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A cada maestro, um gênio com suas obsessões

Há um personagem que perpassa toda a narrativa de Tár, filme de Todd Field protagonizado por Cate Blanchett, que vive uma regente de carreira estelar: o Adagietto da Sinfonia nº 5 de Gustav Mahler (1860-1911). Em alguns momentos, uma melodia, em outros, uma ou duas notas. A peça tem sentido na narrativa: o filme todo se passa enquanto ela se prepara para reger a obra e gravá-la ao vivo. Lydia Tár nos conta que já registrou as outras oito sinfonias do compositor. Mas faltava a quinta. A maior. A que carrega mais riscos para o intérprete. Uma peça que atrai e assusta ao mesmo tempo. E que não deixa a mente da regente enquanto lida com seus dramas individuais.

A obsessão por uma obra ou um compositor faz parte da história da música clássica. Na segunda metade do século 20, no auge da indústria fonográfica, regentes se permitiam gravar uma mesma peça diversas vezes, buscando a interpretação ideal, a sonoridade mais precisa. De um lado, um desafio técnico, de outro, motivos dos mais diferentes, de questões metafísicas a episódios comezinhos da vida familiar. E, em alguns casos, alimentando a rivalidade entre músicos.

A música de Mahler tem sido pródiga em fascinar intérpretes. O compositor morreu em 1911 e não demorou para que seus ex-alunos, agora regentes renomados, disputassem o posto de seu principal intérprete. Wilhelm Mengelberg programou suas obras 171 vezes entre 1903 e 1919, quando esteve à frente da Orquestra do Concertgebouw de Amsterdã. Bruno Walter, por sua vez, pôde reivindicar para si a estreia de A Canção da Terra, última obra de Mahler, que morreu antes de poder regê-la. Presente na apresentação, outro dos ex-alunos do compositor, Otto Klemperer, cumprimentou o colega pelo concerto e acrescentou, antes de partir, o quanto lamentava não ter podido ouvir a peça na regência do próprio compositor, de quem mais tarde gravaria toda as sinfonias e ciclos de canções.

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FASCÍNIO

A partir das primeiras décadas do século 20, o fascínio pela música de Mahler, que trata de temas como amor, paixão e morte, só aumentou. E chegou aos nossos dias sem sofrer abalos. Obra de ficção, o filme de Todd Field brinca com alguns elementos da vida real do mundo da música clássica e evoca um personagem-símbolo da obsessão pelo autor. Mecenas de Tár e de seu projeto de formação de regentes mulheres, Elliot Kaplan é um milionário que também se arrisca como maestro. É a descrição quase perfeita de Gilbert Kaplan, também ele um milionário que fez fortuna em Wall Street e que, a certa altura, decidiu atuar como regente. Não para interpretar qualquer obra: apenas uma, a Sinfonia nº 2 de Mahler – desafio nada frugal, uma vez que a peça exige orquestra, coro e solistas, em um total de 200 músicos no palco.

Ele procurou regentes em busca de orientação. Após aprender os rudimentos da regência, esteve com Zubin Mehta e Georg Solti, que o acolheu dizendo ser um prazer e uma novidade “ser possível conversar sobre música com um executivo de Wall Street”. Kaplan comprou os manuscritos originais da partitura e a batuta utilizada pelo próprio Mahler em seus concertos. Em meados dos anos 1980, contratou uma orquestra e alugou o Carnegie Hall para fazer sua estreia. Não fez, ao que parece, um mau trabalho. Nas décadas seguintes, interpretou a peça com as filarmônicas de Viena e Berlim, gravando a sinfonia para o selo Deutsche Grammophon.

Outra brincadeira de Tár com o mundo real coloca lado a lado dois grandes mestres da regência do século 20. No momento em que escolhe a capa da gravação que fará da Sinfonia nº 5 de Mahler, entre tantas opções, aparecem dois modelos: o CD de Leonard Bernstein com a gravação da Sinfonia n.º 9 do compositor e um dos primeiros registros que Claudio Abbado fez da Quinta Sinfonia, com a Filarmônica de Viena.

OBSESSÃO

A obsessão de Bernstein com Mahler era quase mediúnica. Quem alimentava a ideia era o próprio maestro. Havia a conexão imediata entre dois músicos que eram tanto regentes quanto compositores, aclamados à frente de orquestras e questionados sobre o valor de suas partituras. Mas o maestro americano ia além. Mahler escreveu nove sinfonias completas e regeu da primeira à oitava. “Ele deixou a Nona para mim”, dizia Bernstein, em uma boutade na qual parecia realmente acreditar.

Ficou famoso um episódio durante ensaios para um concerto com a Filarmônica de Viena, nos anos 1970. A orquestra, no início do século 20, fora dirigida pelo próprio Mahler e tinha a música do compositor em seu DNA – o que significava, entre outras coisas, a certeza de que sabiam melhor do que ninguém como tocar aquela música. Na preparação para o concerto, Bernstein se irrita ao perceber que os músicos não seguiam suas orientações. Até que explode. “Se a ideia é fazer o que vocês sempre fazem, então toquem sozinhos e eu vou embora. Agora, se quiserem tocar o meu Mahler, eu fico.” Bernstein não estava brincando. Suas leituras eram extremamente pessoais: como Lydia Tár lembra no filme, sua interpretação do Adagietto, trecho que costuma durar em média de 7 a 8 minutos, chegava a 12, com um tempo estendido que tinha como objetivo extrair da música uma intensidade que talvez escapasse do próprio autor.

