“Sobre a Solidão na Multidão”, Claudemir Casarin

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Há pouco, li com profunda tristeza num jornal nacional, que uma garota de 21 anos morreu ao se jogar de uma ponte. Não foi suicídio. A mídia envolvida chama de fatalidade. Vida que segue, diria um antigo jornalista local. Mas se prestarmos atenção no noticiário veremos que não foi um acontecimento isolado. Do que estou falando?

Todos os dias, há muito tempo, essas mortes chamadas acidentais, aparentemente desconexas, se repetem nas manchetes e depois são esquecidas como jornal velho. Mas se olharmos com atenção tem um padrão, eufemisticamente, apresentado como esportes radicais.

Desafiar a morte tem se tornado, cada vez mais, um prazer incentivado pela mídia, patrocinada por marcas famosas, como aquela que diz que “te dá asas”. E as vidas perdidas nesses eventos suicidas são colocadas na conta do destino. Alguém empinando uma moto na rodovia bate num caminhão. Outro cai no vazio da montanha que escalava. O prazer mortal de ver o velocímetro bater no final do mostrador. Todas mortes lamentadas pelas mesmas mídias, marcas e pessoas que lucram com a espetacularização do risco da vida humana. Algumas vítimas dessa indústria do entretenimento macabro são idolatradas, viram heróis, filmes e até nomes de prédios. A vida humana jogada fora, sem nenhum valor afetivo, publicada ao vivo no ilusório palco do show business.

Quando eu era criança, quase na fronteira do Uruguai, havia uma carreira de carros muito popular disputada nas ruas da cidade. Eu pedia sempre. Meu pai nunca me levou, alegava que: ninguém vai lá abraçar o vencedor, o que alimenta o público é o sangue na pista. Cresci sem aprender o gosto da dor alheia. Ainda hoje quando volto a Pelotas e passo pela Fernando Osório, lembro o significado da famosa “curva da morte”.

O que a mídia não informa e quando publica é numa notinha de rodapé, é que quem coloca a vida em risco, desnecessariamente, está doente. Muito, muito, muito doente. Precisando de ajuda especializada e não de lakes. Acometido da mais terrível e incompreendida enfermidade dos nossos tempos: solidão-em-meio-a-multidão. São muitos os seus rótulos, o mais comum é depressão. A OMS a classifica como a pior pandemia do século XXI. Todo mundo já ouviu falar. Muita gente intrometida acha que entende do assunto. Os bares e igrejas estão cheios de garrafas vazias e falsos profetas prometendo cura ou esquecimento. Curiosamente, os consultórios de Psicologia nem tanto.

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No limite, desafiar a morte, espremer a vida, abafa, por um instante, a infinita dor do horror de não pertencer a nenhum relacionamento. Sentir-se só é no mínimo muito estranho, quando tem tanta gente ao redor. Dá uma sensação de incompetência. E isso nos leva ao amor. Amar (não estou falando de sexo) é o único alimento da alma humana e isso dinheiro não compra. O que dinheiro compra fácil é visibilidade. E tem muita gente confundindo visibilidade com carinho. Seguidores de redes sociais com amigos. Exposição com afeto…

Talvez a única experiência de vida (comprável) que possa se aproximar da emoção de amar, seja mesmo colocar a vida em risco, sob o olhar sem noção de quem se alimenta da morte (o oposto de amar).

Mas voltando ao que aprendi com meu pai, o preço de arriscar a vida é sempre muito alto.

Que tal começar a aprender a amar?

Claudemir Casarin é psicólogo e reside em Balneário Camboriú

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