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Balneário Camboriú

Nos iluminados tempos dos festivais de inverno de Itajaí

A ebulição tomava conta dos espaços culturais nos meses de julho. Era o Festival de Inverno de Itajaí, que iniciou em 1973 e durou exatamente uma década. Uma vida relativamente curta, mas vigorosa. As ruas respiravam cultura por todos os poros e o frio, mesmo quando mais intenso, não arrefecia as mentes e corações dominados por uma saudável e agitada emoção.

O teatro, a pintura, a música, a literatura e todas as manifestações artísticas tomaram impulso e alçaram voo durante aquele período, ganhando fôlego suficiente para, muitos desses valorosos artistas ainda hoje estarem em evidência. Vieram a lume em Itajaí, numa fértil e estonteante década, uma geração de talentos influenciados pelo clima de expansiva criatividade.

O idealizador de tudo isto foi o folclorista e intelectual Antônio Augusto Nóbrega Fontes, um cinquentão que pretendia com a iniciativa fomentar o crescimento cultural e o turismo fora da temporada de verão. Subsistem ainda, como resultado de sua atuação e apoio, entidades como Casa da Cultura, Museu Histórico, Associação Coral Villa-Lobos e Proarte de Itajaí.

Irreverente nos pensamentos, sempre à frente de sua época, mas fino e comedido no trato com todos que se aproximavam dele, capitaneava pessoalmente as diversas atividades que eram desenvolvidas nos vários espaços disponíveis na cidade.

No início havia os céticos. Sempre os há. Mas a cada ano o festival mostrava mais vigor e já se inseria pela qualidade da programação no calendário dos mais destacados eventos do gênero em Santa Catarina e no Sul do Brasil. Os Festivais, a cada inverno, enchiam a cidade de mostras, concertos, feiras, conferências, apresentações, cursos, debates, festa e lazer.

Eu e alguns poucos amigos tínhamos o privilégio de participar dos bastidores do evento e nos reunir com Nóbrega Fontes quase todas as noites, tomando uma sopa na então Lanchonete 1040, na esquina da rua Tijucas, defronte da Igreja Matriz do Santíssimo Sacramento.

Ali fazíamos a avaliação das atividades do dia, sempre extenuantes devido à pluralidade da programação que o Festival contemplava. E ali ele nos contava de suas viagens pelo mundo, das suas ideias, dos escritores e poetas que apreciava. Destes últimos não escondia a preferência pelo português Fernando Pessoa, que em célebre frase diz que “tudo vale a pena se a alma não é pequena”. E a de Nóbrega Fontes era grandiosa.

Até que, numa das últimas edições do prestigiado festival, Fontes se mostrou incomodado com murmúrios a seu respeito e lá mesmo, numa mesinha do 1040 decidiu: – Vou fazer um discurso no Clube Guarani, onde se reúne a mais fina flor da sociedade itajaiense, e garanto que calarei de vez a voz desses hipócritas, afirmou enfático. Dito e feito. A Sociedade Guarani ficou completamente abarrotada de artistas, políticos e de outras pessoas que queriam ouvir o que aquele homem tinha de tão importante para falar.

Foi um discurso sóbrio, sincero e, acima de tudo, eloquente pela inteligência de cada frase. Nóbrega Fontes assumia, publicamente, uma opção sexual divergente da maioria, justo em uma época de preconceitos ainda sobremaneira arraigados. Mas o fez com tanta dignidade, sensibilidade, coragem e precisão na escolha das palavras, que enquanto falava, o silêncio reinava absoluto no requintado salão do Clube Guarani.

Perplexidade pela revelação, quase nenhuma. Mas o respeito pela atitude e pela lucidez plácida do orador eram visíveis. Nóbrega Fontes lavou a alma. Terminou aplaudido de pé. E eu pensei comigo: que homem admirável!

Ainda estava de pé naqueles tempos o Bar Dinamarca, nas imediações do atual ferry-boat. Instalado em 1951 pela brasileira mas dinamarquesa por adoção Marta Christensen, o bar se tornou referência obrigatória dos boêmios da cidade e ponto de encontro de marinheiros de todas as partes do mundo. Nas paredes, tinha como decoração predominante as bandeiras de inúmeros países.

Uma das derradeiras vezes em que pude partilhar da agradável e inspiradora companhia de Fontes foi no Dinamarca, um pouco antes de ser demolido para dar lugar a um prédio de muitos andares. Ia ao chão mais um pedacinho da história de Itajaí. Eu e Antônio Augusto Nóbrega Fontes tivemos o privilégio de curtir a última noite de vida do Dinamarca, no final dos anos 70.

Fontes nos deixaria definitivamente alguns anos depois, aos parcos 63 anos de idade. Em meados dos anos 80 ainda tentou-se a ressurreição do Festival de Inverno em uma iniciativa da Universidade do Vale do Itajaí, a Univali, então denominada Fundação de Ensino do Pólo Geo-Educacional do Vale do Itajaí – Fepevi.

Mas qual. Ficou apenas numa edição. Sem o brilho e o fascínio exercido pelo entusiasta Nóbrega Fontes nada mais poderia ser como antes.

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