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Balneário Camboriú

De Caetano ao Rock in Rio, algumas estripulias para relembrar Cizinho

José Darcy da Silva Júnior foi um itajaiense que deixou saudades. Morava no bairro Vila Operária e notabilizou-se pela engenhosidade e genialidade em tudo que fazia. Cizinho, como era chamado pelos inúmeros amigos, apesar da estatura que beirava os dois metros, tinha a silhueta esguia e franzina e a mente repleta de ideias.

Teatrólogo dos bons, ganhou inclusive um prêmio da Fundação Catarinense de Cultura com a peça intitulada Em Tua Homenagem. O nome é propício para esta ocasião em que escrevo estas breves linhas. Nos conhecemos no Colégio Salesiano, mas logo após se formar ele sumiria do mapa. Foi para Curitiba, onde depois de alguns anos de trabalho na área cultural, resolveu voltar à sua cidade natal. Assim como muitos que se vão e retornam a Itajaí pela inevitável dificuldade de permanecer longe por muito tempo desta terra abençoada.

Ele foi não apenas um inesquecível amigo, mas também uma espécie de cupido. Num curso de teatro por ele ministrado no salão paroquial da Igreja Matriz do Santíssimo Sacramento, em 1982, conheci a mulher que vive ao meu lado até hoje, Maria José, que me deu três filhos: Carolina, Giácomo e Émerson.

Naquela época Maria José, ou Zeca como era conhecida no meio artístico, também dedicava-se ao teatro, atividade que lhe rendeu em 1983 o título de melhor atriz no Festival Catarinense de Teatro. A minha vida, portanto, tomou o rumo que tomou graças a este curso do Darcy, do qual também participei. Com Cizinho vivi passagens memoráveis!

No final da década de 70 fomos juntos a Curitiba para um show de lançamento de um disco do Caetano Veloso, no esplêndido Teatro Guaíra. A capital paranaense era uma espécie de termômetro para os músicos: se o disco fizesse sucesso lá, era sinal de que seria bem aceito em todo o país.

Mesmo com a estatura que possuía, Cizinho dirigia um fusca. Não sei como cabia dentro do pequeno veículo, ao qual chamava de útero. Saímos daqui no meio da tarde, e a mim foi dada a incumbência de dirigir.

Era início da noite quando chegávamos a Curitiba, neblina intensa. Quase atropelo um policial rodoviário que, sem que eu percebesse, postou-se diante do carro em sinal de parada! Foi por um triz!!! Bendito reflexo! No final, tudo certo. Apanhamos dois amigos no centro da capital e rumamos para o Teatro Guaíra.

Um deles, o escritor e cineasta Rui Vezzaro, que anos depois teria um documentário premiado no famoso Festival de Gramado. Chamava-me de filho bastardo de Paul Newman, pela semelhança que eu tinha, segundo ele, com o ator de Hollywood. Quisera eu que assim fosse!

Mas o show de Caetano foi um verdadeiro espetáculo, especialmente para nós quatro, todos fãs incondicionais do músico baiano. Tanto que, no final da apresentação, resolvemos tentar manter contato com o ídolo.
Seguimos atrás dos dois carros que levavam Caetano e seus músicos. Uma célere perseguição se sucedeu pelas ruas de Curitiba até chegarmos ao destino final, um restaurante em Santa Felicidade, passagem obrigatória do turismo gastronômico da capital paranaense.

Nos abancamos numa mesa próxima à de Caetano e depois de alguma relutância não resistimos: fomos até ele e puxamos conversa. De bom astral, Caetano nos recebeu e ali permanecemos, os quatro ao redor da mesa, por cerca de 10 minutos. Saciados da atenção do ídolo, fomos embora com o sorriso nas orelhas, todos com o desejado e valioso autógrafo de Caetano Veloso. Que glória!
Anos depois, em 1985, fomos eu e o Cizinho para a ‘Cidade Maravilhosa’. Era a primeira e antológica edição do Rock in Rio. Desta feita pegamos mesmo um avião. Ficamos no apartamento de uma modelo, amiga de Darcy, que apareceu duas ou três vezes na capa do jornal O Globo, com trajes que lembravam o gênero musical dos artistas que se apresentavam no grandioso festival.

O Brasil passava por grandes transformações. Após 21 anos sob uma ditadura militar, o país começava a dar os primeiros passos rumo à democracia. Nesse cenário, pela primeira vez uma nação da América do Sul, continente que vivia tempos semelhantes de cerceamento da liberdade, tortura e mortes, sediaria um evento musical dessa natureza.

Nele estiveram nomes como AC/DC, Iron Maiden, Ozzy Osbourne, Queen, James Taylor, Rod Stewart, Scorpions, Yes e os brasileiros Gilberto Gil, Paralamas do Sucesso e Barão Vermelho. Ao todo foram 28 bandas nacionais e internacionais. Algo inebriante para os apaixonados pelo rock. O local especialmente montado em Jacarepaguá, abrigava nada menos que 250 mil pessoas. Era muita gente!

Numa das noites, eu e Darcy nos perdemos um do outro. Saí à sua procura olhando por cima no meio da imensa multidão. Afinal, ele tinha dois metros de altura e havia, naturalmente, alguma possibilidade de localizá-lo. Depois de algum tempo resolvi dar uma parada para assistir ao show de James Taylor. Foi quando, nas minhas costas, uma bela garota passou a se esfregar. Pensei: nem tudo está perdido. Mas, assim como chegou, ela sumiu, repentinamente!

Um tanto chateado, saí do meio do mar de gente e fui comprar uma cerveja para esfriar a cabeça. Quando coloquei a mão no bolso de trás, onde está a carteira? Percebi então que havia sido vítima de roubo. A garota que se esfregava nas minhas costas tinha surrupiado a carteira.

E agora? Lá estava eu, sem documentos, sem dinheiro, sem o Darcy e sem saber exatamente onde se localizava o apartamento da modelo que nos hospedava. Desesperadora situação. A minha aflição durou uma boa meia hora, quando então, que alívio! Finalmente achei o Darcy!

Foi a última aventura que passamos juntos. Poucos anos depois, ele deixaria este mundo, ainda jovem, vítima de graves problemas cardíacos. A sua imagem, seu astral sempre nas alturas, a sua genialidade e sutileza, permanecerão para sempre na memória daqueles que com ele tiveram o privilégio de conviver!

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