Há um tempo em que o espelho deixa de devolver apenas o rosto. Começa a revelar a passagem da vida. As marcas que aparecem na pele são também mapas de experiências, despedidas, conquistas e histórias que ninguém poderá viver em nosso lugar.
Em “A Velhice”, Simone de Beauvoir, nos anos 1970, nos confronta com uma realidade incômoda: a sociedade costuma tratar a pessoa idosa como alguém que já não participa plenamente do presente. A velhice, mais do que uma condição biológica, é também uma construção social. Existe o envelhecimento do corpo, mas existe, sobretudo, o olhar de uma sociedade que, tantas vezes, transforma a idade em invisibilidade.
É contra essa invisibilidade que precisamos construir pontes.
Recentemente, participei da :”Live Conexão Restaurativa”, promovida pela Rede Juatiça Restaurativa (JR) Brasil – de Sul ao Norte, em parceria com a Faculdades EST, de São Leopoldo (RS), sob a coordenação da professora Maria Cristina. O encontro reuniu integrantes da Comissão Organizadora do Observatório dos Mediadores e Conciliadores do Rio Grande do Sul para apresentar o projeto e debater uma questão essencial: como a mediação pode ser instrumento de dignidade para a população idosa?
Participaram Alfredo Fuchs, Mauro Gaglietti, Róbson Martins da Silveira e Lúcia Malheiros. A conversa ultrapassou os limites de uma atividade acadêmica. Afinal, falar de envelhecimento é falar de todos nós. A velhice não é um território distante: é um futuro que já começou a chegar.
Nesse caminho, autoconhecimento e autocuidado tornam-se indispensáveis. Conhecer-se é aprender a escutar os próprios sentimentos, reconhecer necessidades e respeitar limites. Cuidar-se é transformar essa consciência em atitudes: preservar a saúde, cultivar amizades, manter a curiosidade intelectual, pedir ajuda e não permitir que a solidão se transforme em destino.
A escuta empática também nos ensina que ninguém deve ser reduzido à idade, ao conflito ou às próprias fragilidades. Nas conexões restaurativas e na mediação empática, encontramos a possibilidade de reconhecer histórias, acolher diferenças e construir relações sem sacrificar a dignidade de ninguém.
Durante a Live, tivemos ainda a oportunidade de apresentar o livro Mediação e Ação: Promovendo a cultura do diálogo no Rio Grande do Sul, publicado pela Editora Dom Modesto, de Blumenau (SC). Organizada por Alfredo Fuchs, Erika Rodrigues Lammel Degrazia, Geneci Machado Padilha e Francisco Ribeiro Lopes, a obra conta com meu Prefácio e reúne contribuições comprometidas com a cultura do diálogo.
Um convite especial: os organizadores e autores estarão aguardando os leitores na Feira do Livro de Porto Alegre, no dia 10 de novembro, às 18h, na banca da OAB. Será uma oportunidade de encontrar os participantes dessa construção coletiva, conversar sobre mediação e celebrar a escrita de mediação como espaço de encontro.
Talvez a maior injustiça cometida contra a velhice seja imaginar que o tempo retira da pessoa o direito de continuar começando. Não retira. Cada idade guarda perguntas que ainda não foram feitas, palavras que ainda não foram escritas e encontros que ainda podem acontecer.
As rugas não deveriam ser fronteiras. São marcas de uma existência que merece continuar sendo escutada.
Afinal, envelhecer não é desaparecer do mundo. É continuar tendo direito a ele. E uma sociedade que aprende a respeitar seus idosos começa, silenciosamente, a respeitar o próprio futuro.

