Como funciona o mercado de apostas sobre resultados de eleições, jogos e celebridades

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(FOLHAPRESS) – Kalshi, Polymarket e outras empresas do chamado mercado de previsão funcionam como bolsas de apostas sobre eleições, jogos, reality shows e celebridades. Empresas do mercado preditivo estão proibidas de operar no Brasil desde abril, pois o governo entende que oferecem prognósticos esportivos sem respeitar as regras impostas às bets, como o pagamento de uma licença de R$ 30 milhões, cobrança de impostos que são destinados à arrecadação federal e regras contra lavagem de dinheiro. Segundo a cofundadora da Kalshi, a brasileira Luana Lopes Lara, 29, a empresa espera reverter a decisão do governo.

Entenda em 9 pontos o que é o mercado de previsão e por que os sites foram proibidos no país.

COMO FUNCIONA O MERCADO DE PREVISÃO

As empresas do mercado de previsão vendem contratos do tipo “sim ou não” sobre eventos reais. É possível palpitar sobre jogos de futebol, a final de um reality show, a data do casamento de uma celebridade e até sobre o resultado de uma eleição. O comprador recebe um valor caso seu palpite se realize ou perde caso erre.

As empresas do mercado de previsão argumentam que os bônus para quem acerta apostas têm base nos valores investidos, como em uma bolsa de valores. Os títulos podem ser negociados a qualquer momento.

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As companhias do setor podem lucrar com uma taxa sobre a venda do contrato, com o tráfego que recebem na internet e vendendo as informações estatísticas sobre as apostas.

A DIFERENÇA PARA AS BETS

As bets dizem que não há diferença entre o título do mercado de previsão e a aposta comum. As entidades do setor pedem restrições aos mercados de previsão desde o início deste ano.

Em ambos os casos se aposta que algo vai acontecer ou não. A pessoa ganha dinheiro se acertar o palpite. A diferença é contratual e de cobrança.

Nas bets, a cotação de uma aposta pode ser determinada pelas próprias casas ou flutuar com o mercado, como acontece nos mercados de predição. O que muda é a cobrança de uma taxa de serviço da banca, que pode ser explícita ou implícita. O mercado de previsão nem sempre cobra corretagem, já que ganha dinheiro de outras formas.

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QUAL O TAMANHO DO MERCADO

O setor, que movimentou US$ 51 bilhões em 2025, ganhou destaque por oferecer apostas nas eleições americanas entre Donald Trump e Joe Biden em 2024 e seguiu se expandindo nas áreas de esporte, criptomoedas, famosos e, mais recentemente, eventos relacionados a guerras.

A consultoria americana Bernstein projeta que o avanço global de Kalshi e Polymarket possa alavancar o mercado de previsão a um patamar de US$ 1 trilhão em termos de fluxo de dinheiro em 2030.

ONDE O CERCO JÁ FECHOU

No total, usuários de 53 países não podem acessar mercados de previsão. Em geral, são nações com regulação de apostas que restringiram ou bloquearam o acesso a mercados de previsão sem licença local.

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Veja alguns exemplos além do Brasil:

– Reino Unido: Exige licença da Gambling Commission para qualquer oferta de ‘prediction market’.

– França: A autoridade de jogos iniciou bloqueios à Polymarket em 2024 por falta de autorização.

– Itália e Austrália: Mantêm restrições a sites de apostas offshore sem sede ou representação legal no país.

QUEM SÃO OS PRINCIPAIS ATORES

As maiores empresas do mercado de predição são Kalshi e Polymarket, ambas com avaliações de mercado que superam os US$ 10 bilhões e fundadas por jovens com menos de 30 anos.

A Kalshi foi avaliada em US$ 22 bilhões na sua última rodada de captação de investimentos, realizada em fevereiro, quando recebeu US$ 1 bilhão do fundo Coatue Management. Essa movimentação consolidou a Kalshi como a plataforma dominante no setor, impulsionada por sua adaptação à regulamentação nos Estados Unidos (aprovada pela CFTC, a Comissão de Negociação de Futuros de Commodities) e pela expansão de seus contratos de eventos, que totalizaram US$ 52 bilhões em volume.

A valorização da Kalshi após a atuação da empresa vendendo apostas sobre as eleições americanas tornou a brasileira a pessoa mais jovem do mundo a acumular uma fortuna de US$ 1 bilhão, de acordo com a revista Forbes.

