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Personagens folclóricos animam o cotidiano

Toda cidade que preza pela preservação de sua história não deve esquecer de guardar não apenas na memória, mas especialmente de forma documental – seja por vídeo, áudio ou escritos -, os personagens ditos folclóricos que fazem ou fizeram parte do cotidiano da população. São eles que costumam sacudir a letargia e trazer, cada um deles a seu modo, um pouco mais de alegria e divertimento à monotonia que normalmente predomina no nosso dia a dia.

Itajaí tem sido particularmente pródiga nesses seres cujo comportamento destoa da mesmice imposta pelas regras de convivência em sociedade. Os folclóricos se inserem num universo que os remete a protagonistas de uma intervenção lúdica na vida daquelas pessoas que têm o prazer e o privilégio de estar com elas ou simplesmente cruzarem-se ocasionalmente nas ruas e em lugares por eles frequentados.

Lembro-me de alguns desses personagens inusitados, como o saudoso Nego Dico, torcedor-símbolo do Clube Náutico Marcílio Dias: xingava muito o juiz, mas acompanhava o jogo quase sempre de costas para evitar ver o desempenho por vezes sofrível de seu time do coração. Certa feita o vi beijando afetuosamente o impassível rosto em bronze do marinheiro que dá nome ao clube – homenageado com um busto instalado desde a década de 1920 na entrada do Estádio Dr. Hercílio Luz -, para delírio de um grupo de torcedores que dava risadas e aplaudia frenética e prazerosamente o insólito ato. Foi, com certeza, muito divertido!

Outro personagem digno de figurar entre os folclóricos é o primo e companheiro de copo e de cruz Nego Buti, que durante um bom tempo chorou a morte do Nego Dico. E houve uma época que Buti ia com Dico ao estádio não como torcedor. Antes de cair no abismo do álcool Nego Buti foi, vejam só, jogador da equipe marcilista! Frequentador assíduo das praias da Atalaia e de Cabeçudas, região onde era visto regularmente caminhando com uma garrafa de pinga na mão, ele tem a risada mais folclórica da cidade. Soube que após recente tratamento clínico Nêgo Buti curou-se das beberagens. Melhor assim, perde-se o personagem mas fica o ser humano. Ambos – Dico e Budi – igualam-se na pureza de intenções e na bondade extraordinárias.

Nego Buti.

Um outro de coração imenso – e é aquele sobre quem posso me alongar mais por tê-lo conhecido melhor – é o Humberto Pereira, pessoa de muitas amizades e conhecido por Pirelli. Não me perguntem o porquê do apelido, mas desconfio que é pela paixão que ele nutria pelos carros e pela velocidade, já que Pirelli é uma marca famosa de pneus para automóveis. Ou talvez porque a palavra lembre de certa forma alguém pirado. E esta é, naturalmente, a característica principal daqueles que destoam da comum normalidade, ou seja, os iluminados, divertidos e irreverentes personagens folclóricos.

Mas o saudoso Pirelli – ao contrário de Dico e Buti – não compunha um personagem com quem a gente esbarrasse nas ruas. Era mais reservado e costumava frequentar uma razoável variedade de bares de Itajaí. Éramos vizinhos e morávamos na rua Brusque, bem em frente da então famosa Sorveteria Seára, que para a alegria de Pirelli vendia não só os deliciosos sorvetes e picolés, mas também a ‘mardita’ cachaça, da qual acabou sendo mais uma vítima.

Já foi dito que o álcool é o líquido que mata os vivos e preserva os mortos. Muitos países têm leis severas em relação à graduação alcoólica de certas beberagens, incluindo o Brasil que não permite que sejam vendidas bebidas com teor acima de 60%. Mesmo assim, alguns fabricantes espalhados no planeta desafiam a legislação e o bom senso e colocam no mercado verdadeiras poções que derrubariam o mais destemido beberrão.

