As mudanças implementadas no Programa Bolsa Atleta de Balneário Camboriú têm provocado questionamentos nas redes sociais, principalmente pela alteração nos critérios de concessão do benefício.
O diretor-presidente da Fundação, Diogo Catafesta, explicou que a reformulação veio para corrigir distorções históricas, estabelecer critérios técnicos e evitar que o programa continue sendo utilizado de forma política.
O jornal também ouviu dois técnicos sobre o assunto: Diogo Gamboa, do atletismo e Leize Bianchini, do vôlei de praia. Eles defendem a proposta da Fundação Municipal de Esportes, dizendo que Balneário Camboriú realmente precisa valorizar os atletas de rendimento, sob pena de perdê-los para municípios vizinhos. “A proposta da Fundação é investir no mérito e acabar com o assistencialismo”, defendem os dois técnicos. Acompanhe abaixo.
Debate sobre mudanças começou em 2025
De acordo com Catafesta, a discussão sobre o Bolsa Atleta não é recente. Desde 2025, a Fundação vem dialogando com técnicos, professores e profissionais que atuam diretamente com os atletas para avaliar a necessidade de mudanças no edital. Além disso, a FMEBC buscou referências em outros municípios.
“Conversamos com o departamento técnico para ver como funciona o Bolsa Atleta em outras cidades, porque Balneário Camboriú estava perdendo muitos atletas de rendimento pelo baixo valor da bolsa”, explicou.
Apesar de contar com um orçamento considerado alto, cerca de R$ 2 milhões por ano, o modelo anterior não estava sendo eficiente.
“Vimos o que dava para fazer para adequar isso”, disse.
Catafesta adiantou que estão trabalhando esse ano para aumentar o valor para 2027, porque é um desejo da prefeita aumentar esse valor.
Nova lei reorganizou o sistema esportivo do município
Como parte do processo, a Fundação encaminhou à Câmara de Vereadores uma proposta de lei que reestrutura o sistema esportivo de Balneário Camboriú, incluindo o Bolsa Atleta, o Conselho Municipal de Esportes, o Fundesporte e outros instrumentos de gestão, e todos os vereadores aprovaram. A partir da aprovação da lei, a Fundação iniciou efetivamente as mudanças no programa.

Segundo o presidente da FMEBC, o formato anterior do Bolsa Atleta não possuía critérios técnicos claros.
“Antes era um edital único, aberto, em que qualquer professor que indicasse competição ou atleta podia receber o Bolsa Atleta. Não tinha critério nenhum”, afirmou.
Catafesta explicou que isso tornava o programa vulnerável a decisões políticas.
“Antigamente, ficava à mercê de uma comissão montada pelo Conselho Municipal de Esportes e pelo presidente da Fundação, e isso foi utilizado muitas vezes de maneira política”, disse.
Dois editais
Com a reformulação, passaram a existir dois editais ativos.
O primeiro é voltado ao esporte de rendimento, com foco nas principais competições do calendário oficial da Fundação Catarinense de Esporte (Fesporte), como Olesc, Joguinhos, Jasc, entre outras.
“Uma das principais mudanças foi retirar a decisão das mãos de comissões e concentrá-la em quem acompanha os atletas no dia a dia. Com esse novo edital, pegamos os técnicos, a ponta da FMEBC, quem está com os atletas, quem sabe quem se dedica e quem merece”, afirmou.
Segundo ele, cada técnico passa a ter uma quantidade definida de bolsas para distribuir, com base em critérios técnicos e de desempenho.
“Tiramos das mãos da comissão e da Fundação e passamos para a mão de quem tem dever, direito e conhecimento sobre os atletas”, disse.
Para Catafesta, a mudança reforça o princípio da meritocracia. “É sobre meritocracia. Antigamente era quase uma bolsa social, e não é assim. Bolsa atleta é para quem merece”, afirmou.
O segundo edital contempla todos os esportes, além dos de rendimento, e também o paradesporto.
Outro ponto destacado foi o fim da concessão automática da bolsa para todos os integrantes das equipes.
“Antes davam Bolsa Atleta para todos dos times, titulares e reservas, só por participar. Não pode ser assim, tem que ter critério”, afirmou.
Segundo ele, o Bolsa Atleta não pode ser o único motivo para alguém praticar esporte.
“O esporte não pode ser só para ter o benefício da bolsa. Para ganhar [a bolsa] tem que se destacar. A gente não quer prejudicar, a gente quer fazer justiça”, acentuou.
Atualmente, o edital de rendimento conta com cerca de R$ 1,6 milhão, enquanto o edital não rendimento soma aproximadamente R$ 400 mil.
Mesmo com a reorganização, o número total de atletas contemplados segue semelhante ao de anos anteriores.
“Hoje, juntando os dois editais, contemplamos praticamente a mesma quantidade de atletas. Fizemos muitas melhorias – o Bolsa Atleta tem pagamento dos 12 meses garantidos e pode ter um adicional, um 13º pagamento também”, afirmou.
Ele finalizou reforçando que a mudança busca dar sustentabilidade ao programa.
“Se não adequássemos, perderíamos atletas para outras cidades. A ideia é que o Bolsa Atleta deixe de ser uma ferramenta politiqueira e passe a atender, de verdade, as necessidades dos atletas de Balneário Camboriú”, concluiu.
Benefício deve valorizar atletas de rendimento

