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Balneário Camboriú

Balneário Camboriú é a sede da 1ª edição da Semana da Diversidade em Santa Catarina

O evento inicia nesta quinta-feira (20) e segue até domingo, com programação 100% online e gratuita

A primeira edição da Semana da Diversidade em Santa Catarina (SDSC), com sede em Balneário Camboriú, na Arthousebc, inicia nesta quinta-feira (20), transmitida de forma online e gratuitamente, até o próximo domingo.

O evento surge para celebrar o Dia Mundial da Diversidade Cultural, que é lembrado nesta sexta-feira (21) e para chamar atenção sobre as diferenças, barreiras e preconceitos ainda tão fortes na sociedade.

A programação [confira tudo no final desta reportagem] conta com palestras, rodas de conversa, exibição de filmes, exposições de fotos. 

Nesta primeira edição, os organizadores e curadores buscam relembrar a importância de temas como a permanência cultural, a singularidade de diversos povos, a especificidade de bens e serviços culturais e as razões pelas quais eles são os transportadores da diversidade e identidade. 

O Página 3 é parceiro do evento, que poderá ser conferido através do site: www.festivalbc.com/sdsc – onde já estão disponíveis os filmes, músicas e exposições fotográficas. Além disso, nos dias 21 e 22 a partir das 20h, serão realizadas projeções de obras das artes visuais ao ar livre, em espaço público, seguindo normas de segurança de combate ao covid-19. As atividades totalizam mais de 72 horas de programação inédita.

Arthousebc, a sede do evento, com transmissão online

“A SDSC nasce para contribuir com o fim da ignorância”

ANDRÉ GEVAERD, cineasta e idealizador da 1ª edição da Semana da Diversidade em Santa Catarina

“Já faz muito tempo que eu estava pensando em fazer um evento com essa natureza, unindo diversidade cultural de maneira ampla, criando um espaço de diálogo, com pessoas que possuem diferentes visões de mundo. Fiquei três ou quatro anos pensando em como e quando fazer, e nunca havia conseguido alinhar os elementos necessários para a realização. Tive que fechar a Arthousebc [espaço cultural localizado na Rua São Paulo, no Bairro dos Estados, em Balneário] por conta da pandemia, sofremos muito, como todo o setor de eventos e cultura, mas conseguimos o recurso da Lei Aldir Blanc. Em contrapartida ao valor de R$ 8 mil que recebemos, que nos ajudou com as dívidas de um ano de espaço fechado, resolvi enfim realizar a Semana da Diversidade, que era algo que eu desejava há muito tempo. A maioria dos participantes eu já conhecia, abrimos as inscrições para os filmes participantes, procurei envolvidos com o tema, pessoas que fazem a diferença no segmento, e com essa ‘cadeia de contatos’ conseguimos, com esforço mútuo, fazer o evento acontecer. O isolamento social é positivo pelo combate ao vírus, mas para as pessoas ele é muito triste: aumenta a carga de ansiedade e depressão, já que não estamos participando ativamente da vida social, e o ser humano é social! Em hipótese alguma cogitamos fazer o evento de forma presencial por esse motivo, ele surge com essa responsabilidade. Gostaríamos de estar todo mundo junto, seria uma troca muito legal, porque no digital é mais distante. Já estamos pensando na próxima edição, e queremos que seja presencial, esperamos conseguir que seja. A SDSC nasce para contribuir com o fim da ignorância, um dos fatores principais que causa esse tipo de comportamento [racismo, machismo, homofobia, etc.]. Queremos criar um espaço de diálogo construtivo, é um dos temas que propomos no evento, inclusiva, além da comunicação não agressiva: pois você pode ter uma opinião diferente, mas precisa respeitar o outro. Vamos abordar não só a questão LGBTQI+, mas também a necessidade de mais espaço para as mulheres, questões raciais também, como o sujeito que apareceu com a bandeira nazista na janela de casa em Florianópolis, o garoto haitiano linchado até morrer na praia de Navegantes… é bem triste o que anda acontecendo. A Semana da Diversidade vem para trazer luz para todas essas questões, incluindo ainda o povo indígena, a terceira idade, o movimento feminista, afetividade, questões que algumas pessoas têm resolvidas, mas que se não houver discussão no âmbito social, não vai haver melhoria, crescimento. A SDSC é um evento aberto, todas as pessoas podem e devem participar, teremos rodas de conversa todas as noites às 20h, filmes com temas bem diversificados, para atender toda a diversidade. Esperamos que o público curta, vejam as fotos, ouçam as músicas. Será bem especial”. 


