Brasil está mais evangélico e mais longe do Evangelho, diz pastor Ed René Kivitz

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(FOLHAPRESS) – O pastor Ed René Kivitz, da Igreja Batista de Água Branca, sente-se um deslocado entre líderes evangélicos. “Hoje eu faço parte do mal, sou visto como um desviado.”

Faz parte da minoria progressista no segmento. A bolsonarização dos púlpitos o empurrou para a periferia evangélica, diz. Não deixa, contudo, “de bater uma estaca”, deixar claro de onde fala: estreou em junho seu programa de YouTube “Fé na sua Fé”, entrevistando a deputada Erika Hilton (PSOL-SP), e lança pela Companhia das Letras “Uma Ideia Elegante de Deus”, em que crava: “O Brasil está cada vez mais evangélico, porém, ao mesmo tempo, cada vez mais distante do Evangelho”.

À Folha Kivitz diz que a ascensão evangélica no país promoveu “trânsito religioso, mas não revolução ética”, e vê o fundamentalismo como erva daninha. Ao dividir a sociedade entre o bem e o mal, esses conservadores interrompem o diálogo. “Quando você enxerga o outro como um ser humano das trevas, você converte ou elimina. Com o mal você não conversa.”

Não que a esquerda esteja se saindo bem em construir pontes. “Ela não compreende a legitimidade da experiência religiosa e, por isso, é preconceituosa.”

*Folha – Houve uma polêmica nas igrejas sobre mudar o horário do culto por causa da Copa do Mundo, se isso é preterir Deus.*

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*Ed René Kivitz -* Na nossa igreja, cancelamos o culto das 18h [no domingo em que Brasil enfrentou Noruega].

*Folha – Pode parecer uma questão menor, mas fala muito sobre essa visão religiosa mais fechada à acomodação cultural. É um fenômeno que cresce entre evangélicos?*

*Ed René Kivitz -* Lamin Sanneh [historiador] diz que o cristianismo é por natureza uma fé multicultural, não pertence a nenhuma civilização específica, e por isso está presente em todas. É essa capacidade de adaptação que o mantém vivo. O cristianismo da África é completamente diferente do europeu.

Essa visão fundamentalista de [não] cancelar culto por causa de jogo é de uma estupidez atroz. Dá até preguiça de tentar explicar. Talvez eu explicaria dizendo que isso significa dar mais importância ao rito do que à experiência. Sempre digo: assim como você pode estar numa arquibancada de futebol de uma maneira sagrada, você pode estar num culto de uma maneira profana.

*Folha – A fórmula de que “o Brasil ficará cada vez mais evangélico, e os evangélicos cada vez mais brasileiros” tem prosperado?*

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*Ed René Kivitz -* É uma relação paradoxal. Quando a busca de intersecção com a cultura é vista como uma degeneração da experiência religiosa, as pessoas tendem a uma resposta fundamentalista. É justamente nessa resposta moralista e dogmática que sufocam a religião. O que chamam de remédio é um veneno.

*Folha – Quais são os dobramentos práticos desse fundamentalismo que o sr. evoca?*

*Ed René Kivitz -* Ele se manifesta no maniqueísmo: a sociedade dividida entre os que são das trevas e os que são da luz, os do mal e os do bem. Quando você enxerga o outro como um ser humano das trevas, você converte ou elimina. Com o mal você não conversa. Esse fundamentalismo hierarquiza a sociedade. Porque quem é da luz deve estar no domínio, e quem é das trevas tem que ser subjugado. Quando um fundamentalista radical mata uma pessoa em nome de Deus, ele não entende que está matando um ser humano. Está eliminando o mal. É, num extremo, a desumanização.

