Queda no número de filhos provoca um nó na economia, diz pesquisador britânico

Países da América do Sul estão reproduzindo as baixas taxas de natalidade que já eram comuns na Europa e no Japão, o que gera um grande problema para a economia global daqui a 20 anos

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(FOLHAPRESS) – O número de idosos no Brasil já supera o de crianças: são 32,1 milhões de pessoas com mais de 60 anos, ante 26,4 milhões de crianças de até nove anos, segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Os grupos representam, respectivamente, 15,8% e 13% da população nacional, de acordo com o último Censo demográfico, de 2022. Trata-se de uma mudança profunda em relação ao Censo de 2000, quando os idosos somavam 8,6% e, as crianças, 19,4% da população.

“Países da América do Sul estão reproduzindo as baixas taxas de natalidade que já eram comuns na Europa e no Japão, o que gera um grande problema para a economia global daqui a 20 anos”, disse à reportagem o demógrafo britânico Paul Morland, 61, pesquisador associado da BirkBeck, Universidade de Londres, e um dos principais estudiosos dos efeitos da combinação entre aumento da longevidade e queda da natalidade sobre a economia.

Morland chama a atenção para a rapidez deste processo na Coreia do Sul, que enfrenta um declínio populacional de mais de 85% em apenas duas gerações. No país asiático, a cada 100 casais nascem entre 33 e 35 filhos, que dão origem de 11 a 12 netos. É uma taxa de fecundidade de 0,72 a 0,75 por mulher. No Brasil, é de 1,55 por mulher, com empresas se moldando para atender famílias cada vez menores. Seriam necessários 2,1 filhos por mulher no mundo para manter a população estável.

“Se não temos crianças, economizamos dinheiro com educação. Ao mesmo tempo, vamos viver cada vez mais. Tudo isso é maravilhoso. Mas não teremos trabalhadores suficientes daqui a 20 anos para nos apoiar na velhice, nem filhos”, diz Morland, que participou no início de fevereiro da Cúpula Mundial de Governos, em Dubai, com a proposta de reunir lideranças globais para discutir economia, inovação e políticas públicas.

De acordo com o especialista, os países desenvolvidos podem adiar temporariamente os piores efeitos deste cenário com a imigração. Mas muitas nações, inclusive aquelas de onde os imigrantes vêm, deverão envelhecer antes de enriquecerem, afirma. Para ele, o colapso da fertilidade é um problema macro global, não uma questão social isolada.

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“É o trabalho que faz girar a economia e haverá cada vez menos gente jovem trabalhando. Ao mesmo tempo, os mais velhos tendem a não arriscar seu capital, a não empreender, o que gera cada vez menos inovação”, diz. “Pessoas mais velhas, por sua vez, precisam de alguém para cuidar delas e não haverá mais gente nova disponível. E os governos não terão orçamento para cuidar da saúde dos cidadãos à medida que eles envelhecem, porque menos gente contribuiu com impostos”, afirma o especialista, que trata do assunto em “No One Left: Why the World Needs More Children” (Ninguém Sobrou: Por Que o Mundo Precisa de Mais Crianças, em tradução livre), editora Swift Press (2024).

O pesquisador acredita que questões culturais afetam diretamente o baixo índice de natalidade. Mas não considera que o “trabalho invisível” que recai sobre as mulheres -responsáveis pelos cuidados com a casa e a família, além do trabalho remunerado- seja determinante para os baixos índices de natalidade. No Brasil, o trabalho invisível representa cerca de 8,5% do PIB (Produto Interno Bruto) e aumenta a sobrecarga das mulheres o que, segundo alguns estudiosos, contribui para a disposição delas de terem menos filhos ou não tê-los.

“Somos um tanto obsessivos em relação ao PIB: se alguém trabalha fora, faz parte do PIB. Se alguém trabalha nos cuidados domésticos e com filhos, não é considerado PIB. Temos que mudar um pouco isso”, diz. “Mas acho que a decisão de ter ou não filhos pertence ao casal, não é uma decisão da mulher. Eles precisam ser encorajados e apoiados para isso, pela sociedade e pelo governo -com subsídios a moradia, educação, oferta de cuidados, flexibilidade no trabalho etc.”, afirma.

O especialista não apoia, porém, políticas públicas e benefícios corporativos para congelamento de óvulos, a fim de que as mulheres engravidem mais tarde. “Acho que isso só encorajaria as pessoas a terem seus filhos mais e mais tarde. É muito melhor tê-los quando você tem energia e entusiasmo, entre os 20 e 30 anos”, defende.

Morland também não considera que as novas gerações são mais “egoístas” em relação às anteriores. “É claro que mulheres e homens querem ter uma vida fora de casa, construir suas carreiras. Mas precisam ser encorajados a fazerem isso e terem filhos”, diz. “Eu fiz isso, meus filhos estão fazendo isso, nós podemos fazer isso acontecer”, afirma o demógrafo, pai de três filhos e avô de quatro netos. “Me tornar pai foi a melhor decisão que tomei.”

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