“O evento vem para mostrar que as pessoas são diferentes, mas merecem respeito”

RENATO TURNES é ator, diretor e roteirista, trabalha com Teatro, que é a sua formação, e também com Cinema, como ator e diretor, além de ter sido premiado pelo roteiro do curta Selma Depois da Chuva (que trata do universo LGBTQI+), que circulou por diversos festivais ao redor do mundo; ele participa da Semana com o filme ‘Homens Pink’, que transita entre o documentário e a performance e que foi selecionado para participar do Festival Internacional de Cinema LGBTQI+, no RJ

“O ‘Homens Pink’ é um documentário sobre memórias da comunidade LGBTQI+, mais especificamente um recorte que diz respeito aos homens gays. Neste filme eu encontrei nove senhores gays, senhores com mais de 70 anos e, a partir desses encontros, eles me contam sobre a vida deles, desde a infância. Todos eles viveram suas infâncias já começando a se identificar como gays, depois a juventude, como foi esse período sob a Ditadura Militar, que eles viveram todas essas contradições, a repressão moral, artística, cultural e política. Falamos sobre afetos, sexo, fervo, balada, festa, sobre a epidemia da AIDS – que é o ponto que eles têm em comum, como o estigma. Alguns deles convivem com o vírus até hoje, são sobreviventes, ou então viram o auge de muito perto, perdendo amigos, amores; e sobre o processo de envelhecimento, que é cruel… a invisibilidade do velho na sociedade e na comunidade LGBTQI+, que também é cruel e doloroso. A comunidade ainda é muito ligada à juventude, à beleza, ao ápice da sexualidade e da sedução, e esses senhores encontram, dentro da comunidade que eles ajudaram a construir, porque são os nossos pioneiros de luta, se veem discriminados. O filme basicamente fala sobre a memória da comunidade a partir desses homens. A Semana é importante demais porque mostra a produção cultural das minorias, celebra de alguma forma existências que não estão no raio do que é ‘padrão’, do que é ‘normativo’, do que a sociedade de alguma maneira tenta inviabilizar, não aceitar como ‘natural’. O evento vem para mostrar que o mundo é diverso, que as pessoas são diferentes, mas merecem respeito e viver com dignidade, liberdade de serem quem são. Hoje, talvez mais do que nunca, porque estamos vivendo esse momento de certas opressões oficiais, institucionais, em relação às minorias, e a Semana só vem acrescentar na luta, na batalha que a gente tem, que é sobreviver com dignidade e afirmar o valor de nossas existências. Nesse momento vivemos em SC um acontecimento horrível de censura, que ocorreu em Itajaí, onde até eu participaria, que é a Roda Bixa, que seria uma live onde lançaríamos uma série de podcasts, chamado de ‘Criança Viada Show’, então houve uma censura. A coisa está se movimentando, a batalha está armada, o evento vai acontecer, provavelmente com mais visibilidade por conta da proporção que tomou. É totalmente absurdo vivermos um episódio de censura como esse em pleno 2021, com um monte de político conservador de extrema-direita querendo palco, e para isso eles usam os expedientes mais grotescos, de proteção à criança e à família, como se nós não tivéssemos sido crianças ou não tivéssemos família… é uma proibição horrível, proíbem a gente falar de nós mesmos! Porque o evento era sobre isso, um evento de adultos, feito por e para adultos, falando sobre as nossas memórias. Virou todo esse bafafá… e é só uma amostra de como vivemos tempos perigosos, está havendo retrocesso em diversos setores, especialmente na política cultural, na política pública para a cultura, como nesse caso. É um novo tipo de censura, não é policial e sim institucional. Não conseguimos recursos de políticas públicas para realizar os nossos eventos e, se conseguem, estão sujeitos a repressão como nesse caso de Itajaí. É um exemplo do quanto precisamos melhorar. Desde a posse do atual governo o que tem acontecido é um retrocesso”.