A Polymarket foi avaliada em US$ 15 bilhões, após captar US$ 400 milhões em abril. Isso representa um crescimento significativo em relação à avaliação de US$ 9 bilhões registrada no final de 2025, quando recebeu investimentos da Intercontinental Exchange (ICE), empresa dona da Bolsa de Nova York.

O Ministério da Fazenda brasileiro contabilizou 26 outras empresas menores atuando como mercados de predição no Brasil. Todas foram bloqueadas.

COMO SE APOSTA NO MERCADO DE PREVISÃO

Kalshi e Polymarket operavam no país sem regulação, recorrendo a remessas internacionais para uma conta nos Estados Unidos.

Os brasileiros podiam enviar dinheiro para as plataformas usando criptoativos e cartões internacionais. A Polymarket tem uma página comercial no Instagram dedicada ao Brasil verificada pela Meta.

Com isso, o público ficava restrito a pessoas com acesso a criptomoedas ou contas globais, como Wise.

QUAIS FORAM AS VIOLAÇÕES

O Ministério da Fazenda concluiu que os mercados de previsão operam sob a mesma lógica das bets. Por isso, a Kalshi e a Polymarket deveriam seguir as mesmas regras que os sites de apostas, como o pagamento por outorga de R$ 30 milhões e a restrição a temas como esportes e resultados de jogos virtuais como o Fortune Tiger, o tigrinho. Os sites de aposta regulares não podem, por exemplo, oferecer apostas sobre eleições.

De acordo com o governo brasileiro, Kalshi e Polymarket não pagaram nem respeitaram as regras locais contra vício em jogo.

As empresas afirmam em anúncios, por exemplo, que é possível lucrar no mercado de previsão, o que é proibido.

A legislação brasileira ainda determina que as apostas só podem ser feitas com Pix, para evitar endividamento com cartão de crédito e a lavagem de dinheiro com criptoativos. Mas esses meios de pagamento estão disponíveis nas plataformas de mercado de previsão.

Em relação às apostas em temas políticos, especialistas em direito eleitoral alertam que produzir estatísticas sobre o processo eleitoral deveria ser uma atividade supervisionada pelo TSE (Tribunal Superior Eleitoral). O tribunal já derrubou sites que ofereciam o serviço.

O banco de investimento XP fechou uma parceria com a Kalshi e vende contratos futuros sobre eventos ligados a economia, como alta no desemprego ou queda na inflação. A venda desses títulos somente via plataforma da XP ainda estaria legalizada.

RELATOS DE VÍCIO EM APOSTAS

Nos Estados Unidos, onde os mercados de predição começaram a atuar, há relatos de pessoas com relações compulsivas com essas plataformas. Como ocorre com as bets, uma consequência comum do adoecimento é o endividamento.

Especialistas americanos em saúde pública estimam que 2% a 3% dos usuários ativos desenvolvem transtornos de comportamento graves, um índice similar ao de cassinos online.

Segundo o National Council on Problem Gambling (NCPG) em seu censo de 2025, 52% dos apostadores de eventos admitiram tentar recuperar perdas imediatamente com novas apostas, um indicador clássico de comportamento compulsivo.

COMO FICAM AS REGRAS COM A DECISÃO DO GOVERNO

A Resolução do Conselho Monetário Nacional trouxe uma vedação expressa à oferta de derivativos baseados em eventos esportivos, políticos, sociais ou culturais. Ao mesmo tempo, o Ministério da Fazenda reafirmou que as apostas de quota fixa são restritas a eventos esportivos e jogos online, afirma Leonardo Henrique Roscoe Bessa, advogado que é consultor do Conselho Federal da OAB

“O efeito prático dessas normativas é a exclusão jurídica das plataformas de previsão que operam com temas não financeiros, como política ou entretenimento. Como não se enquadram no conceito legal de apostas esportivas nem na definição permitida de derivativos, essas plataformas perdem o amparo normativo para operar no Brasil”, disse o advogado.

A Secretaria de Prêmios e Apostas, ligada ao Ministério da Fazenda, deve supervisionar as apostas esportivas e cassinos virtuais, enquanto a CVM (Comissão de Valores Mobiliários) supervisionará os derivativos financeiros, como índices econômicos ou fenômenos climáticos que podem influenciar o agronegócio.

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