O TESOURO DO PIRATA ZULMIRO

Dalton Delfini Maziero
Historiador, escritor, especialista em arqueologia e explorador. Pesquisador das culturas pré-colombianas e história da pirataria marítima.
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Não faz muito tempo, o pirata Zulmiro não passava de uma lenda urbana na cidade de Curitiba, no século XIX. A história nos contava que esse britânico de nome desconhecido, havia se estabelecido no Brasil e enterrado um baú cheio de riquezas em um antigo cemitério no bairro das Mercês. Desde então, muito moradores e caçadores de tesouros tentaram descobrir tal riqueza, às escondidas, cavando buracos à luz de lampiões.

Contudo, em 2018, o pesquisador Marcos Juliano Ofenbock provou que a história de Zulmiro era mais real do que parecia. Foram 20 longos anos de investigação. Através de levantamento de documentos antigos, Ofenbock provou que Zulmiro, de fato, existiu. Ele se chamava Francis Hodder, um inglês nascido na cidade de Cork (Irlanda) em 1798. Hodder trabalhou como marinheiro para a Marinha Britânica no século XIX, até que, por um infortúnio, matou um oficial durante uma briga. Para escapar à forca, adotou um pseudônimo (Zulmiro), prática muito comum aos piratas para que seus passados não fossem rastreados.

Segundo Ofenbock, Zulmiro e mais dois piratas – José Sancho e “Zarolho” teriam participado do saque a um galeão espanhol que transportava as riquezas das Américas e da Catedral de Lima (Peru) no ano de 1821. O enorme tesouro nunca foi oficialmente localizado, e pesquisadores apontam a Ilha de Trindade (Espírito Santo, Brasil) como uma das possibilidades para o enterramento das riquezas. Zulmiro foi para em Curitiba para fugir da perseguição das autoridades britânicas em 1831, onde passou a morar em um bairro discreto (Pilarzinho), ocultando seu passado como pirata. Documentos registram a existência de um homem inglês chamado “Velho do Mato”, que acreditam ser Francis Hodder. Em 2019, a Prefeitura de Curitiba reconheceu a validade documental que provava a existência de Zulmiro como uma pessoa real. Em 2024, uma praça com seu nome foi inaugurada, com a presença do Cônsul Brtitânico em Curitiba.

Agora, em setembro de 2025, uma expedição partiu em direção a Ilha de Trindade para estudar a possível presença de piratas na região e, claro, localizar o possível tesouro saqueado de Lima no ano de 1821. Segundo a tradição, Zulmiro teria dividido o tesouro em 11 depósitos espalhados pela ilha, fazendo um mapa de demarcação para sua futura localização. Como a ilha é uma unidade de preservação ambiental, a equipe conta com a presença de militares e cientistas, além do aval de instituições como o IFAM e o ICMBio. Na verdade, a ilha de Trindade é um vulcão extinto em meio ao oceano, com uma paisagem “lunar” que dificulta a permanência no local e que apresenta alterações em sua geografia, devido a deslizamentos de terra.

Mas a expedição de Ofenbock não é a primeira a investigar o local. Ao menos nove tentativas já foram realizadas em momentos diferentes da história, desde o início do século XX. Existem ao menos cinco expedições brasileiras registradas entre 1910 e 1950. Oficialmente, nenhum localizou o suposto tesouro. A diferença desta é que ela conta com dispositivos de detecção moderno, como radares, drones e detectores de metal. A expedição tem o apoio da Marinha do Brasil.

Neste momento, nos resta aguardar o desfecho desta incrível pesquisa, para ver se um novo capítulo da história do antes lendário Zulmiro – agora uma personagem real – poderá ser escrita.

Dalton Delfini Maziero é historiador, escritor, especialista em arqueologia e editor da revista Gilgamesh. Pesquisador dos povos pré-colombianos e história da pirataria marítima. Visite a página: (https://www.revistagilgamesh.com.br)

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