Homens Pink’ integra a programação da SDSC

“Semana da Diversidade em Santa Catarina é um bálsamo muito necessário neste momento”

FÁBIO COSTA PRADO, estudou dramaturgia e direção em Nova York, onde morou por 15 anos, ele apresenta na Semana o filme ‘Fale Conosco’, que fala sobre a comunicação da pessoa com deficiência 

“O meu processo como artista envolve viver a vida com abertura e curiosidade. A partir de minhas experiências pessoais, surgem tópicos que exploro com o olhar da subjetividade e da observação ativa, sem saber que forma tomará enquanto obra de arte. A minha abordagem vem muito da psicologia, sociologia, antropologia e filosofia, não no sentido acadêmico, mas no sentido prático. Estes elementos, combinados com minhas referências e meu gosto estético pessoal são o alicerce da minha arte. O filme “Fale Conosco” é um documentário de 30 minutos que fala sobre a comunicação da pessoa com deficiência. É uma celebração das vidas ali retratadas, sem pieguismo ou tratamento heróico. É um projeto que se iniciou 41 anos atrás, quando nasci numa família cujo núcleo era minha irmã Fabíola, que tinha paralisia cerebral. A experiência de crescer e conviver com minha irmã, que não falava, não só me tornou um artista, mas também me ensinou sobre comunicação não-verbal e moldou a minha visão de mundo. O documentário “Fale Conosco” começou a tomar forma quando fazia pesquisas para a escrita do roteiro de longa-metragem de “Menina dos Meus Olhos”, adaptado da peça de teatro homônima escrita por Tathi Piancastelli, que também está no filme “Fale Conosco” e com quem já trabalhei em diversos projetos. Durante meu processo de pesquisa eu percebi uma clara desconexão na comunicação entre pessoas com e sem deficiência. Por eu também trabalhar como professor de línguas, eu identifiquei que essa dificuldade de interação se assemelhava muito àquela de falantes de idiomas distintos. Foi ali então que senti que este tópico inédito deveria ser explorado e que o mundo poderia ganhar muito com a existência desta obra de arte. O projeto ia ser filmado em maio do ano passado, de forma presencial. Com a pandemia, tivemos que reestruturar tudo completamente. Mesmo assim, eu já visualizava como seria possível: cada participante e seus familiares seriam responsáveis por filmar seus próprios segmentos do filme. Para que isso pudesse ocorrer de forma mais profissional, a equipe desenvolveu vídeos e cartilhas explicativas com noções básicas de iluminação, enquadramento, movimento de câmera e som. A equipe manteve contato próximo com as famílias durante as filmagens, orientando, sugerindo ideias de momentos a serem filmados e tópicos a serem discutidos. À medida em que o material ia chegando, eu me inspirava a explorar novas possibilidades narrativas, sempre pensando em retratar os 12 participantes de forma positiva e empoderada. A Semana da Diversidade em Santa Catarina é um bálsamo muito necessário neste momento. Acredito que mais do que qualquer momento na história da humanidade, se fazem necessários o autocuidado e o autoconhecimento. É preciso sabermos individualmente o que pode alimentar nossas almas. O entretenimento, que é produzido de forma tão desproporcional no Brasil, não tem o poder de nos levar à reflexão. Muito pelo contrário. Muitas vezes reforça estereótipos que nos levam ao retrocesso e não instiga a evolução da mente. A arte sim tem esse poder transformador, principalmente quando é acessível, como é o caso deste evento 100% gratuito. Fomentar a diversidade, assim como as várias formas de expressão artística e as diferentes vozes que se fazem presentes na Semana da Diversidade, são antídotos para o discurso de ódio que tem nos dividido. Estamos passando por um momento histórico transicional no mundo, em que os paradigmas vêm sendo questionados e os valores sociais têm sido revistos. Tudo isso é muito positivo. É natural que haja um movimento contrário, de resistência, pois aqueles que sempre se viram numa posição de poder e privilégio estão tendo que lidar com a inevitável realidade de que a história agora é outra. Para um país como o Brasil, que é uma nação-feto de tão jovem, considerando que a identidade brasileira é algo ainda em processo de formação, existe uma grande dificuldade de avançar nos quesitos sociais. Acredito que as minorias têm desenvolvido um discurso muito articulado quanto à luta por seus próprios direitos. Na verdade, é assustador para aqueles que se opõem à essa nova distribuição de poder, pois o patriarcalismo branco, caquético e acomodado nunca teve que lutar por sua posição de dominância, pois esta lhe foi conferida ao longo da história, de geração à geração. O uso da violência ou a ameaça da violência é tudo que lhes resta, pois o uso da palavra é algo inalcançável para o patriarcalismo branco, e nem haveriam argumentos cabíveis para defender o status quo. Precisamos todos nos apoiar enquanto minorias, já que na verdade as minorias juntas são uma maioria. É preciso perceber isso de forma determinante e absoluta. Não é uma guerra. As mudanças que propomos serão para o benefício de todas as pessoas que aqui estão e daquelas que estão por vir futuramente. Pessoas com deficiência representam aproximadamente 25% da população brasileira. Não parece a realidade porque estas pessoas não são vistas no meio social com tanta frequência. Eles não precisam que nós, pessoas sem deficiência, falem por eles. Eles estão prontos, seus discursos estão afiados. A única coisa que ainda lhes falta é oportunidade. Quando 25% das entrevistas de uma publicação forem com pessoas com deficiência, 25% da arte for produzida por pessoas com deficiência, 25% das vagas no mercado de trabalho forem ocupadas por pessoas com deficiência, 25% dos alunos nas escolas regulares tiverem algum tipo de deficiência, então será um começo”.

