além de contrariar os preceitos éticos estabelecidos no Código de Ética dos Profissionais de Enfermagem (Resolução COFEN nº 564/2017), que determina, em seu art. 22, o dever de tratar colegas e gestores com urbanidade, respeito e justiça, evitando julgamentos sem evidências.
Do cenário assistencial e das medidas de gestão adotadas
É imprescindível contextualizar que o Hospital Regional Ruth Cardoso atravessa, no presente momento, um processo de transição administrativa decorrente da estadualização da unidade, o que tem gerado ruídos de comunicação, incertezas e inseguranças entre os colaboradores, repercutindo diretamente na adesão às convocações e na estabilidade emocional das equipes.
Conforme demonstram os registros administrativos e memorandos anexos, entre 03 de setembro e 06 de outubro de 2025, foram realizados 103 chamamentos públicos, totalizando 55 técnicos de enfermagem convocados para suprir as vagas em aberto.
Apesar dos esforços, os relatórios administrativos (Memorando nº 63.204/2025) evidenciam dificuldades significativas na reposição de pessoal, seja pela falta de adesão dos convocados, seja pela ausência de perfil técnico adequado às especificidades do setor cirúrgico.
Diante disso, a gestão tem atuado de forma incansável, buscando mitigar o déficit de profissionais, por meio de realocações temporárias, uso controlado de horas extras e reavaliação contínua das escalas, sempre preservando a segurança do paciente e a integridade física e emocional dos colaboradores, conforme preconiza a RDC nº 36/2013 e o Programa Nacional de Segurança do Paciente (Portaria MS nº 529/2013).
Cumpre destacar, ainda, que a Direção de Enfermagem mantém postura transparente e colaborativa, comunicando formalmente às autoridades competentes as situações críticas e as medidas adotadas, a exemplo da Resposta à Notificação Pessoa Jurídica nº 00247.514.00881.2025, encaminhada ao CORENSC, demonstrando a lisura e o compromisso ético da gestão com a supervisão profissional.
Do comprometimento com a ética, o respeito e o diálogo institucional
Reforça-se que em nenhum momento houve qualquer registro de desrespeito, conduta antiética ou postura incompatível por parte da atual coordenação do Centro Cirúrgico. Pelo contrário, a profissional tem se destacado por sua postura técnica, liderança ética e esforço contínuo na reconstrução de processos e no fortalecimento de uma cultura de segurança no ambiente cirúrgico.
Importante salientar que a comunidade hospitalar referida no abaixo-assinado não foi conceituada ou identificada de modo técnico: não se sabe a que universo de pessoas se referem, tampouco se houve metodologia de escuta, diagnóstico participativo ou levantamento de indicadores. Trata-se, portanto, de uma visão restrita e setorial, descolada da governança institucional e sem respaldo em instrumentos de gestão reconhecidos.
A gestão compreende que o cenário de sobrecarga, somado às incertezas da estadualização e à rotatividade de pessoal, pode gerar reações emocionais, tensões e sentimentos de frustração, compreensíveis diante da conjuntura. Entretanto, atribuir responsabilidade individualizada a uma profissional de reconhecida competência técnica e ética não contribui para a solução dos problemas, tampouco se coaduna com os princípios da gestão participativa, equidade e cultura justa preconizados pela teoria de Reason.
Diante de todo o exposto, esta Direção de Enfermagem reafirma que:
O documento apresentado carece de validade técnica e factual, diante da ausência de registros formais e inconsistências nas subscrições;
A atual coordenação do Centro Cirúrgico tem pautado sua atuação na ética, transparência e segurança do paciente, dentro dos parâmetros da legislação sanitária e profissional vigente;
A gestão reconhece os desafios enfrentados pela equipe, porém reforça que as medidas corretivas vêm sendo adotadas de modo contínuo, responsável e documentado;
O diálogo institucional sempre esteve e continuará aberto e pautado no respeito mútuo, conforme orienta o Código de Ética da Enfermagem (art. 22, 23 e 49), buscando fortalecer um ambiente laboral saudável e seguro para todos.
Por fim, reitera-se o comprometimento desta gestão com os princípios da Administração Pública (art. 37 da CF/88), com a qualidade assistencial e com a segurança do paciente, pilares inegociáveis de nossa missão institucional”.

