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14.6 C
Balneário Camboriú
Marisa Zanoni Fernandes
Marisa Zanoni Fernandes
Ex-vereadora em Balneário Camboriú, é doutora em educação e professora universitária.
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Travessia

As faixas brancas sobre o asfalto nada dizem. Marcam o listrado espaço. Cortam ruas, avenidas e vidas.

As faixas brancas nada dizem. Enfeitam o chão acinzentado, pisoteado, movimentado. Perfilam-se numa espécie de branqueamento — seriam uma marca do processo civilizatório?

Nas ruas, as brancas faixas nada dizem, oferecem o contraste comum à geografia urbana.

Na tênue linha do horizonte, vagueia a jovem mãe com uma criança na mão e com a outra, empurra o carrinho com um bebê — duas mãos parecem pouco para tanto.

Ah, mas há a faixa branca que sinaliza a segurança. Há o branqueamento que demarca o chão, o tempo, a travessia. E quem segura a mão solta da criança? Quem assegura sua segurança? Quem aproxima a faixa se não há pés, mãos e olhos para protegê-la?

As faixas brancas nada dizem. Elas ficam lá paradas, imóveis diante a urgência da pressa coletiva que não rompe velocidades, não hierarquiza prioridades e tampouco tamanhos.

As faixas brancas nada dizem. Um freio vem do impulso da vida e dos ágeis dedos que se enroscam nos finos cachos de cabelos pretos. A pequena cabeça vibra forte e joga ao vento os finos cachos pretos, as mãos, os corpos… São eles que rompem o silêncio das brancas e frias faixas. O gesto abrupto e bruto de quem para o tempo e as velocidades. Os pés já descalços não se movem. Dispara apenas o ritmo cardíaco.

E as faixas seguem sem nada dizer, nada significar. Para elas, do branqueamento das ruas listradas, restam apenas lágrimas e fios de cabelos pretos na travessia.

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