Das batidinhas, aquela que mais Pirelli apreciava era a losna. Na Grécia antiga era usada em homenagem à deusa da fecundidade e da caça Ártemis; daí derivou seu nome científico Artemisia Absinthium. Trata-se de uma planta medicinal usada no preparo de chá para os males do fígado, mas é também a erva utilizada na fabricação do absinto, bebida destilada de alta dosagem alcoólica. Comercializado no Brasil e em quase todo planeta, o absinto foi especialmente popular na França no final do século 19 e início do 20, sobretudo por sua ligação aos artistas parisienses Charles Baudelaire, Paul Verlaine, Arthur Rimbaud, Oscar Wilde, Toulouse-Lautrec e Edgar Allan Poe, que a chamavam de ‘fada verde’, em função do seu suposto efeito alucinógeno.

Era sagrado. No final da manhã e em especial ao término de cada dia, lá estava o Pirelli na Sorveteria Seára, encostando no balcão sua singular magreza distribuída em um metro e oitenta de altura e elegante postura. Penso que os dedos das mãos não seriam suficientes para contar a quantidade de doses de losna consumidas durante seu ritual alcoólico diuturno, entremeadas quase sempre pela cerveja, “para contrabalançar”, dizia ele. Era especialmente falante, de um discurso que contagiava. Sempre tinha histórias interessantes para contar ou notícias que amealhava aqui e acolá no seu périplo pelos bares da cidade.

Eu e meus irmãos, ainda crianças, nunca poderíamos esquecer da sua bondosa alma. Todos os anos, por ocasião do dia de São Nicolau, Pirelli trajava-se rigorosamente de Papai Noel e, com um saco repleto de doces e guloseimas nas costas, passava a jogá-los pelas janelas da nossa casa e das residências próximas. Era quem mais podia jogar-se debaixo de mesas, sofás, armários e camas à cata dos deliciosos quitutes presenteados pelo inesquecível e divertido vizinho.

Também é difícil esquecer a dolorida surra de vara de marmelo que ele levou de seu pai, seo Rosendo, quando este descobriu que o filho Humberto não tinha como preferência sexual as mulheres. Os gritos lancinantes do querido Pirelli açoitado impiedosamente eram ouvidos penosamente por toda a vizinhança.

Depois do lamentável acontecido, Pirelli não mais foi visto em casa. Descobriu-se que ele havia ido morar com uma velha e abastada tia, no centro de Itajaí. Não muito tempo depois, ele reapareceu na Sorveteria Seára, elegantemente trajado e a bordo de um fulgurante puma vermelho. Sua tia tinha falecido, deixando para ele uma polpuda herança. Passava do meio dia quando, hipnotizado pelo vistoso automóvel, atravessei a rua Brusque para ver de perto a joia rara. Era início dos anos 70 e eu deveria ter catorze ou quinze anos de idade.

-Émerson, que tal ires comigo almoçar no Aeroclube de Blumenau e depois darmos uma voada de teco-teco, indagou-me com um largo sorriso. Não resisti à tentação e lá fomos, voando baixo no possante e reluzente puma. Exímio motorista, fazia manobras arriscadas mas pontuais na rodovia, ultrapassando sem pestanejar a todos que viajavam à sua frente.

Medo e fascínio misturavam-se às minhas juvenis emoções naquela desabalada carreira. Acho que em menos de meia hora chegávamos nós ao Aeroclube de Blumenau, onde Pirelli já era vastamente conhecido por todos. Foi alucinante! Voamos por terra com o Puma e depois nos céus de Blumenau embarcados em um acanhado teco-teco. Que viagem! Quanta aventura para um garoto num mesmo dia!

A exemplo do Nego Dico e de vários outros personagens folclóricos que alegravam os dias de Itajaí, Pirelli não teve uma vida longa, subtraídos que foram da existência pelos males provocados pela ingestão desmedida do álcool. Mas na memória daqueles que tiveram a oportunidade de conhecê-los eles permanecerão para sempre, iluminando nossas almas cansadas da fastidiosa rotina e ansiosas por algo que nos distancie da obviedade reinante. Descansem em paz!

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