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Dia do Professor

Lembrando meu saudoso pai, mestre que foi de inúmeros itajaienses, parabenizo a todos os professores na passagem do seu dia, neste 15 de outubro. Que um dia o sagrado ofício de educar/ensinar seja devidamente reconhecido. E que a Educação seja colocada na posição de destaque que merece, sendo reconhecida como a melhor arma para o desenvolvimento de uma nação que seja melhor para todos. Afinal, professor é a profissão das profissões, é aquele que forma todos os profissionais, de todas as áreas do conhecimento.

A tecnologia não tem alma

Sempre que lembro do meu pai, o vejo deitado na cama, lendo um livro. Em casa, era assim que gostava de ler. Um leitor compulsivo e apaixonado. Não se tratava de hábito, muito menos obrigação. Era o seu maior prazer!

Dar a ele um livro de presente era uma tarefa dificílima. Um dia teimei, entrei num sebo, separei uma dezena de bons livros e liguei para ele. – Pois então seo Pedro Ghislandi, vou lhe passando os títulos e os autores e o senhor escolha aqueles que desejar. Inútil tarefa. A todos ele já tinha lido. Alguns, inclusive, mais de uma vez.

“Os livros mais cativantes, deve-se ler duas, três vezes. E garanto que a cada leitura farás novas descobertas”, dizia do alto de sua vasta sabedoria. Conhecia a história da humanidade desde seus primórdios, discorria sobre qualquer assunto, filósofos citava às dezenas, escritores alemães, russos, franceses, tchecos, italianos, portugueses, ingleses, irlandeses, enfim. Um erudito na mais completa acepção da palavra.

Assíduo frequentador da Biblioteca Pública Norberto Cândido Silveira Júnior, era comum vê-lo lá, de cócoras em algum corredor, folheando livros e mais livros. Esta posição corporal inusitada, de cócoras, naturalmente chamava a atenção de todos, inclusive dos funcionários da biblioteca, tornando-o até certo ponto uma figura folclórica, além de querido pelos que tiveram a oportunidade de ali conhecê-lo. Ficar de cócoras jogando conversa fora é, na verdade, um costume dos colonos de origem italiana. Na boca, além dos causos, um cigarrinho de palha também não podia faltar.

Em certa ocasião, quis lhe dar um notebook. Assim, poderia ter milhares de livros virtuais à disposição. Claro que eu sabia que seria em vão. “Você acha meu filho, que eu poderia me adaptar a isto? Logo eu, que nem de bicicleta aprendi a andar!” E era assim, caminhando pelas ruas de Itajaí que ele arejava os pensamentos. Mas o notebook foi apenas para sentir a sua reação, sabia que jamais ele trocaria o papel pela plataforma virtual.

“A tecnologia não tem alma”, disse enfático para encerrar o assunto. E eu concordo com ele. Nada como o saboroso ritual de ter o livro nas mãos, folheá-lo, admirar a capa, a contracapa, analisar a apresentação do tema, o projeto gráfico. É uma magia que não pretendo descartar. É o mesmo que você assistir a um filme na TV e no cinema. A emoção é outra! Mas há espaço para todos os suportes, sem que precisemos necessariamente abrir mão de um ou de outro. O mesmo vale para os jornais. O papel e a informação virtual podem conviver pacificamente, e assim penso que será ainda por um bom tempo.

Infelizmente o professor Pedro partiu para sempre em outubro de 2013, mas deixou um grande exemplo a ser seguido pelos filhos e por seus inúmeros alunos, a paixão pela leitura e o amor incondicional à língua portuguesa. Ele não merece cair na vala comum do esquecimento!

Inesquecível mestre

Faz oito anos que vi meu pai pela última vez. Enquanto viveu, foi um farol a iluminar minh’alma e um estímulo para enfrentar os íngremes caminhos que tive que trilhar nesta tortuosa caminhada chamada vida. É a ele a quem recorria nos momentos mais difíceis, naquelas horas mais angustiantes, em que tudo parecia ruir à minha volta.

Era dos seus sábios conselhos e do vasto conhecimento que ele havia acumulado ao longo de décadas de leitura e de vivência que eu me nutria, como náufrago agarrado a uma boia salvadora em mar revolto. Sinto falta mais ainda da sua presença calma e apaziguante, dos momentos em que, deitado no tapete da sala, ouvindo ópera ou música erudita, via-lhe lágrimas a escorrer pelo rosto – tal era a sensibilidade ímpar -, de vê-lo deitado na cama em seu ritual diário de leitura, da paz e do saber que transmitia em suas palavras. Sim, as palavras, sempre bem colocadas e gramaticalmente impecáveis eram a sua paixão maior. Não deixou uma só frase escrita!

A sua vocação era a palavra falada, professor que foi de diversas gerações de itajaienses, especialmente no Colégio Salesiano, onde fez-se um dos fundadores, na época do padre Pedro Baron. Prefeitos, deputados, governadores e uma vasta gama de profissionais das mais diversas áreas do conhecimento passaram pelos ensinamentos do professor Pedro Ghislandi. Latim, francês, história, geografia, entre outras disciplinas, ministrou durante a sua longa trajetória docente.

Mas era à língua portuguesa que dedicava a sua mais fervorosa devoção. Lembro-me, desde a mais tenra idade, da sua intolerância a qualquer erro gramatical que eu ou qualquer dos seus quatro filhos ousasse cometer. Com a severidade própria que normalmente impunha em seu semblante, corrigia-nos sempre que pronunciávamos algo que se contrapunha às regras do bom português.

E assim aprendíamos, no dia a dia da convivência, qual o pronome adequado, qual a flexão correta do verbo, a concordância, a ortografia, enfim, como falar e escrever sem praticar nenhum sacrilégio à sua amada língua pátria. Este comportamento ele manteve até o final dos seus dias, e agradeço à sua persistência pois, não fosse assim, por certo não seria eu o que sou hoje.

Acabei seguindo seu exemplo e me apaixonando também pela palavra. Mas, ao contrário dele, dediquei-me à palavra escrita, formando-me jornalista e, agora, esboçando os primeiros passos como aprendiz de escritor. Acostumado ao exercício da reportagem, foram raras as ocasiões em que me desviei ou atrevi-me a escrever artigos ou crônicas.

E foi justamente depois do falecimento de meu pai que passei a exprimir-me não mais com a apuração dos fatos que resultam no texto jornalístico, mas na forma de escrituras que assumem a revelação de sentimentos e recordações que me assomam a memória e a alma. É como se tivesse hibernado por 20 anos e, de repente, acordado para um novo e iluminado mundo!

Penso que meu pai, no íntimo mais profundo, desejava que eu fosse dotado de alguma grandeza, notável de alguma forma, culto na mais perfeita acepção da palavra, que tivesse lido toda a enciclopédia literária já escrita pelo gênero humano.

Gostaria de tê-lo orgulhado ainda enquanto vivo meu pai. Mas tentarei ser, pelo menos em uma ínfima parte, aquilo que sonhavas para mim! E se conseguir ser alguém de alguma grandeza, certamente deverei esta dádiva a você professor Pedro Ghislandi, de quem muito me orgulho de ter como pai e privilegiado confidente. Descanse em paz!

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