Domingo à noite, no estúdio da Band, o Brasil viu pela primeira vez os dois candidatos frente a frente. Uma semana antes das urnas, depois de um primeiro turno em que ambos faltaram ao encontro, como quem falta a uma audiência marcada com o país. Numa democracia, candidato não foge do contraditório. Esperava-se o choque de dois projetos de futuro; veio o choque de dois passados.
Lula tenta o quarto mandato e carrega décadas de poder. Flávio carrega a família: o sobrenome que abre portas e o pai em prisão domiciliar. Em quase duas horas, ouviu-se um inventário de investigações: INSS, Master, Vorcaro, Dark Horse. Ninguém perguntou quem está mais preparado para governar; perguntou-se quem é menos rejeitado. O método foi elevar a rejeição do outro, e nisso ambos foram aplicados.
Só as perguntas dos jornalistas deram chão ao debate. Na saúde, Lula levou a melhor, lembrando as mortes da pandemia e perguntando se o rival quer privatizar o SUS. Na segurança, Flávio pautou a conversa. Seu mea-culpa pela pandemia foi o momento mais honesto da noite; a mudança de posição sobre a escala 6×1 soou ensaiada. O Supremo passou como sombra: Lula citou o ministro Mendonça e a resposta não veio.
Os corpos falaram mais que as propostas. Mãos juntas, como quem reza por paciência enquanto o outro fala. Um escreveu “corruPTo” na palma; o outro começou nervoso e se recompôs. Houve “cara”, “rapaz”, “ladrão”, “fascista”. Cada um falava aos marqueteiros, que já fatiavam a noite em cortes para as redes.
E os quase 40 milhões? São 33,4 milhões de abstenções, 2,3 milhões de votos em branco e 3,6 milhões de nulos. Ninguém lhes dirigiu uma frase. Falou-se aos convertidos, num país em empate técnico, e os indecisos assistiram a dois homens disputando quem desagrada menos. Suspeito que o debate aumentou a rejeição aos dois.
Mas o debate foi também um espelho, e o que ele devolve é a doença da democracia brasileira: a recusa de reconhecer o outro como legítimo outro em sua diferença. Na política, o adversário deveria ser alguém com direito de existir e de discordar. Entre nós, torna-se inimigo. E o inimigo, por não ser reconhecido como pertencente, precisa ser eliminado: da conversa, da cena, da vida pública. É a lógica do “ladrão” e do “fascista”, de chamar o interlocutor de “cara” para não chamá-lo de candidato. Humberto Maturana ensinava que sem a legitimidade do outro não há convivência, apenas dominação.
Estamos diante de uma necessidade: o Brasil precisa de um Mediador de Conflitos. Quem seria? Não um salvador, nem um terceiro candidato com outro nome. Mediador não vence a disputa: devolve a palavra às partes. Teria de ser reconhecido pelos dois lados, escutar antes de falar e lembrar que a divergência é matéria-prima da democracia, não sua ameaça. Talvez seja menos uma pessoa e mais uma função, exercida por universidades, imprensa, escolas, igrejas e por cada cidadão que se recusa a transformar o vizinho em inimigo. Começando, quem sabe, pelos 40 milhões que o debate esqueceu.

