Renata Rutes
O influencer Jesse Koz e seu cão Shurastey, que eram de Balneário Camboriú, ficaram famosos em todo o país por viajarem no fusca Dodongo com o sonho de chegar ao Alasca. A trajetória do ‘trio’ terminou em 2022, em um acidente próximo à cidade de Portland, nos Estados Unidos, quando o fusca colidiu com um outro veículo e ficou destruído.
A saga de Jesse e Shurastey começou em 2017 e foram ao todo, segundo o influenciador informava, 17 países e mais de 85 mil quilômetros rodados. Além dos fãs, Jesse tinha pessoas importantes em sua vida, como a tia Susana Kozechen, a Susy, e o melhor amigo, o advogado Felipe Pires, a primeira pessoa que soube do falecimento de Jesse.
Os dois se conheceram em 2012 e chegaram a dividir um apartamento. Felipe concedeu entrevista ao Página 3 e contou que participará do filme que está sendo produzido sobre Jesse (haverá um ator o interpretando), o ‘Minha Vida com Shurastey’, que terá gravações em novembro em Balneário Camboriú e será estrelado pelo ator Nicolas Prattes. Acompanhe a entrevista.

JP3: Como começou a amizade de vocês? Você lembra o momento em que percebeu que o Jesse era diferente, com esse espírito livre e aventureiro?
Felipe Pires: Minha amizade com o Jesse não tem uma história mirabolante, não (risos). Ele namorava uma de minhas alunas quando dava aulas de vôlei no João Goulart. Ele sempre estava lá acompanhando os treinos e esperando sua namorada. Até que um dia, após o treino, fomos fazer um joguinho e faltava uma pessoa para completar o time. Falei, “oh gurizão, sabe jogar? entra aí” e ele entrou. Na quadra, no entrosamento do esporte, fomos conversando e vimos que tínhamos coisas em comum, como gostar dos mesmos jogos de videogame, mesmo filmes, mesmo desenhos animados, enfim. Aí ao final da partida já combinamos de dar uns rolês e jogar videogame.
Isso foi em 2012, muito antes dele sequer pensar em viajar. Então, à época, as “aventuras” era só ir na praia, fazer trilhas tipo Pico da Teta, ir em parque aquático e etc. Rolês suaves e perto.

JP3: Como era o Jesse no dia a dia, fora das redes? O público via o viajante e o influenciador, mas como era o amigo, o cara de Balneário que você conhecia tão bem?
FP: Aí é que está o segredo do sucesso do Jesse: ele era autêntico. Muitos influenciadores forçam um personagem nas redes. Desligam o celular e se transformam. Jesse não. O que ele falava na vida digital eram as mesmas coisas que ele falava na vida analógica. Tanto que ele fazia stories descabelado, desarrumado, bocejando, com remela nos olhos. Claro que existia, sim, um pudor, uma intimidade entre os amigos próximos, uma versão que não ia pro on-line. Acredito que todo mundo é assim. É muito do ambiente em que você está que vai fazer você se comportar de determinada maneira. Então, sim, a gente falava palavrão, falava de meninas, falava de nerdices (inclusive tínhamos um canal no YouTube só para falar de coisas nerds). O que posso destacar do Jesse offline é a sua lealdade com as pessoas, honestidade exagerada (se você estivesse mal vestida ele iria falar na sua cara), não medir esforços para ajudar os outros, mas, por ser curitibano, ele era meio chucro, como se fosse um animal não domesticável, sem dar muita confiança para estranhos (pelo menos antes de viajar). Em resumo: o Jesse era autêntico e o que ele demonstrava nas redes sociais não era tão diferente de fora das redes sociais. Por isso costumo dizer que ele não tinha 400 mil seguidores, ele tinha 400 mil amigos.
JP3: Você acompanhava de perto as viagens dele? Como era pra você ver aquele sonho tomando proporções tão grandes?
