Por Fernanda Peukert
O uso excessivo de telas por crianças e adolescentes se tornou um dos principais temas nas conversas entre pais, educadores e especialistas em comportamento infantil. São frequentes as preocupações com distração constante, dificuldade de concentração, irritabilidade e dependência digital. Diante desse cenário, muitos responsáveis recorrem à solução mais imediata: proibir ou limitar drasticamente o acesso.
Mas será que a proibição é, de fato, o caminho mais eficaz?
Vivemos em um mundo digital. A tecnologia não é mais uma novidade — ela é parte estrutural da sociedade, do mercado de trabalho e das relações humanas. Nossos filhos crescerão em um ambiente ainda mais conectado. Portanto, a pergunta talvez não deva ser “como afastar das telas?”, mas sim “como ensinar a usar melhor as telas?”.
A grande diferença está no papel que a criança assume diante da tecnologia: consumidora ou criadora.
Quando passa horas apenas assistindo vídeos ou jogando, ela está consumindo conteúdos prontos, pensados por outras pessoas para manter sua atenção. Já quando aprende programação, por exemplo, ela deixa de ser apenas usuária e passa a compreender como aquele universo funciona. Criar um jogo, desenvolver uma animação ou resolver um desafio lógico exige planejamento, organização do pensamento, criatividade e persistência.
Nesse processo, o tempo de tela deixa de ser passivo e automático e passa a ser intencional e produtivo.
Além disso, aprender a programar desenvolve pensamento crítico de forma natural. A criança aprende a testar hipóteses, identificar erros, buscar soluções e compreender que cada escolha gera uma consequência. O erro deixa de ser motivo de frustração e passa a ser parte do aprendizado. Isso fortalece autonomia, resiliência e segurança emocional — habilidades essenciais dentro e fora do ambiente digital.
Outro ponto fundamental é a responsabilidade digital. Quando a criança entende como jogos e aplicativos são construídos, ela passa a enxergar a tecnologia com mais consciência. Ela percebe que por trás de cada recurso existem estratégias, algoritmos e decisões. Essa compreensão muda a postura diante das telas. O uso se torna mais equilibrado porque há entendimento.
Proibir pode gerar resistência. Educar gera autonomia.
Isso não significa liberar acesso irrestrito, mas sim orientar, dialogar e oferecer experiências que transformem a relação com a tecnologia. Não se trata apenas de diminuir o tempo de tela, mas de melhorar a qualidade desse tempo.
Precisamos formar jovens que saibam usar a tecnologia com propósito — e não apenas seguir o que ela impõe.
O debate sobre telas não deve ser pautado apenas pelo medo, mas pela responsabilidade. A tecnologia pode ser distração, mas também pode ser ferramenta de criação, inovação e desenvolvimento cognitivo. A diferença está na forma como a utilizamos e, principalmente, na forma como ensinamos nossas crianças a utilizá-la.
Educar para o mundo digital é, acima de tudo, educar para o mundo real.
(Fernanda Peukert é empreendedora na área de tecnologia educacional, diretora da SuperGeek Itajaí. Desde 2018, atua no desenvolvimento de crianças e adolescentes por meio da programação, formando jovens criadores, não apenas consumidores de telas.)