‘Fale Conosco’ – filme fala sobre a comunicação da pessoa com deficiência e também integra a Semana da Diversidade
Cena de ‘Fale Conosco’
Cena de ‘Fale Conosco’

“Somos os únicos responsáveis pela mudança que buscamos no mundo”

BRIANNE LEE, artista visual com foco em fotografia analógica há cerca de 10 anos

“Meus trabalhos de forma geral são um retrato de como sinto e o que gostaria de comunicar ao mundo. Algumas obras são de certa forma polêmicas, o que cumpre bem com seu papel de levar uma reflexão ao espectador. Eventualmente transito para a pintura e me aventuro em outras formas de arte para buscar referência e conhecer outros pontos de vista. Tive o prazer de levar minhas fotografias para exposições com exibição nacional e internacional e atualmente sou representante da Câmara Setorial de Artes Visuais e conselheira municipal de políticas culturais de Balneário Camboriú. Na Semana da Diversidade, compartilho com muito carinho duas fotografias que me remetem muito sobre coragem. Sobre nos aceitarmos e irmos à luta, pois somos os únicos responsáveis pela mudança que buscamos no mundo. Vejo que, querendo ou não, toda mudança começa de forma lenta e essa não é uma luta que iniciou ontem, mas que devido às diversas situações que ocorreram recentemente tivemos a possibilidade, liberdade e necessidade de falar sobre a diversidade em seus diversos aspectos.  Muitas de nossas crenças e ensinamentos vem de dentro de casa e posteriormente nas redes de estudo, o fato de não podermos nos reunir presencialmente fez com que diversas reflexões sobre o nosso comportamento fossem revisadas. A possibilidade deste evento ser gratuito e on-line, permite que as pessoas possam continuar a desenvolver seus pensamentos sobre o rumo que damos para o tratamento não só das outras pessoas, mas também a nós mesmos. Acredito que seja muito importante essa troca de pontos de vista e a apreciação de trabalhos incríveis como os que estão presentes neste evento. Vejo que, para o cenário melhorar para as minorias, acima de tudo precisamos nos reconhecer como seres humanos de forma igualitária e compreender que o respeito é a base para tudo. Precisamos nos aceitar como indivíduos para que possamos nos abrir para compreender as singularidades de cada um e assim nos tornarmos agentes da mudança. Gostaria de agradecer a toda equipe envolvida na realização deste evento e todo o apoio que a comunidade vem dando acerca deste tema. Precisamos manter uma constante de conversas e trocas de ideias para que possamos fazer do mundo um lugar melhor”. 

