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Ortotanásia à humanidade

Quando estamos confinados pelo momento descabido e provocado pelo outro, que por vezes não sabemos quem seja, fica a indignação e aflição de sairmos do quarto fechado, pois assim se tornou o viver no planeta.

A escritora Charlotte Perkins Gilman, precursora da literatura feminista americana, escreveu em 1892, “O Papel de Parede Amarelo”, publicado na New England Magazine. Num conto de 6000 palavras, colocou sua personagem nervosa e histérica, presa a um quarto com papel de parede amarelo. O efeito do confinamento a tornou obsessiva pela cor e, pior, ao final, se recusou a sair dali.

Nossa porta fechada à liberdade, que nos afeta intensamente, inclui a ansiedade perturbadora pela paz de espírito, que ofusca o quanto poderíamos estar praticando o que quiséssemos, na rua.

Como você está nessa escada, de agora, em uma corrida de interesses aos melhores desejos mundanos, presentes em nosso entorno, nos olhos de um menino (a) que você já foi?

Naquela época, o caminho era cercado pelas margens de um rio de emoções envolto de gente, abraços e rotas desertas desenhadas pelo vento.

Mas a vida, esse nobre evento que nos foi dado, se mantém um respirar esfumaçado pelas diversas ideias que criamos na escada sem corrimão.

Escolher um espaço próprio, do descanso eterno, pode parecer mórbido e sombrio, porém, é o símbolo de um assimilar maduro de aceitação da própria finitude.

O homem é seu próprio fim após ter sido sua natureza e semente de si mesmo.

A decisão de uma ortotanásia à humanidade, ao ponto que nos encontramos, é escolha lamentável, pois a pulsão por morte humana, às vezes me parece vencer longe o instinto de vida.

De tanto penar e pensar junto a seus pés e escolhas, providas nas adjacências do sentimento objetivo, necessitamos sobreviver às custas de nosso suor e lágrimas.

Mas o minuto da introspecção de si, com fogoso penar dos instintos de morte, nos remete à reflexão de qual sentido expomos nossa própria vida.

Penoso lamento do final de um curso fugaz e há muito atordoante, que foi costurado nas próprias falésias do pensar, sem fim no horizonte, sem limite de altura.

Lamento minha finitude, sempre que vi, no final da construção de uma existência. Me choca profundamente entender o sentido daquela vida, repleta de coisas, e eventos, e pessoas unidas pelo laço construído por sentimentos, surgidos no apreço inexplicável, intangível de fora para dentro, tendo como o amor sua mais nobre origem.

Você já pensou no final de seus dias, naquele instante de seu último pingo na chuva de emoções que é sua vida?

Desistir nunca foi uma opção para a humanidade, o Homem de Neandertal saiu da caverna, porque desejava uma vida melhor, porque tinha interesse em sair de sua cegueira, necessitava se completar como indivíduo, em troca de um sentido para sua existência. Ele cresceu, por dentro, ficou forte e saudável, como todos deveríamos ser, e findou, naturalmente.

E não às pressas por conta de um minúsculo ser, a busca do conforto de um pulmão alheio.

No “Conto da Forma”, vivemos na estabilidade emocional sem prazer, apenas remando na mesma maré do vizinho, somente porquê nos disseram que assim seremos felizes.

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Raul Tartarotti
Engenheiro Biomédico e cronista.
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