Uma discussão intensa na casa vizinha, uma mulher que relata ameaças no salão de beleza ou um homem que passa a perseguir a ex-companheira após o fim do relacionamento. Situações como essas não devem ser tratadas como um problema particular do casal.
Para a supervisora do Grupo de Proteção à Mulher (GPM) da Guarda Municipal de Balneário Camboriú, Tássia Bruna Carvalho Coutinho, a intervenção da sociedade pode impedir que a violência avance e até evitar um feminicídio.
“Aquela cultura de que não se deve meter a colher está ultrapassada. Se você escutou uma briga e percebeu uma situação de violência, faça a ligação para o 153. Em vez de filmar, chame socorro. Temos que meter a colher, sim, porque essa atitude pode salvar uma vida”, afirma.
271 atendidas só pelo GPM, o número é muito maior
Desde o início de 2026, o GPM já atendeu 271 mulheres em Balneário Camboriú. O número considera apenas os registros do grupo especializado da Guarda Municipal, a Rede Catarina, da Polícia Militar, contabiliza número semelhante neste ano e a Delegacia de Proteção à Criança, ao Adolescente, à Mulher e ao Idoso (DPCAMI), já instaurou aproximadamente 550 inquéritos relacionados à violência doméstica neste ano em Balneário Camboriú.
O aumento, entretanto, não possui uma única explicação. A violência continua presente no cotidiano, mas o maior acesso à informação e a atuação da rede de proteção também fazem com que mais mulheres reconheçam as agressões e procurem ajuda.
“Quando estão vivendo uma situação de violência, muitas mulheres acabam se perdendo e têm dificuldade para identificar o que está acontecendo. Hoje há mais conhecimento e mais acesso à informação. Balneário Camboriú possui uma rede que trabalha na prevenção, orienta e contribui para que elas busquem apoio e medidas protetivas. Isso também influencia os números”, explica.
Violência pode começar com controle e isolamento

Perseguição e ameaça estão entre as ocorrências mais frequentes acompanhadas atualmente pelo GPM.
Em muitos casos, o agressor não aceita o fim do relacionamento e passa a vigiar, intimidar ou tentar controlar a rotina da ex-companheira.
Antes da agressão física, porém, a violência costuma apresentar outros sinais. O comportamento pode começar com tentativas de afastar a mulher de familiares e amigos, controle sobre suas roupas, rotina, telefone ou dinheiro, além de insultos e ataques constantes à autoestima.
Comentários depreciativos sobre o corpo, a maternidade ou a capacidade de seguir a vida sozinha também fazem parte desse processo.
Frases como “ninguém vai querer você” ou “quem vai ficar com você e seus filhos” são utilizadas para fragilizar emocionalmente a vítima e aumentar sua dependência.
“A violência é escalonada. Ela pode começar pelo controle, pelo isolamento dos amigos e da família, pelas ofensas e pelo controle patrimonial. O agressor vai cercando aquela mulher até chegar à violência física. Depois, muitas vezes, vem a chamada fase da lua de mel, quando ele pede desculpas, promete mudar e ocorre a reconciliação”, relata Tássia.
A dependência financeira e emocional está entre os fatores que dificultam o rompimento. Isso não significa, porém, que exista um único perfil de vítima.
Violência não escolhe idade