Pescadores de Futuro (foto de Brianne Lee)

Título de Aniversário (foto de Brianne Lee)

“Qualquer ato de resistência ao que o Brasil está passando é extremamente válido e necessário”

JULIANA PFEIFER, formada em Artes Visuais na Unicamp (em Campinas), participa da SDSC com o filme ‘Ocupa’

“Comecei trabalhando como cenógrafa e figurinista de teatro, depois começaram a aparecer curtas em que trabalhei como diretora de arte e depois começaram a aparecer curtas em que trabalhei como diretora de arte e depois em longas e séries como assistente na equipe de arte. Até que uma amiga me chamou pra dirigir um curta com ela, foi uma experiência bem intensa e desafiadora, acabei produzindo o curta também, guerrilha total. Gostei muito e depois só pensava que queria fazer de novo. Foram cinco anos até realizar o filme ‘Ocupa’, que envolveu criar a história, roteirizar, aplicar em editais, captar o dinheiro, realizar o filme e lançar. ‘Ocupa’ [que integra a Semana da Diversidade] conta a história de Camila, uma garota de 22 anos, apaixonada por moda e contracultura, que vive com um amigo, o Chris. Ela está prestando um mestrado, trabalha numa loja e acredita ser esse seu caminho, numa festa ela conhece uma alemã, Anisha que vive numa ocupação artística em Berlim e nesse encontro ela relembra de um sonho de viver justamente essa experiência, morar em Berlim numa ocupação, ela começa a projetar essa ideia de mudar para Alemanha, mas Chris não fica animado com isso e para saber o que mais acontece, precisa assistir ao filme… que fala sobre essa relação e sobre limites. O filme foi feito por uma equipe quase 100% feminina, diversa e muitas delas mães. Acho super importante eventos como esse festival, todo e qualquer ato de resistência ao que o Brasil está passando é extremamente válido e necessário. Há muito ainda a avançar nas questões que envolvem a igualdade das minorias, tanto a nível macro, como micro, eu vejo revoluções acontecendo na esfera individual, no sentido de que não é mais possível aceitar situações e condições que vivíamos há pouco tempo atrás e nesse trabalho diário algumas mudanças vêm acontecendo, na esfera governamental temos alguma representação, mas o estado que o Brasil vive hoje a situação está bem delicada. A minha bandeira é das mães, porque sou mãe de dois e a nossa condição é também de minorias e diferenciada porque estamos divididas nos cuidados dos filhos e na profissão, tem muitas camadas que envolvem a maternidade e tabus a serem quebrados”.

Cena do filme ‘Ocupa’, que integra a programação da SDSC

Cena do filme ‘Ocupa’, que integra a programação da SDSC


“Acredito fortemente que a saída dessa onda preconceituosa é a conscientização…”

JULIA PERIN, arquiteta e urbanista e atualmente mestranda em Planejamento Territorial pesquisando a cidade e as mulheres numa perspectiva feminista, é confudadora do Coletivo feminista Mariposas, juntamente de Anna Theresa Schippman Rebelo, que é advogada e redatora