FP: Eu acompanhava “de dentro para fora”, explico: antes das fotos e legendas irem ao ar, Jesse, na maioria das vezes, rascunhava comigo. Pedia palpites, correções ortográficas, efeitos e filtros para usar, etc. Também teve uma época em que eu tinha a senha das redes sociais e postava as coisas por ele e respondia as pessoas por ele. Até hoje tem gente que jura que estava falando com o Jesse, mas era só eu me passando por ele (risos). Ele curtia o rolê e muitas vezes não tinha sinal de internet e as fotos não upavam, ou ele estava só sem paciência mesmo para responder. Então não é nem que eu “via de perto”, eu via de dentro.
Sobre o “sonho” dele, me parece que não é uma expressão muito bem adequada para o início da viagem, no sentido do projeto. Não é como se ele tivesse construindo algo há anos, com longos planejamentos… não. Era só o Jesse indo, vivendo, explorando, aprendendo no caminho, traçando rotas no decorrer da experiência. Tanto que o objetivo nunca foi “o Alaska” – se fosse, bastaria pegar um avião e ir -, mas sim as aventuras, as experiências, as pessoas, culturas, tradições, rituais em que ele iria desbravando no caminho. Então eram pequenos sonhos, micro sonhos sendo realizados que, somados, formavam o macro. Tenho certeza que ele nunca sonhou, planejou ou imaginou estar na Times Square com o fusca alguns meses antes de realmente estar. Mas respondendo de forma objetiva: era incrível ver meu amigo conquistando tantas coisas. Cada vitória dele, cada checkpoint conquistado, era um troféu, um achievement desbloqueado.
JP3: O que você acha que mais inspirava as pessoas na história do Jesse e do Shurastey?
FP: A Triforce, com certeza, além de mais algumas coisas. A Coragem de largar tudo, de sair da zona de conforto, para se aventurar, sem rumo, sem expectativas e traçar o caminho pelo caminho e, quando surgia um perrengue, não desistir e continuar enfrentando os desafios; a Sabedoria em lidar com as situações, saber se virar com o conhecimento que tinha, seja fazendo alguma gambiarra ou utilizando o carisma e eloquência para pedir ajuda, tanto nas redes sociais quanto presencialmente. Muito astuto e observador, Jesse adquiriu uma sabedoria que não se adquire em nenhuma escola ou faculdade, apenas fruto da experiência real da estrada, das ruas, da mata, enfim, dos caminhos que ele passou; a Força, nesse contexto de espírito, pois em muito tentou desistir, desanimou muitas vezes, passou fome, passou frio. Muita gente acha que o Jesse esbanjava boa vida e que tinha dinheiro infinito, mas, alerta de spoiler: ele não comia miojo no meio do mato porque ele gostava de comer miojo, ele fazia isso porque era o que tinha. Às vezes era uma refeição por dia e olhe lá! Então se isso não é ser forte, sinceramente não sei o que seria; outros fatores, como mencionei, como lealdade para com seu cão Shurastey, que nunca sequer pensou em abandoná-lo ou fazer a viagem sem ele, honestidade, autenticidade… tudo isso inspirava as pessoas, encorajava as pessoas, animava as pessoas, dava esperança para as pessoas, fazia com que as pessoas vissem que É POSSÍVEL realizar seus sonhos se organizar esses elementos que falei. Nem tudo são flores e todos os outros viajantes que surgiram inspirados no Jesse podem confirmar isso.
JP3: Tem alguma lembrança ou história entre vocês que, para você, define quem o Jesse era?
FP: Vish, histórias com o Jesse é o que eu mais tenho, mas não caberia aqui não. Como diz o João Côrtes – ator que vai fazer o meu papel no filme -, só de história minha e do Jesse dava mais um filme. “Minha Vida com Meu Amigo Pires” (Alô, Paris Filmes, fica a ideia no ar aí). Mas assim, pra ser “amigo” de uma pessoa é muito simples e fácil, mas para ser “melhor amigo” existem algumas condições mais apuradas. O que posso dizer é que o Jesse era um cara extremamente engraçado, ao ponto de tonificar o abdômen de tanto rir; ao ponto de ficar com dor de cabeça de tanto rir; ao ponto de só se olhar, sem falar uma palavra, já comunicar e saber do que se está pensando e rir. Com o amigo certo a gente acha o riso nas coisas mais banais e absurdas que existem. Então se fosse definir o Jesse, o meu amigo e não o blogueiro, é ele sendo ‘paiaço’.

