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Rio Grande (RS) ainda junta os cacos da quebra da indústria naval

O comerciante Ralphs Dourado Junior, 48, comandava uma pequena loja de suplementos vitamínicos no centro de Rio Grande (RS), a 300 quilômetros de Porto Alegre, quando representantes do governo e da Petrobras começaram a realizar reuniões com o empresariado local, por volta de 2007.

“Ali nos venderam que a indústria naval no Rio Grande duraria no mínimo 30 anos e que deveríamos nos preparar para atender essa demanda ou perderíamos [oportunidades] para o pessoal de fora”, recorda ele. “Todo mundo ficou comovido com a situação: bah, então vamos lá!”

Ralphs pegou R$ 200 mil emprestado e abriu uma loja três vezes maior do que a sua em um dos shoppings prestes a inaugurar na cidade, que lhe convenceu com a oferta de um ponto próximo a uma academia de ginástica.

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Não foi o único: dados compilados pela consultoria Aequus mostram que o número de estabelecimentos comerciais em operação em Rio Grande disparou naquele período, passando de 2.969 em 2006 para 3.966 em 2014, quando estourou a Operação Lava Jato.

Todos de olho em um contingente de trabalhadores que inundou a cidade com o crescimento das obras nos estaleiros locais. Em 2014, Rio Grande chegou a um estoque de 56.354 trabalhadores com carteira assinada, crescimento de 60% em relação ao verificado em 2006.

Destes, cerca de 24 mil estiveram mobilizados no pico das obras nos dois estaleiros locais –ERG (Estaleiro Rio Grande) e QGI– e no EBR (Estaleiros do Brasil), na vizinha São José do Norte.

Além de lojas e dos shoppings, a cidade atraiu grupos hoteleiros e investimentos em hospedagem e alimentação para os trabalhadores.

O PIB do município quase dobrou no período. “Era todo mundo com dinheiro mesmo. O cara que trabalhava na área naval parecia aquele jogador de futebol badalado”, conta Thiago Escobar Arriche, 41, que passou sete anos trabalhando no polo naval e hoje é dono de um lava jato.

“Fazia um curso e, da noite para o dia, o salário subia de R$ 1.000 para R$ 10.000. Andava num ‘golzinho’ e, do nada, consegue ir na concessionária comprar um carro zero”, ilustra.

A maré começou a virar após o início da Lava Jato, que levou a Petrobras a suspender e depois cancelar contratos com estaleiros, todos eles focados na construção de plataformas de petróleo –o ERG foi o primeiro a construir cascos para esse tipo de embarcação no país.

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Os rio-grandinos lembram com tristeza do que chamam de “Dia D” do município, quando a última obra do ERG foi suspensa e cerca de 3.200 pessoas foram demitidas no mesmo dia. “Tinha gente chorando na calçada, gente que não sabia o que fazer”, recorda Thiago.

Além do investimento na loja, Ralphs havia comprado R$ 500 mil em estoque de suplementos. Sem demanda, cerca de R$ 200 mil foram perdidos por vencimento da validade dos produtos. Ficou cinco anos no shopping para cumprir contrato e diz que a nova loja não se pagou sequer por um mês.

“Tive que vender carro, negociar dívida, até pensamento de suicídio eu tive” diz ele. “Fiquei muito deprimido. É um sonho, um projeto, e quando tu vê, o negócio não anda”, completa o empresário, que conseguiu quitar as dívidas e voltou à lojinha no centro da cidade.

Hoje, os três estaleiros locais operam com capacidade bem mais baixa do que o esperado. Um deles, o QGI, está abandonado, com parte de seu terreno servindo de pasto para cavalos da comunidade vizinha.

O ERG opera com reparos navais, alugou parte de seu cais para a movimentação de gado e cavaco de madeira e, recentemente, pegou um contrato de desmantelamento de plataformas, cujas obras devem começar em novembro.

Controlado pelo grupo japonês Toyo, o EBR está em melhor situação, fabricando módulos e finalizando plataformas construídas por sua matriz no exterior. Concentra a maior parte dos cerca de 3.500 empregados do setor atualmente, segundo o presidente do sindicato dos metalúrgicos local, Benito de Oliveira Gonçalves.

Benito acredita que o terceiro ciclo de investimentos na indústria naval virá também mais modesto, com um volume menor de encomendas. Mas ainda assim suficiente para reaquecer a economia e demandar medidas do governo, como qualificação de pessoal.

Mesma percepção tem o diretor operacional do ERG, Ricardo Ávila, que compartilha com moradores um sentimento de cautela em relação às promessas de retomada do setor. “Imagina pegar um contrato grande, com risco alto, e tropeçar de novo”, diz.

O desmantelamento de plataformas é visto pela empresa como uma oportunidade de retomada, já que a Petrobras prevê licitar 26 outras unidades até 2027. A proximidade com a Gerdau, grande recicladora de aço, e a menor necessidade de mobilização para esse tipo de obra são vistas como vantagens.

Ainda em recuperação judicial, o estaleiro tem metade de sua receita atual com aluguel da área para o porto. A situação deve mudar com o contrato de desmantelamento da plataforma P-31, obra da Gerdau que será tocada no estaleiro, com expectativa de gerar cerca de 1.500 empregos.

Vivendo de bicos como tomar conta e lavar carros em uma praça no centro da cidade, Fábio Alessandro Almeida, 48, aguarda uma chance de retornar ao setor, onde trabalhou por três anos com um salário duas vezes superior ao que tinha como auxiliar administrativo.

“Estar trabalhando é outra coisa, levantar e ter um destino para ir, saber que vai cair na conta o dinheiro”, diz ele, que aproveitou o salário maior para fazer uma reforma na casa. “Aqui é dureza para mim, tem dia que dá, tem dia que não dá, a gente depende da boa vontade das pessoas.”

RIO GRANDE, RS (FOLHAPRESS)

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