CUIDAR E EDUCAR: A ÉTICA COMO CIMENTO SOCIAL

Marisa Zanoni Fernandes
Ex-vereadora em Balneário Camboriú, é doutora em educação e professora universitária.
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As mochilas novas brilham, os uniformes guardam o cheiro de recomeço; o choro e a ansiedade que ressoam e o portão das escolas volta a ser o epicentro de uma expectativa coletiva. Fevereiro chegou. Mas, enquanto o calendário marca o início do ano letivo, uma pergunta persiste entre os prédios de nossa Balneário Camboriú: a cidade está pronta para acolher suas crianças e adolescentes, ou apenas os tolera?

Falar de ética na educação — a partir da primeiríssima infância — exige que abandonemos o conceito de que cuidar e educar seja um ato puramente técnico ou instrutivo. Cuidar e educar é, antes de tudo, um exercício de hospitalidade. O filósofo Emmanuel Levinas nos ensina que a ética nasce no encontro com o “rosto do outro”. E o que é a criança e o jovem, senão rostos que nos convocam à responsabilidade? Do bebê que chora no berçário ao adolescente que busca seu lugar no mundo, o apelo é o mesmo: “Você me vê? Eu importo?”.

No entanto, em um mundo que tem pressa, o cuidado muitas vezes se torna mecânico. Esquecemos que o desenvolvimento humano é um tecido feito de vínculos e reconhecimento. Como alerta Axel Honneth, o sujeito só se constitui quando é validado pelo outro. Essa validação nasce de uma escuta sensível e transversal: no berçário, ela reside no detalhe do toque que respeita a alteridade do bebê; na infância, na escuta das curiosidades que inventam o mundo; e na adolescência, no acolhimento das metamorfoses e buscas que marcam essa fase. Sem esse reconhecimento, a escola vira uma engrenagem fria e o cimento social se racha, pois é o sentimento de ser valorizado que permite a cada criança e jovem tornar-se, enfim, protagonista da própria história.

Mas a ética não termina nos muros da escola. Ela transborda. O corpo de cada estudante é o seu primeiro território de existência — um corpo-território que carrega ancestralidade e sonhos. Respeitar esse território significa oferecer uma cidade que não os expulse, que não os veja como obstáculos ao trânsito ou meros consumidores. Uma cidade sem espaços de convivência, sem calçadas seguras para o caminhar ou sem políticas públicas que priorizem o cuidado e a educação, o humano sobre o comercial, falha no seu pacto ético com as novas gerações.

Precisamos superar o abismo entre o cartão-postal e a vida que pulsa em cada escola, em cada lar. Crianças e adolescentes não são “cidadãos do futuro”. Eles são cidadãos do presente. Quando o poder público e a sociedade investem na qualidade desse acolhimento, não estão apenas cumprindo um dever; estão produzindo o “cimento” que sustenta a saúde pública, a segurança e a coesão social. Uma criança ou um jovem que se sente reconhecido e protegido pela sua cidade floresce mais, adoecem menos.

Neste retorno às aulas, meu convite — a gestores, educadores e famílias — é para que olhemos para nossas crianças e nossos estudantes com esperança crítica. Que a nossa ética não seja a das normas mudas, mas a da presença inteira. Que a gente entenda que o futuro não se promete: ele se constrói agora, no respeito ao tempo de cada um e na coragem de colocar o cuidado e educação das crianças e da juventude no centro de todas as nossas decisões urbanas.

Afinal, se a educação e o cuidado forem o nosso cimento social, Balneário Camboriú não será apenas uma cidade de grandes edifícios, mas uma cidade de grandes encontros, onde o protagonismo da vida seja o nosso projeto mais alto e as possibilidades sejam, finalmente, alicerçadas no humano.

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