*Folha – Quem hoje, segundo essa percepção fundamentalista, encarna o mal?*

*Ed René Kivitz -* A gente está assistindo ao debate do papa Leão 14 com o movimento ultratradicionalista, que é a versão católica do que acontece no mundo evangélico. O que é que revolta a sociedade brasileira conservadora? A quebra das hierarquias. O homem vale mais que a mulher, o branco do que o negro, o urbano do que o indígena, o magro do que o gordo, o hétero do que o homo. E aí, quando os diferentes do padrão reivindicam acesso aos mesmos direitos, os fundamentalistas dizem que isso é promover a desordem da ordem que Deus estabeleceu.

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*Folha – No seu novo livro, o sr. diz que o Brasil está cada vez mais evangélico e cada vez mais longe do Evangelho. Como o fundamentalismo pode ser derrotado?*

*Ed René Kivitz -* Existe trânsito religioso, mas não uma revolução ética. Deixo de ser católico e me torno evangélico, mas continuo corrupto, pedófilo, adúltero, machista, violento. Por isso digo sobre se tornar cada vez mais evangélico, mas continuar operando com a mesma lógica anterior, de uma religião hegemônica, imperialista, que continua sendo uma religião da culpa, da ganância, uma experiência individualista em que Deus vai alavancar o meu sucesso. Não existe revolução ética no sentido de compreender noções como solidariedade e compaixão.

*Folha – O sr. tem notado as igrejas mais fechadas a vozes não alinhadas ao bolsonarismo?*

*Ed René Kivitz -* Bolsonaro tende a cair no ostracismo. O bolsonarismo precisa de um outro ícone. Estão procurando.

*Folha – Por que acha que o Bolsonaro cairá no ostracismo? Isso se estende à família dele?*

*Ed René Kivitz -* Eles estão num exercício de lidar com todos esses escândalos. E essa polarização personalista tá chata. Você é Lula ou Bolsonaro. A discussão é superficial demais. Não sairemos desse atoleiro se a gente não discutir modelos de superação da desigualdade. Temos uma política que é briga de torcida.

*Folha – E Michelle Bolsonaro?*

*Ed René Kivitz -* Não tem como ela não estar envolvida com os escândalos do seu sobrenome, do marido. É possível vender uma imagem, e isso os encantadores de serpente do mundo político sabem fazer. Mas ela é mais do mesmo.

*Folha – O sr. tem me soado mais combativo dentro do seu segmento, arrisco dizer até um pouco mais desiludido. Sente-se deslocado nos últimos anos?*

*Ed René Kivitz -* Hoje eu faço parte do mal. O movimento hegemônico evangélico me considera alguém que traiu o Evangelho, um desviado. Eles me tratam dessa maneira. Não me desloquei, fui deslocado.

E me sinto cobrado. Não sou um ativista político, sou um líder religioso. Mas olho as movimentações da sociedade e digo: tenho uma opinião a respeito disso. Vou te dar um exemplo. Ontem mesmo fui questionado por ter entrevistado a Erika Hilton e por que fui tão, na opinião dessa pessoa, simpático e caloroso. Eu respondi: porque as pessoas trans precisam andar na rua sem medo de morrer. A pessoa: ah, mas você concorda com trans? A discussão não é essa. As pessoas não podem morrer porque são trans. Então, me sinto responsável por usar a mínima influência que tenho para defender essa revolução ética que acredito que o Evangelho traz.

*Folha – Os entrevistados do seu programa até agora são progressistas. Não poderia soar como pregar para convertido?*

*Ed René Kivitz -* Posso dar um spoiler: estamos considerando, na segunda temporada, convidar as vozes conservadoras. Não sei se elas aceitarão. Espero que sim. Vi a reação das pessoas dizendo: ah, o Ed só conversa dentro da bolha, e a democracia tem dois lados. A minha resposta é: não sou a democracia, sou um lado. Eu vocalizo o que eu acredito. Achei que eu deveria bater uma estaca, deixar claro de onde eu falo.

