(FOLHAPRESS) – O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou nesta quarta-feira (26) que “ouve falar de um problema de monopólio” no setor de processamento de carne americano há cerca de 20 anos e “só escuta coisas ruins” sobre as quatro maiores empresas do segmento, das quais duas são brasileiras.
Trump fez as declarações ao apresentador Glenn Beck durante entrevista por telefone. Beck instou o presidente a afrouxar as regulações federais sobre o mercado de carne nos Estados Unidos, afirmando que as exigências de inspeção são absurdas para os pequenos produtores e que o problema está nas “quatro maiores empresas de processamento”, que, segundo ele, estão “agindo em conluio”.
“Duas delas nem são americanas”, afirma.
Em resposta, Trump diz: “Tenho ouvido sobre esse problema há 20 anos. Isso [o afrouxamento de regulações] seria uma ótima medida para pecuaristas e agricultores; melhor, seria uma ótima medida para o país.”
“Eu só tenho ouvido coisas ruins sobre essas quatro empresas. É um monopólio”, afirmou o presidente, sem citar as companhias nominalmente.
As quatro maiores processadoras do mercado americano são JBS, Tyson Foods, Cargill e National Beef. A JBS e a National Beef, controlada pela MBRF, têm origem brasileira.
As companhias foram procuradas por email às 15h30 desta quarta, mas não responderam aos pedidos de comentário até a publicação desta reportagem.
As declarações ocorrem em meio a uma ofensiva do governo Trump contra a concentração no mercado americano de carnes. Em maio, o Departamento de Justiça anunciou uma investigação antitruste sobre as maiores processadoras de carne bovina do país, que analisa supostas violações de regras de concorrência na indústria.
O movimento também ocorre na esteira da disparada dos preços de proteínas de origem animal nos Estados Unidos e da redução do rebanho. Um quilo de carne moída chegou a US$ 6,759 (R$ 35,10) em janeiro deste ano, de acordo com Federal Reserve Economic Data, um aumento de 18% em comparação com o ano passado.
Em números oficiais, a inflação da carne foi de 9,4% nos 12 meses encerrados em julho, segundo o índice de preços ao consumidor divulgado pelo Departamento do Trabalho.
Diante da alta de custos, Trump anunciou na sexta-feira (21) que os Estados Unidos agora permitem a importação de até 300 mil toneladas de carne moída sem afetar as cotas tarifárias. A medida, parte de um acordo de 90 dias, não explicita de quais países virá a carne nem quem assumiu o compromisso de oferecer preços mais baixos.
O conselheiro da Casa Branca, Peter Navarro, chegou a acusar as empresas de integrarem um cartel e afirmou que a concentração de mercado contribui para elevar os preços pagos pelos consumidores americanos.
“Temos um cartel no processamento de carne bovina. É um cartel de quatro empresas que controla 85% de todo o processamento de carne”, disse. Ele afirmou que a concentração permite que as companhias exerçam pressão dos dois lados da carteira produtiva: pagando menos aos pecuaristas pelo gado e cobrando preços mais altos dos supermercados.
“E fica pior porque duas das quatro empresas são de propriedade brasileira e estão envolvidas até o pescoço com os chineses”, afirmou Navarro. “O que a parte brasileira do cartel faz, como qualquer cartel faria, é maximizar seus preços globalmente, e os americanos estão pagando a conta por isso.”
Na época, a MBRF afirmou que opera “em estrita conformidade com as leis de defesa da concorrência e antitruste e mantém políticas robustas de governança e integridade”. A empresa afirma que o modelo de operação da National Beef é único nos EUA e possui uma parceria de longa data com aproximadamente 700 produtores locais, que, juntos, detêm cerca de 18% do capital da companhia.
A JBS não se pronunciou.
Navarro disse ainda que o Departamento de Justiça continua trabalhando na frente antitruste e que o Departamento de Agricultura busca estimular a entrada de processadores pequenos e médios no mercado para reduzir essa concentração.
Na entrevista com Donald Trump, o apresentador Glenn Beck diz que pecuaristas, ele próprio um, não conseguem fazer o abate de gado por causa de “regulamentações federais e pede ajuda do presidente para afrouxar a legislação.
Trump pergunta, então, se os pecuaristas conseguiriam fazer o abate se não houvesse tanto escrutínio regulatório. Beck assente e diz que “é preciso quebrar o domínio dessas quatro empresas de processamento” e que “há pessoas querendo construir instalações de processamento por toda parte, mas as regulamentação estão nos matando, simplesmente nos matando”.
Trump pergunta novamente: “Você está dizendo que, com menos regulamentação, os pecuaristas e agricultores fariam um ótimo trabalho no processamento de carne?”. Beck diz que sim, ao que Trump responde “uau”.
“Isso é uma coisa muito grande. Você acaba de me dar uma ótima ideia”, diz Trump.
No fim do ano passado, uma reportagem do jornal americano The New York Times afirmou que a Casa Branca solicitou uma análise das práticas das empresas frigoríficas após o presidente Donald Trump, em uma publicação nas redes sociais, ter acusado as gigantes do mercado de inflacionar artificialmente os preços e colocar em risco o abastecimento alimentar do país.
Já na época, um comunicado da Casa Branca nomeou especificamente JBS, Cargill, Tyson Foods e National Beef como alvos da investigação.

