O outro lado da moeda

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Eudes Moraes *

Imagine a figura de um filósofo andando pelas ruas, em plena luz do dia, carregando uma lanterna acesa, à procura de um homem honesto e virtuoso. Diógenes (413–323 a.C.) foi um filósofo grego, nasceu em Sínope, na Turquia e morreu em Corinto, na Grécia. O termo cínico representava uma filosofia de vida que acreditava ser isenta das regras criadas pela sociedade. Por isso, o filósofo adotou a virtude da pobreza e passou a viver dentro de um grande barril, instalado em via pública.

Diógenes nasceu em Sínope, antiga colônia grega na costa do Mar Negro, na atual Turquia. Antes de se tornar o mais famoso filósofo da escola do cinismo, ele trabalhava com seu pai, Hicésio, a 1800 quilômetros de Atenas. O historiador Diógenes Laércio relata que o pai de Diógenes, era um banqueiro público e foi condenado e preso pelo crime de falsificação de moeda. Abrindo controvérsia, o filósofo Eubúlides afirmou que foi o próprio Diógenes quem cometeu o crime, baseando-se em sua própria confissão na obra Pôrdalos.

Como é da natureza humana apontar culpados, Diógenes alegou a seu favor, que ao consultar o Oráculo de Delfos, a sacerdotisa disse para desfigurar a moeda. Também há especulações, que o crime ocorreu por ordem das autoridades locais, com o objetivo de desvalorizar moedas estrangeiras e que os dois foram vítimas do sistema. Seja como for, pai e filho foram condenados ao exílio, perdendo seus bens e a cidadania. Por essa razão, Diógenes se mudou para Atenas.

A moeda sempre tem outro lado.

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Por sorte, naquela época, não existia redes sociais e as notícias do crime ficaram em Sínope. Chegando em Atenas, o filósofo se deu conta que desfigurar a moeda não se tratava do metal e sim das leis, costumes e convenções sociais. O termo grego nómisma tem a mesma raiz de nómos, com significados diferentes. Então, ele ressignificou o recado do Oráculo. Fundou a escola filosófica do cinismo, baseada no desapego aos bens materiais e criticando os valores sociais e as instituições, chamando-as de corruptas.

Você já se perguntou o porquê de Diógenes ter escolhido ser um filósofo cínico? Os historiadores registram que ele via a civilização como uma fonte de hipocrisia e infelicidade, e escolheu a pobreza extrema e a ironia para exporem a verdade. O filósofo usou do cinismo para atingir as convenções, para se opor às instituições e acreditava que o luxo, a fama e a riqueza aprisionam o ser humano e escravizam a mente. Para ele, a filosofia não deveria ser apenas um debate abstrato, como fazia Platão, mas um exercício prático e diário da virtude. Ao usar uma lanterna durante o dia, Diógenes criticava a sociedade ateniense, sugerindo que a verdadeira honestidade e a virtude eram tão raras que seria preciso uma luz artificial para encontrá-las na multidão.

O filósofo conviveu com Platão, e seus debates tiveram momentos épicos entre o idealismo e o cinismo. Platão defendia a erudição, a teoria e a metafísica, enquanto Diógenes pregava o pragmatismo, o retorno à natureza e o desapego material. Ele se tornou irreverente. Certa vez, o poderoso Alexandre, o Grande, visitou o filósofo. Segundo a lenda, o conquistador se aproximou, parou o seu belo cavalo e lhe disse: — Faça-me qualquer desejo, pediu. Diógenes se ajeitou no barril e, de forma rápida, ácida e provocativa, respondeu: — meu desejo é que você saia da frente da luz do sol.

A sua importância como filósofo fez escola e teve forte influência sobre Nietzsche, na Alemanha, na segunda metade do século XIX. Seus conceitos cínicos inspiraram Nietzsche, na busca do modelo de homem livre que ousava se opor à sua própria época. Por isso, adaptou a Metáfora da Lanterna na sua aclamada – A Gaia Ciência. Introduziu na cena um homem louco, que acendeu uma lanterna à luz do dia para anunciar a “morte de deus”. Na obra, o louco corre para a praça do mercado gritando: — “Nós o matamos, vocês e eu!”, revelando que a sociedade já não precisa do conceito divino para guiar suas vidas. O louco é o único lúcido, enquanto a multidão, que ri e zomba, por não compreender a gravidade do evento, representa o conformismo.

Sim, a moeda tem dois lados.

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É de se perguntar o que estaria por trás da lanterna de Diógenes. O que isso tem a ver com o comportamento cínico do filósofo? Talvez, haja um efeito reverso, ao jogar luz sobre o sistema. Ao descaracterizar as normas e rebelar-se contra as instituições, ele protestou por ter seus bens confiscados e morar dentro de um barril. E já que estava nessa condição de rua, fez-se de contente, tentando provar que a felicidade independe das riquezas, das regras e das instituições estabelecidas. Ao olhar para a sua lanterna, talvez, Diógenes tenha visto o seu próprio rosto na fumaça. A dúvida sobre até onde ele se sentia culpado, ou se deixou enredar nas teias do sistema para quem trabalhava, deve ter sido angustiante. A lanterna de Diógenes buscava a verdade sobre si mesmo? Pai e filho foram desonestos ou vítimas do estado? O julgamento foi justo e sem manobras jurídicas? Não sei. A verdade é que o episódio não o derrotou. Ele pagou caro e ao invés de se vitimizar, ressignificou o passado e transformou a experiência em missão filosófica para combater os inescrupulosos e corruptos. O que sei é que mais de 2.300 anos se passaram depois da morte de Diógenes. Se o filósofo saísse hoje em nossas ruas, encontraria a sociedade de seus sonhos? Jamais! Até onde o sistema corrompido reflete a nossa passividade? Corremos o risco da Lanterna de Diógenes denunciar a nossa própria consciência ética?

A metáfora da lanterna é um convite à reflexão e ao autoexame. Cada leitor deve extrair as suas conclusões. Sair por aí com lanternas acesas, sabemos que não é a melhor solução. Em tempos de ameaças à liberdade de expressão, em cada cabeça há uma sentença. Este cronista exercerá o seu cinismo filosófico nas urnas eleitorais.

* Eudes Moraes é presidente da Academia de Letras de Balneário Camboriú.
** Essa editoria é reservada a textos produzidos por integrantes da Academia de Letras de Balneário Camboriú (ALBC).

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