*Folha – As igrejas têm sediado encontros para falar da crise da masculinidade. Como analisa a resposta religiosa a esse problema?*

*Ed René Kivitz -* Ela visa levar a sociedade a um mundo pré-moderno, em que a mulher não podia votar. O movimento das tradwives [esposas tradicionais], essa ideia de que o homem cuida do mundo, a mulher cuida da casa e dos filhos. O discurso religioso quer levar pra essa lógica medieval.

*Folha – A Bíblia diz que a mulher deve ser submissa ao homem. Como interpretar essa frase numa lente não fundamentalista?*

*Ed René Kivitz -* A gente pode interpretar lendo o texto todo. [O apóstolo] Paulo é um grande injustiçado. Foi capturado pelo movimento fundamentalista, que não consegue fazer uma interpretação adequada do texto bíblico. Quando Paulo diz “a mulher deve ser submissa ao marido”, simplesmente reproduziu mais do mesmo. Aquela sociedade era assim. Então ele diz: “Pessoal, a mulher deve ser submissa ao marido, tudo bem?”

Quando as mulheres daquela época ouvem isso, dizem: “Já sabia isso aí”. Mas logo em seguida Paulo diz: “Os maridos devem amar as suas esposas como Cristo amou a Igreja e se sacrificou e morreu por ela para apresentá-la sem mácula, sem ruga e sem mancha”. As mulheres levantaram a cabeça e disseram: “Opa, é isso mesmo? Sério que ele falou isso?”. E os homens: “Ah, não é possível! Ser cabeça é mandar, é ser servido”. Aí o Paulo diz: “Não, não, não! Ser cabeça é sacrificar-se pelo bem de alguém, vocês estão entendendo errado”. O que ele faz é afirmar um princípio que está posto e logo em seguida colocar uma bomba: se esse princípio novo for exercido, subverte o anterior.

*Folha – O sr. pretende declarar voto nessa eleição?*

*Ed René Kivitz -* Não, mas acho que está posto.

*Folha – A esquerda compreendeu o papel da religião?*

*Ed René Kivitz -* Acho que não. Trata a religião como um mal necessário, dizendo o seguinte: idealmente não deveria existir, mas, já que existe, nós vamos ter que aprender a dialogar com eles. Se é legítimo você acreditar numa ideologia, é legítimo acreditar numa fé. E isso não desqualifica um ser humano, não diz que ele é alienado. A esquerda é preconceituosa. Não consegue dialogar porque não respeita. Quando sento na mesa com um representante da esquerda que me trata como pastor evangélico, dizendo “infelizmente eu tenho que conversar com o senhor”, essa conversa já está corrompida na origem. Agora, me pergunto se a direita não é pragmática do mesmo jeito. Mas a sua pergunta é sobre a esquerda.

*Folha – Acha que a direita pode também não ter compreendido esse papel da religião?*

*Ed René Kivitz -* Está explícito que grandes atores da direita que fazem um discurso religioso não têm uma experiência religiosa. Se você é estrategista, se cita versículo tudo errado porque não é a sua vivência, se aquilo não é autêntico em você. Você está fazendo manipulação semiótica. Vai me dizer que o Donald Trump é um sujeito que entendeu o que significa a experiência cristã de nascer de novo, do reino de Deus? Que os homens que frequentavam as festas do [Jeffrey] Epstein, que controlam o mundo e que promovem genocídio, que esses homens não estão manipulando a religião do mesmo jeito?

RAIO-X – ED RENÉ KIVITZ, 60

É teólogo e mestre em ciências da religião pela Universidade Metodista de São Paulo. Membro do conselho pastoral da Igreja Batista de Água Branca, na zona oeste de São Paulo, onde foi pastor-presidente de 1989 a 2025. Fundou em 2024 o Instituto Galilea, organização que se propõe a “promover democracia, justiça social e direitos humanos”. Autor de “Vivendo com Propósitos: A Resposta Cristã para o Sentido da Vida” (2006), “Santidade” (2020) e do recém-lançado “Uma Ideia Elegante de Deus”, entre outros.

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