“O projeto Caravana das Mulheres que estará no SDSC vem do nosso coletivo, o Mariposas. Ele tem como objetivo levar informação e promover eventos de conscientização e acolhimento, criando pontes e incentivando o diálogo entre mulheres. Criamos o coletivo por compartilharmos das mesmas indignações e por percebermos a falta de lugares de discussão e acolhimento por todas as intempéries que passamos pelo fato de sermos mulheres. Nesses quase quatro anos já realizamos eventos com oficinas, mostras de documentários, palestras e diálogos com arte. O projeto que estamos realizando agora, o Caravana das Mulheres, foi patrocinado pelo edital catarinense Elisabete Anderle e visa integrar a arte e a reflexão do ser mulher na nossa sociedade. Na equipe desse projeto, além de mim e da Anna Theresa, também estão nossa produtora Bruna Pellizzaro e nossa curadora Sheila Zago. Para realizarmos os eventos onde fosse mais significativo e houvesse maior necessidade escolhemos algumas das cidades mais violentas em relação a mulheres na nossa região. Depois, abrimos chamada aberta para artistas mulheres locais enviarem suas propostas artísticas e agora estamos realizando as exposições e as oficinas com essas mesmas artistas selecionadas. Uma das ideias cruciais do projeto era descentralizar a arte dos centros das cidades e criar um vetor até as periferias. Nesse movimento queríamos que as artistas e as mulheres que atendessem à exposição e às oficinas interagissem com as obras e refletissem sobre si mesmas enquanto mulheres. No entanto, devido à pandemia e o risco de contaminação, acabamos não podendo criar tanta interação quanto gostaríamos. Mudamos nossas exposições que antes seriam em ambientes fechados para muros cedidos pelas prefeituras e fundações culturais. Para a realização das oficinas montamos kits com materiais artísticos e entregamos, com a parceria de organizações educacionais e de assistência, para mulheres que se interessaram em participar diretamente de suas casas. E, ainda devido à situação pandêmica, optamos por também fazer projeções com as obras da exposição e nesse ponto firmamos a parceira com a ArthouseBC para que nos apoiassem nessa empreitada em outras cidades. Aí então é que eles nos convidaram para participar da Semana da Diversidade de SC. Na Semana, faremos uma palestra feminista após a abertura trazendo reflexões sobre como nossa sociedade nos condiciona por sermos mulheres e também faremos a projeção na parte externa da ArthouseBC nos outros dias do evento. Penso que um evento como o SDSC assim como várias outras resistências culturais são cruciais para os tempos em que vivemos. Não à toa, nós do Coletivo ficamos tão alegres com o convite. Para além da proposta incrível de integrar várias modalidades artísticas em um contexto de desmonte de políticas públicas culturais, acho que pontuar essa data tem um valor simbólico grande. Enquanto feministas, temos que reconhecer que não é apenas a categoria de sexo que nos atravessa, mas também nossa raça, nossa classe, nossa etnia, entre muitas outras estratificações sociais. Por isso penso que enaltecer a diversidade – em nós mesmos, individualmente, e no coletivo – sirva de lembrete de que somos feitos de pluralidades. Serve também para revigorar a luta pelo direito de todos serem exatamente quem são, buscando – como diria Rosa Luxemburgo – ‘um mundo onde sejamos socialmente iguais, humanamente diferentes e totalmente livres’. Honestamente, acho que regredimos nos últimos anos. Não é à toa que temos que constantemente reafirmar em datas, eventos, protestos os direitos de simplesmente existir das minorias. No entanto, também penso que há um lado esperançoso disso: com o discurso de ódio tão exacerbado e sem pudor de expressão, pode-se combater as raízes dos problemas que estão totalmente expostos, chegar às causas para então mudar radicalmente nossa sociedade. Acredito fortemente que a saída dessa onda preconceituosa que nos encontramos é a conscientização e o pensamento crítico através da educação e da cultura”. 

Coletivo Mariposas

“O que você já deixou de fazer por ser mulher?” será tema da palestra e projeções pelo Coletivo Mariposas

PROGRAMAÇÃO 

Todos os dias do evento o público poderá conferir a Mostra de Cinema (há 15 filmes disponíveis em streaming, no site www.festivalbc.com/sdsc), exposição fotográfica (galeria de fotos disponível no site) e faixas musicais (também disponíveis no portal). 