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Já a relação de Claudio Abbado com a música do compositor era menos esotérica. E começou ainda como estudante, quando assistiu a concertos com o próprio Bernstein regendo. Durante o fascismo, as obras do compositor foram proibidas na Itália, mas ele as seguiu estudando e ouvindo em casa, em segredo. Quando foi convidado a participar do Festival de Salzburgo pela primeira vez, ainda jovem, recusou a peça originalmente oferecida e pediu para reger a Sinfonia nº 2. Isso aconteceu nos anos 1970. E Abbado então se dedicou a gravar nos anos seguintes todas as sinfonias do autor. A real dimensão da relação do maestro com essa música viria, porém, décadas mais tarde. Após deixar a Filarmônica de Berlim em 2001 e passar por um câncer no intestino, o maestro escolheu justamente as sinfonias de Mahler como seu testamento, com gravações feitas ao vivo no Festival de Lucerna, com uma combinação de intensidade e poesia difícil de ser superada.

Klaus Tennstedt, como Bernstein, costumava evocar uma relação íntima com o compositor. Não se considerava seu herdeiro, de modo algum: marcado por uma insegurança patológica, diversas vezes abandonou concertos em cima da hora, temendo não estar pronto para ensaios e muito menos para apresentações. Após alguns desses episódios, interrompeu a carreira por meses. E, nos anos 1980, retornou aos palcos apenas após um longo período estudando as sinfonias de Mahler. Tornaram-se uma obsessão. Em uma entrevista, ele afirmou que para reger o compositor é preciso acreditar nele, nas tragédias que viveu, na força de seu espírito criativo. De forma consciente ou não, talvez estivesse falando de si próprio.

A trajetória do maestro Carlos Kleiber também tem seus elementos psicanalíticos. Ele foi admirado por seus colegas, amado pelos músicos, celebrado pelo público e pela crítica. Mas reger, com o tempo, lhe interessava cada vez menos. Ele mesmo brincava sobre isso, dizendo voltar ao palco somente quando já não havia comida na geladeira. E o fazia com apenas um punhado de peças, que revisitava frequentemente, no qual sobressaíam as sinfonias n.º 5 e n.º 7 de Beethoven e a Sinfonia nº 4 de Brahms. O fato de serem peças gravadas com enorme êxito por seu pai – Erich Kleiber, regente austríaco que se radicou na Argentina durante a Segunda Guerra e com quem nunca teve boas relações -, não passou nem um pouco despercebido.

CORREÇÕES

Arturo Toscanini foi um grande intérprete de Giuseppe Verdi e Giacomo Puccini. Mas não se limitou ao repertório operístico. E tinha especial preferência por sinfonias de Beethoven.

Sua ligação com as obras era tamanha que se sentia à vontade para fazer correções e acréscimos nas partituras originais. Massimo Freccia, que trabalhou como seu assistente, afirmou certa vez que sua dedicação ao compositor transcendia a partitura. “Ele sentia que estava servindo melhor ao compositor aperfeiçoando aquilo que escrevera.” Toscanini nunca regeu Mahler, mas tinha nisso algo em comum com o compositor austríaco, que provou escândalo ao reescrever passagens da Nona Sinfonia de Beethoven durante seu período à frente da Filarmônica de Viena.

Herbert von Karajan tinha também relação especial com Beethoven. Se, hoje, gravar todas as sinfonias de Mahler é sinal de maturidade de um maestro, houve um tempo em que era o ciclo sinfônico de Beethoven o responsável por fazer a fama de um regente. Mas Karajan levou o conceito ao extremo: gravou as nove sinfonias do compositor quatro vezes, uma por década: em 1953, 1962 (considerado, por sinal, o melhor registro dos quatro), 1974 e 1985. Por que tantos registros? Karajan não era apenas ligado às peças, mas também se interessava pelos avanços tecnológicos da indústria fonográfica – e pela chance de utilizá-los em novas leituras.

Para Carlo Maria Giulini, tratava-se de Brahms, mais especificamente da Sinfonia nº 1. Ele nunca explicou o motivo do interesse especial pela obra, mas ela está presente em momentos-chave de sua trajetória. Foi a primeira peça que tocou, ainda como violista, em uma orquestra de estudantes na Itália. Pouco depois, em sua estreia como regente, escolheu a obra. Ao longo da carreira, gravou-a três vezes. E, em 1998, em sua despedida dos palcos, lá estava ela novamente.

No filme, Lydia Tár oferece duas visões sobre o trabalho do intérprete. A certa altura, diz que ele é o elo entre o público e o compositor, a quem se deve fidelidade. Mais tarde, defende, em sua conversa com Kaplan, a leitura pessoal de uma obra. Entre as duas possibilidades, está o mistério do fazer musical. E, para as plateias, as obsessões desses regentes se traduzem, afinal, como um mundo de possibilidades a respeito de peças que, em suas múltiplas leituras, parecem sempre novas.

(Por João Luiz Sampaio, especial para AE)

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