O GPM já acompanhou mulheres de 17 a 96 anos, com diferentes níveis de escolaridade, religiões e condições econômicas, inclusive moradoras de áreas valorizadas da cidade, como a Avenida Atlântica.
“Em Balneário Camboriú, a violência não tem cor, religião, classe social ou nível de escolaridade. Todas as mulheres estão sujeitas à violência de gênero”, ressalta.
Agressores não são apenas companheiros
A maior parte dos casos envolve maridos, companheiros ou ex-parceiros, inclusive após relacionamentos informais de poucos meses. Há também situações que surgem depois de casamentos com mais de 20 anos de duração, quando o homem não aceita a separação. O atendimento do GPM alcança ainda casos em que os agressores são filhos, cunhados ou outros integrantes da família.
Conforme Tássia, algumas ocorrências envolvem filhos com problemas relacionados à dependência de drogas. Há também situações de violência em relacionamentos entre mulheres. Em um dos casos acompanhados pelo grupo, uma mulher foi até a residência da ex-companheira apesar das restrições impostas pela Justiça. Diante da gravidade e da insistência no descumprimento, foi decretada a prisão preventiva da agressora.
Somente no último mês, três homens foram presos por descumprirem medidas protetivas. Dependendo da situação e da decisão judicial, também pode ser determinado o uso de tornozeleira eletrônica.
Um relato no salão de beleza iniciou o resgate
Entre os atendimentos que mais marcaram a equipe está o de uma mulher que vivia em uma situação extrema de violência. O caso chegou ao conhecimento da Rede depois que ela contou o que enfrentava durante uma conversa em um salão de beleza. O companheiro também mantinha envolvimento com o comércio de drogas e acabou preso por tráfico. Para que a mulher pudesse deixar a situação em segurança, foi necessária uma atuação conjunta de diferentes serviços. A equipe providenciou acolhimento, auxiliou nos preparativos para que ela deixasse Balneário Camboriú e buscou uma organização que pudesse receber seu cachorro. Tássia acompanhou a vítima até a rodoviária.
“Ela precisou ir embora da cidade. Nós víamos o sofrimento e foi necessário um trabalho conjunto para que conseguisse sair daquela situação. Às vezes, romper o ciclo exige organizar toda a vida da vítima”, conta.
O caso evidencia a importância de acolher um pedido de ajuda onde quer que ele apareça. Familiares, amigos, vizinhos e até profissionais que atendem o público podem ser o primeiro contato de uma mulher com a rede de proteção.
Alerta acionou viatura, que chegou em quatro minutos

Mulheres também podem utilizar o Alerta Mulher, ferramenta disponível no aplicativo BC Digital. Em uma emergência relacionada ao descumprimento da medida, o recurso envia um chamado prioritário à Central de Operações e Monitoramento e compartilha a localização da vítima. De acordo com Tássia, em um dos acionamentos uma viatura chegou ao local em quatro minutos.
“É mais uma ferramenta de proteção e mais um recurso para contribuir com a segurança das mulheres”, destaca.
Além de orientar sobre medidas protetivas, o GPM acompanha as vítimas, fiscaliza o cumprimento das decisões judiciais e faz encaminhamentos para atendimento psicológico, social e jurídico.
A rede municipal inclui serviços como o Programa Abraço à Mulher, o acolhimento da Casa Alva, a Defensoria Pública e o projeto OAB por Elas. As vítimas também podem participar gratuitamente de aulas de defesa pessoal.
“É possível romper o ciclo da violência. Pode ser uma das fases mais difíceis que essa mulher vai enfrentar, mas há vida além disso. Existe uma rede para acompanhá-la e aos filhos. Se precisar de atendimento psicológico, jurídico ou de acolhimento, ela terá suporte. Ela não está sozinha”, afirma a supervisora.
Prevenção começa nas escolas
As ações de conscientização ganham maior visibilidade em agosto, durante a campanha Agosto Lilás, mas o trabalho precisa continuar durante o ano inteiro, avalia Tássia.
O GPM participa de palestras, capacitações e atividades promovidas pela rede de atendimento.
A equipe também visita escolas para conversar com crianças e adolescentes sobre respeito, violência e características de um relacionamento saudável.
Para a supervisora, trabalhar o tema desde cedo é necessário para desconstruir comportamentos associados à cultura machista e evitar que as novas gerações repitam padrões de violência.
“É algo enraizado na sociedade, mas que não pode ser naturalizado. Precisamos ensinar desde cedo o respeito e o que caracteriza uma relação saudável. Os jovens são o futuro, e esperamos que eles não reproduzam o nosso passado”, diz.
Como buscar ajuda
Em situações de violência em andamento ou risco imediato, a orientação é telefonar para a Guarda Municipal, pelo número 153, ou para a Polícia Militar, pelo 190. O Grupo de Proteção à Mulher também atende pelo número (47) 99982-2275, preferencialmente por WhatsApp, para orientações, esclarecimentos e pedidos de auxílio. O canal do GPM não funciona em regime de plantão e não substitui os números de emergência.