Quinta-feira, 20 

  • 19h: Live de abertura. 
  • 19h30: Palestra “O QUE VOCÊ JÁ DEIXOU DE FAZER POR SER MULHER?” ministrada pelo Coletivo Mariposas – Ministrantes: Julia Perin Pellizzaro e Anna Theresa Schipmann Rebelo. 
  • 20h: Roda de Conversa “TODA FORMA DE AMOR”. 

Sexta-feira, 21 

  • 19h: Projeção “O QUE VOCÊ JÁ DEIXOU DE FAZER POR SER MULHER?” de Coletivo Mariposas (das 19h às 21h, na Arthousebc). 
  • 20h: Roda de Conversa “ELAS NA TELA”. 

Sábado, 22 

  • 19h: Projeção “O QUE VOCÊ JÁ DEIXOU DE FAZER POR SER MULHER?” de Coletivo Mariposas (das 19h às 21h, na Arthousebc). 
  • 20h: Roda de Conversa “NOSSAS RAÍZES” (no site www.festivalbc.com/sdsc). 

Domingo, 23 

  • 20h: Roda de Conversa “AFETIVIDADE”. 

Saiba mais 

  • Mostra de Cinema – confira os filmes disponíveis no streaming gratuito 

SESSÃO “TODA FORMA DE AMOR” 

“Homens Pink” de Renato Turnes (Pink Men, Documentário, 14 anos, 52 minutos) / “Como Nenhuma Inteligência Já Amou” de Sophi Saphirah (Like No IA Ever Loved, Drama / Ficção Científica, 12 anos, Brasil, 9 minutos) / “Ocupa” de Juliana Pfeifer (Ocupa, Drama, 12 anos, Brasil, 25 minutos) 

SESSÃO “ELAS NAS TELAS” 

“Eu Interior” de Antonio Spanò (Inner Me, Documentário, 14 anos, Itália, 30 minutos)  / “Em Segundo” de Rosarío Cervio (Las Segundas, Drama, Livre, Argentina, 4 minutos) / “Estilhaços” de Julie de Oliveira (Smithereens, Drama / Ficção Científica, 16 anos, Brasil, 18 minutos) “Há Mulher Antes” de Zala (The Woman Before, Documentário, Livre, Brasil, 5 min) “Ataque de Pânico!” de Eileen O’Meara (Panic Attack!, Animação, Livre, Eua, 3 min) 

SESSÃO “NOSSAS RAÍZES” 

“Kambá!” de Carolina e Diana Kuzaluk (Kambá!, Documentário, 12 anos, Espanha, 30 minutos) / “Cleo: A Rainha Negra das Passarelas” de Artur Ianckievicz (Cleo: The Black Fashion Queen, Drama, 10 anos, Brasil, 18 minutos) / “Carroça21” de Gustavo Pera ( Wagon21, Documentário, Livre, Brasil, 12 minutos) 

SESSÃO “AFETIVIDADE” 

“O Afeto e a Rua” de Thiago Köche (Affection in the Streets, Documentário, Livre, Brasil, 15 minutos) / “A  Última Celebração” de Adrián Ramos (The Last Celebration, Drama, Livre, México, 16 minutos) / “Fale Conosco” de Fabio Costa Prado (Talk With Us, Documentário, Livre, Brasil, 30 minutos) / “Vida de Desenho” de Luciano Lagares (Drawing Life, Animação, Livre, Brasil, 13 minutos). 

Exposições fotográficas 

“Mãos Entrelaçadas” de Paul Gatto (Holding Hands, 2015, Estados Unidos) / “Cores Unidas” de Elaine Cristina Melo (United Colors, 2020, Brasil) / “A Idade da Inocência” de Elaine Cristina Melo (The Age of Innocence, 2021, Brasil) / “O Vale de Lótus” de Ajimetesh Sharma (The Lotus Valley, India) /  “Bonequinhas” de Henrique Pezzini e Bianca Pirmez (Little Dolls, 2019, Brasil) / “Título de Aniversário” de Brianne Lee (Birthday Title, 2021, Brasil) / “Pescadores de Futuro” de Brianne Lee (Future Fisherman, 2021, Brasil).

Por: Renata Rutes

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