Após debate sobre microcoletores, amplia discussão sobre coleta seletiva e situação dos catadores em Balneário Camboriú

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A discussão sobre o futuro da coleta seletiva em Balneário Camboriú ganhou um novo desdobramento nesta quinta-feira (2). Poucos dias após a repercussão da indicação do vereador Guilherme Cardoso (Republicanos), que propõe estudos para a implantação de microcoletores elétricos no Centro da cidade (relembre aqui), representantes de catadores, da Cooperativa Renova, da Secretaria do Meio Ambiente (Semam) e do Legislativo participaram de uma reunião na Câmara de Vereadores para discutir os impactos que mudanças no sistema de coleta podem causar à reciclagem e às famílias que dependem dela para sobreviver.

O encontro foi organizado por Arthur Rancatti, assessor do deputado estadual Marquito (PSOL), que acompanha cooperativas de reciclagem em Santa Catarina. Rancatti é coordenador do Coletivo Itajaí Lixo Zero.

Participaram representantes da associação de catadores, catadores autônomos, a presidente da Cooperativa Renova, Karine Oliveira, servidores da Semam e o vereador Eduardo Zanatta (PT), que acompanhou as reivindicações apresentadas.

Embora a reunião tenha sido motivada pela repercussão do debate iniciado após a indicação de Guilherme, a discussão acabou se ampliando para um tema maior: a política de coleta seletiva no município, a implantação de lixeiras subterrâneas e a relação entre os catadores independentes e a cooperativa responsável pela triagem dos recicláveis em Balneário Camboriú.

Entenda como começou o debate

Divulgação
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Na última semana, o Página 3 publicou reportagem sobre a indicação apresentada por Guilherme Cardoso à Prefeitura de Balneário Camboriú. O vereador sugeriu que o Executivo realize estudos técnicos para implantar microcoletores elétricos no Centro da cidade. A proposta prevê pequenos veículos realizando coletas mais frequentes de resíduos urbanos, diminuindo o tempo em que sacos de lixo permanecem nas calçadas, especialmente em uma região com intenso fluxo de moradores e turistas.

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A justificativa apresentada pelo parlamentar é melhorar a limpeza urbana, reduzir odores, evitar o espalhamento do lixo e tornar a coleta mais eficiente.

Poucos dias depois, a catadora Renata Michelle Ferreira procurou o Página 3 para apresentar um contraponto (relembre aqui). Ela afirmou que, embora a proposta tenha como objetivo melhorar a limpeza da cidade, qualquer mudança que interfira na coleta dos recicláveis pode comprometer diretamente a renda de dezenas de trabalhadores.

Renata também chamou atenção para o fato de que Balneário Camboriú possui legislação específica sobre a participação dos catadores na coleta seletiva e defendeu que o município priorize o cumprimento dessas normas antes de implantar novos modelos de coleta.

Foi justamente a repercussão dessa discussão que motivou a realização da reunião desta quinta-feira.

Lixeiras subterrâneas passaram a ser o principal tema

Divulgação/PMBC
Divulgação/PMBC

Apesar de a indicação de Guilherme tratar especificamente dos microcoletores elétricos, durante a reunião outro assunto acabou dominando os debates: a implantação de lixeiras subterrâneas para armazenamento de resíduos recicláveis. Segundo os participantes, esse modelo representa um risco para a reciclagem porque favorece a contaminação dos materiais.

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De acordo com os catadores e representantes da Cooperativa Renova, quando os recicláveis ficam armazenados em compartimentos subterrâneos, acabam sofrendo ação da umidade, infiltrações e água da chuva. Como consequência, papel, papelão e outros materiais perdem valor comercial ou sequer podem mais ser reaproveitados.

Além disso, segundo os participantes da reunião, o sistema dificulta o acesso dos catadores ao material reciclável e aumenta a possibilidade de que resíduos que poderiam ser reaproveitados acabem sendo destinados ao aterro sanitário.

Karine Oliveira explicou que esse foi o principal motivo da mobilização.

“A pauta principal debatida foi justamente a inviabilidade das lixeiras subterrâneas para armazenamento de recicláveis. Além da contaminação e da umidade, elas acabam prejudicando a coleta seletiva e fazendo com que materiais recicláveis tenham como destino o aterro”, diz.

Segundo ela, esse debate já havia sido levantado anteriormente junto ao vereador Guilherme Cardoso.

