Chineses vêm ao Brasil em busca de 30% do mercado de biotecnologia

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PEQUIM, CHINA (FOLHAPRESS) – “A solução definitiva para salvaguardar a segurança alimentar está em aprimorar a ciência e a tecnologia.” A frase é de Xi Jinping, presidente chinês, e reflete a preocupação do país com o abastecimento alimentar. Empresas e governo da China vêm atuando fortemente nessa direção, com velocidade na execução de planos e volumosos investimentos. Por onde se passa, são aparentes os sinais dessa revolução. Assim como fizeram com a indústria, principalmente com a automobilística, os chineses agora querem fazer o mesmo com a agricultura.

Centros de pesquisas, laboratórios, centros de monitoramento e de orientação às cadeias produtivas ainda reluzem devido ao pouco tempo de uso. A China entende que a tecnologia será fundamental para a evolução da produção e faz pesados investimentos em agricultura digital, biotecnologia, genética, edição gênica, máquinas agrícolas, manejo e inteligência artificial.

Tanto investimento, no entanto, não é apenas para o desenvolvimento interno, mas para colocar o país como um dos principais fornecedores globais de tecnologias agrícolas. O Brasil, um dos principais produtores mundiais de grãos e de proteína animal, está na mira dessas indústrias.

Está desembarcando no país uma das principais empresas de biotecnologia da China, a DBN Biotech. Ela vem para concorrer com gigantes já atuantes no mercado brasileiro, e espera, até 2038, ter pelo menos 30% do mercado nacional de biotecnologia.

Na China, o avanço tecnológico se volta para o aumento de produtividade, uma vez que os chineses têm desafios para elevar a sua produção de grãos, principalmente a de soja, setor no qual o país tem a maior dependência externa. A produtividade é o caminho para o aumento de produção e redução de vulnerabilidade. O governo aposta na biotecnologia, e as regiões do Nordeste do país, principalmente a Mongólia Interior, passaram a ser as principais áreas de desenvolvimento de plantas com essa tecnologia.

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Um dos obstáculos dos chineses é o tamanho das propriedades agrícolas, a maioria com 667 metros quadrados. Nessa região da Mongólia já há uma concentração maior de área, formada por cooperativas e empresas e incentivada pelo governo. A ampliação da área, o uso de máquinas e a irrigação elevam a produtividade, que vem aumentando pelo menos 1% ao ano. Na região, com o apoio do governo, foi instalado um centro de tecnologia de inovação nacional para toda a cadeia da soja.

O centro, antes um parque tecnológico, agora virou um espaço de demonstração da cadeia de soja. O objetivo é levar informações referentes a plantio, processamento e comercialização. Ele faz a coordenação de políticas públicas, industrial e de pesquisas, e o governo local tem um modelo de cooperação com empresas e universidades.

Pelo menos 30 empresas e 30 universidades chinesas já cooperam com esse centro, que tem, entre os seus focos, desenvolver uma variedade de soja adaptável ao terreno salinizado de parte da região. Com um olhar sobre toda a cadeia de soja no Nordeste do país, o objetivo é garantir a segurança alimentar, afirma XuHong-Ru, diretora do centro.

Um dos planos do governo chinês é reduzir a dependência das importações de grãos, mas a missão não será fácil. Essa avaliação vem do próprio setor. Suping Geng, diretor de negócios da DBN Biotech na América do Sul, diz que a área de plantio na China é limitada e não há como ter grandes expansões. Além disso, soja e milho concorrem com a mesma área, e os produtores preferem o plantio do cereal.

Suping vai coordenar a operação da DBN Biotech, empresa do Grupo DBN, no Brasil. Na China, o grupo atua na área animal, com produção e fornecimento de ração para suinocultura, avicultura e piscicultura, além de produtos veterinários. Na agricultura, desenvolve tecnologia para arroz, milho, soja e outras culturas, como tomate. No Brasil, a empresa começa com o fornecimento de tecnologia para a produção de soja, tendo o algodão e o milho como os próximos passos.

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A DBN foi fundada em 1993, mas a DBN Biotech veio em 2010. Com a fundação desse novo braço do grupo, a empresa visava milho e soja. O setor de milho ficou basicamente voltado para a China, mas o de soja já tinha um foco especial na América do Sul. Em 2013, vieram para a Argentina e mais recentemente, para o Brasil. A China tem 3.000 empresas de sementes, e 80% são privadas. Desse número, a DBN é a primeira entre as privadas e a terceira no universo total.

A empresa no Brasil deverá adquirir uma área para experimentos e montar um centro de pesquisa em Campinas (SP). Com isso, a DBN chegará ao país com produtos de boa performance, superiores aos concorrentes no combate a insetos e ervas daninhas.

Suping sabe que a concorrência não será fácil, mas ele aposta em três fatores. Primeiro, ele está confiante na qualidade do produto que vai colocar no mercado. Segundo, há uma ponte entre Brasil e China, o maior mercado dos brasileiros. A empresa fará um compartilhamento maior de valor entre a cadeia.

Para Mo Yun, presidente do Grupo DBN, o Brasil é um país estratégico, e a empresa fará todos os esforços para o desenvolvimento desse negócio.

André Schwening, presidente da Amssoja (Associação dos Multiplicadores de Sementes de Soja do Brasil) diz que o ingresso de uma nova empresa de biotecnologia é sempre positivo para o setor dos multiplicadores de sementes, uma vez que gera mais competitividade. Em se tratando de uma empresa chinesa, eu acho que isso se potencializa ainda mais, afirma.

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Luan Guarido, da Genética Soy, também acredita ser importante a nova tecnologia trazida pela DBN. A chegada da empresa é saudável porque amplia o leque para o produtor, e as duas novas gerações de tecnologias dela serão bastante competitivas.

A agricultura chinesa está no patamar agrícola em que os brasileiros estavam nos anos 2000. A chegada deles ao patamar brasileiro atual, no entanto, será mais rápido do que o caminho percorrido pelo Brasil, devido às novas tecnologias disponíveis. Guarido usa uma metáfora, dizendo que os brasileiros fizeram esse percurso de Chevette, enquanto os chineses estão vindo de Corolla. “Estão estudando o solo, as regiões agrícolas, o manejo e usando novas tecnologias para isso. Além disso, o governo tem investido muito”, afirma.

Para conhecer o seu centro de pesquisas na China, a DBN levou empresas brasileiras de melhoramento genético, empresas de semente e cooperativas. As empresas de genética colocam a biotecnologia nas cultivares. Essas cultivares são desenvolvidas, e as empresas de sementes fazem a multiplicação. Na sequência, vão para a rede de distribuição.

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