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Balneário Camboriú

O Espírito Irresponsável do Tempo

O filósofo Aristóteles definiu que a virtude humana pode ser de dois tipos, a intelectual e a moral. A intelectual teve seu nascimento e desenvolvimento na educação, e por isso exige experiência e tempo para ser atingida. Já a virtude moral é adquirida pelo hábito, não surge em nós por natureza.

Na prática dos atos humanos, nos tornamos justos ou injustos, corajosos ou covardes, e prestando atenção a esses atos diários avaliamos as diferenças de caráter.

Essa prática de boas atitudes desde a infância, faz uma grande diferença na formação de gente. E essa mesma tenra idade que todos tivemos o privilégio de viver, inspirou Nietzsche a encarar o tempo como um jogo lúdico, igual uma criança à beira do mar construindo um castelo de areia, que mesmo sabendo que o mar irá destruir mais tarde, não deixa de fazê-lo, pelo simples prazer em vivenciar aquele evento, pois é de sua natureza a necessidade de viver.

Nesse mesmo mar que Dorival Caimi não sabia nadar nem pescar, ele nos confessou que preferia buscá-lo fora dele. Ele dizia:

– O bem de terra é aquele que chora, mas faz que não chora.

Nossas crianças que brincaram nessa areia se tornaram adultos, nem sei como tão cedo. E seus novos hábitos digitais os conduziram ao mundo de Decentraland, um ambiente online também conhecido como metaverso, onde você pode comprar muita coisa e conhecer um avatar.

Não me imagino comprando um terreno nesse espaço onde não tem árvore para prender as cordas de minha rede, tão pouco um lago com patos navegando contemplativos.

Me passa um desassossego intenso essa existência paralela ao real, esse quase culto às coisas mundanas com seus ritos de liberdade, parecendo uma revivência às idolatrias antigas onde animais eram como deuses, ou uma escravidão das criaturas aos senhores do mundo.

Por vezes me parece que a humanidade não mudou, somente se especializou, transformou apenas a forma, não a essência.

Fernando Pessoa escreveu em seu livro do Desassossego que a decadência é a perda total da inconsciência e que o sonho da razão pode produzir monstros indesejáveis no conduzir da vida real. E o perigo do afastamento do comportamento humano tradicional desfaz o fugaz encontro do toque, necessário para nos manter gente de carne, e longe desse cenário digital sem osso.

Não podemos voltar no tempo, mas exaltar o passado onde construímos o laço que ligará para sempre aos que ficarão junto a nós, numa caminhada entre as duas eternidades silenciosas e escuras de nossas vidas.

Os mortos não esperam vingança, justiça, empatia ou tudo aquilo que os vivos possam por si demonstrarem em vida.

Esses, através de suas habilidades diárias e sensíveis aos lamentos do outro, podem atender os olhos que estão a espera de um veredito de atenção a suas preces mundanas quase simples, mas reais, de sentimentos típicos de gente à espera do abraço e de sua atenção.

Um brinde, ao espírito irresponsável do tempo.

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Raul Tartarotti
Engenheiro Biomédico e cronista.
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