Diogo Gamboa, técnico de alto rendimento (IABC/FMEBC), disse que é uma luta para manter os atletas vitoriosos em Balneário Camboriú e agora esse cenário ficou indefinido.
“O edital traz uma proposta boa, que focou nos atletas de rendimento, que nós brigamos muito para manter no município, em paralelo a algumas conquistas de captação de recursos, através de lei de incentivo, para manter esses grandes atletas aqui. Mas com Esse outro edital dificultou um pouco, os recursos ficaram menores, porque estão buscando um grande número de atletas e isso foge da meritocracia, de valorizar os atletas”, comentou o técnico.
Diogo, que tem em sua equipe destaques nacionais e internacionais, como Guilherme Orenhas, Anny Caroline de Bassi, Isabel de Marco, Mayara Vicentainer, entre outros, inclusive um atleta olímpico, Douglas Mendes Hernandez, destacou que a nova gestão estimulou uma proximidade boa, inclusive com a prefeita Juliana, que acompanha de perto o trabalho, os problemas e as conquistas.
“Essa proximidade nós sempre buscávamos e agora isso está acontecendo, ela está entendendo nossos problemas, assim como o Diogo Catafesta, sempre muito próximo. Conheço outros municípios e sei que poucos têm tantas condições de apoio direto, viagens, competições, professores, materiais de treino como Balneário Camboriú oferece, mas no Bolsa Atleta vejo que precisamos seguir modelo de outros municípios, que priorizam os ícones do esporte, porque eles vão servir de espelho para os mais novos, porque fizemos grandes manobras para manter essa equipe vitoriosa e agora estou temerário com o que pode vir a acontecer”, finalizou Diogo Gamboa.
Não pode ser um programa de assistencialismo

Leize Bianchini, técnica de vôlei de praia, disse que Balneário Camboriú precisa focar nos atletas de rendimento e concorda integralmente com a proposta da Fundação.
“Quando a Fundação lançou aquele primeiro edital, com aumento dos valores comparado com os do ano passado, ela estava realmente buscando uma valorização dos atletas do rendimento. Na minha opinião, o Bolsa Atleta tem que atender por mérito, é um investimento no atleta de rendimento e não usar o programa como assistencialismo, porque se abre novo edital, aumenta o número de vagas e diminui o valor, estamos fazendo assistencialismo e não valorizando o atleta de rendimento. Como vamos manter atletas de alto nível em Balneário Camboriú se os municípios vizinhos aumentam o Bolsa Atleta de um ano para outro”, questionou Leize.
O vôlei de praia perdeu esse ano seus dois melhores jogadores, Thomaz Endler e Arthur Póvoas, atletas de nível nacional e internacional, que vão representar Itapema. A técnica Leize Bianchini disse que não foi somente por causa do Bolsa Atleta, mas ‘também’ foi por isso.
“E vamos perder outros atletas para os municípios que investem no benefício como forma de valorizar os atletas de rendimento. A Fundação nos apoia em tudo, viagens, competições, alimentação, fisioterapia, e está certa na proposta do Bolsa Atleta que realmente precisa mudar, senão vamos perder outros nomes importantes que foram construídos em nossas bases inclusive”, disse a técnica.