JP3: O que você sentiu ao saber que a história do Jesse e do Shurastey vai virar filme?
FP: Fiquei feliz, mas não surpreso. Embora o convite formal veio apenas no pós-morte, a idealização do filme já ocorrera desde 2017, desde os primeiros passos já tecíamos rascunhos de livros, documentários, filmes e demais mídias além da internet. Inclusive ele mesmo postou uma foto falando que imaginava ele e o Dodongo em Hollywood, basta checar as redes sociais dele para conferir essa informação. Bom, mas por óbvio que eu preferia mil vezes ter um amigo vivo do que um filme, mas já que a vida está me atirando limões, que eu consiga, ao menos, fazer uma limonada. Conforme o tempo passa, a euforia do filme vai aumentando.
JP3: Você participou de alguma forma na produção, ou foi procurado pela equipe para ajudar a construir a narrativa?
FP: Sim, estou participando! Eu oficialmente sou contratado pela Paris Filmes como colaborador-criativo do roteiro. Presto digamos uma “assessoria”, por assim dizer. Desde fevereiro já venho conversando com os atores, principalmente com o Nicolas Prattes, ensinando como o Jesse era, como ele pensava, como ele se vestia, como ele agia, enfim, dando camadas de profundidade ao personagem para que o Nicolas entregue a versão mais fiel possível, uma versão que vai além do que aparecia nas redes sociais. De igual forma faço com meu ator, digo, com o ator que vai me representar nas telas. É muito mais do que mera narrativa. Eu dou camadas de profundidade para não ficar aquele personagem pastelão bidimensional. Então eu entrego minha alma, meu espírito e, na medida que posso, o espírito e essência do Jesse. Tudo o que eu aprendi com 10 anos de amizade com o Jesse está sendo transmitido ao Nicolas Prattes, até coisas que nem vão estar no filme.
JP3: Para fechar, como você vê o Nicolas Prattes interpretando o Jesse? Acha que ele conseguirá captar a essência dele? Quais são as expectativas suas e da família sobre o longa?
FP: O Nicolas é um cara incrível, surreal! Não existiria pessoa melhor para fazer esse papel. E revelando um segredo para vocês, em bem verdade, antes do Jesse falecer, a gente já “observava” o Nicolas como um ator para um provável filme. Já havíamos visto ele e a semelhança com o Jesse, assim como víamos com o Paulinho Vilhena, por exemplo. Então eu posso afirmar que o Nicolas é o ator perfeito para o papel do Jesse. Tenho certeza que ele vai entregar um Jesse perfeito nas telonas, pois é um ator da mais alta excelência (tanto que ele é o primeiro ator brasileiro da história a conquistar um prêmio internacional por uma atuação em novela).
Sobre as minhas expectativas: elas são altas! Mas confesso que podiam ser mais altas ainda. Isso porque tem algumas coisinhas que não concordo e, obviamente, não estão sob meu controle. Por exemplo, o nome do par romântico do Jesse no filme, que vai ser Dora. Eu particularmente não gostei muito, não que eu esteja falando mal da escolha e muito menos da Marina Moschen – que é não é apenas bonita, mas sim o próprio conceito de beleza -, mas concorda comigo que “Dora” não parece ser o nome de uma garota nascida nos anos 90? Mas de forma geral estou curtindo tudo! Ficando maravilhado com tudo! Até o cuidado com as tatuagens do Jesse e as minhas a produção está tendo. Os detalhes do filme são incríveis. O cuidado e o zelo que a Paris Filmes está tendo são incríveis. Toda a equipe é extremamente qualificada e ouso dizer que será o melhor filme brasileiro de uma história real adaptada já lançada!