“Em outra oportunidade já confrontei o vereador Guilherme, que defende a implantação de novas lixeiras subterrâneas, para que conhecesse efetivamente o trabalho realizado tanto pela cooperativa quanto pelos catadores antes de propagar uma solução que entendemos ser ineficiente”, afirma.

Cooperativa diz que impacto seria imediato

A presidente da Cooperativa Renova reforçou que qualquer alteração na forma de armazenamento dos recicláveis afeta diretamente a renda das pessoas que vivem da reciclagem. Segundo ela, atualmente toda a sustentabilidade financeira da cooperativa depende do material que chega corretamente separado.

“Hoje, além dos catadores autônomos, existe uma cooperativa que vive exclusivamente do material recolhido. Qualquer desvio ou separação incorreta já reduz o ganho dos cooperados. Então imagine armazenar esse material em lixeiras subterrâneas. É totalmente inviável”, pontua.

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Karine afirmou que já havia debatido esse assunto anteriormente com Guilherme Cardoso e chegou a convidá-lo para conhecer de perto o funcionamento da cooperativa.

“A pessoa fala sem conhecimento de causa e não sabe o impacto que isso pode gerar. Eu já o convidei para conhecer nosso trabalho, porque é preciso entender como funciona antes de defender determinadas propostas”, comenta.

Segundo ela, o objetivo da reunião foi justamente apresentar esse cenário aos representantes da Câmara para que futuras decisões sejam tomadas considerando a realidade da reciclagem no município.

A relação entre cooperativa e catadores

Outro tema que ocupou boa parte da reunião foi a relação entre a Cooperativa Renova e os catadores autônomos. Karine explicou que a Renova assumiu oficialmente a concessão dos recicláveis do município após vencer um chamamento público e mantém contrato com a Prefeitura desde 29 de dezembro de 2025.

Ela lembra que a atual gestão da cooperativa surgiu após problemas enfrentados pela entidade anterior e, por isso, o contrato estabelece diversas exigências administrativas e operacionais.

“A gente entrou por meio de chamamento público. Temos um contrato com a prefeitura e precisamos cumprir regras. Caso essas regras não sejam seguidas, a cooperativa é penalizada”, afirma.

Segundo Karine, durante a reunião surgiu o questionamento de que a cooperativa não abriria espaço para os catadores informais. Ela rebateu essa afirmação.

“Nós nunca fomos contra os catadores. Pelo contrário. A cooperativa está aberta para qualquer pessoa que aceite o nosso regimento interno e queira trabalhar dentro das regras estabelecidas”, diz.

Ela contou que, desde que a cooperativa iniciou suas atividades, diversos catadores foram convidados a integrar o grupo. Segundo Karine, o motivo principal para isso não ter dado certo está na diferença entre o modelo de trabalho dos catadores autônomos e o funcionamento de uma cooperativa formalizada. Enquanto o catador independente organiza seus próprios horários e define sua rotina de trabalho, dentro da cooperativa existem horários, divisão de tarefas, normas de segurança e regras estabelecidas pelo contrato com o município.

“O ganho aqui é por produção, então precisa existir justiça entre todos os cooperados. Trabalhamos dentro do aterro sanitário, que possui normas rígidas. Existem horários, regras de convivência e procedimentos que precisam ser respeitados”, conta.

Ela afirma que muitos catadores preferem continuar trabalhando de forma independente justamente para manter autonomia.

“Eles preferem fazer o trabalho no tempo deles. Muitos não conseguem se adaptar ao funcionamento da cooperativa. Isso não significa que exista conflito”, acrescenta.

Karine destacou que respeita a escolha dos catadores autônomos e considera importante que o município também reconheça essa realidade.

“Eles são trabalhadores, são guerreiros e precisam ser respeitados. Cada um escolhe a forma como quer trabalhar”, diz.

Projeto social

Durante a entrevista, Karine também procurou desfazer a ideia de que a cooperativa teria interesses opostos aos dos catadores.

Ela afirmou que a Renova nasceu justamente com uma proposta de inclusão social.

“Constituí a cooperativa em cima de um projeto social. Hoje acolhemos pessoas, geramos renda para famílias e fazemos um trabalho do qual tenho muito orgulho”, comenta.

Segundo ela, além do aspecto ambiental, existe um importante impacto social desenvolvido diariamente pela cooperativa. Karine também destacou que a Renova mantém acompanhamento constante da Secretaria do Meio Ambiente.

“Não posso fazer nenhuma reclamação da Semam. Temos total apoio do secretário Nelson Oliveira, dos fiscais do contrato, dos diretores e dos servidores. É um trabalho construído em conjunto”, diz.

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