Para lembrar o Dia do Trabalhador, celebrado nesta sexta-feira (1º), o Página 3 ouviu empresários e também representantes dos trabalhadores de Balneário Camboriú que apontam que, além da escassez de profissionais qualificados, temas como a carga horária e as novas dinâmicas de trabalho entram no centro do debate, redesenhando relações, expectativas e os próprios rumos das carreiras.
Acompanhe:
“Temos vários desafios e um deles é a falta de mão de obra permanente”

Paulo Sergio Dornelles, presidente do Sindicato dos Trabalhadores da Construção de Balneário Camboriú, Camboriú e Itapema
“Hoje não é dia de comemoração, mas sim de reflexão, por todos os trabalhadores que vieram antes de nós e com muita luta, conseguiram que hoje tivéssemos condições e liberdade, para nós expressar e exigir melhores condições de trabalho e salários dignos.
Hoje vivemos na região com o metro quadrado mais caro do Brasil, isso exige uma mão de obra cada vez mais qualificada, e serviços de excelência exigidos pelos altos preços dos imóveis em nossa região.
Temos vários desafios e um deles é a falta de mão de obra permanente, mas acreditamos que com políticas públicas de moradia, como Minha Casa Minha Vida, voltada aos trabalhadores, e melhores salários ou seja com a valorização da mão de obra, seria resolvido uma boa parte da falta de mão de obra em nossa região.
Hoje o Siticom apoia a redução de jornada de trabalho, o projeto 5×2, porque entendemos que a construção civil é um serviço brutal e exaustivo, também mal remunerado. É o último recurso para quem vende sua força de trabalho.
Neste 1° De Maio – Dia do trabalhador, o Sindicato dos Trabalhadores da Construção de Balneário Camboriú, Camboriú e Itapema, parabeniza e homenageia todos os trabalhadores e trabalhadoras que, com dedicação e esforço diário, constroem o desenvolvimento da nossa região”.
“No nosso segmento, além da busca por profissionais qualificados, enfrentamos escassez de mão de obra”

Carlos Júlio Haacke, presidente Sinduscon de Balneário Camboriú e Camboriú
“Nos últimos anos, vimos mudanças importantes no mercado de trabalho, com o surgimento de novas funções ligadas à economia digital, ao trabalho por plataformas, ao modelo remoto e às novas tecnologias que transformaram a forma de produzir e prestar serviços. Essa realidade atinge a construção civil, como também outros setores da economia.
No nosso segmento, além da busca por profissionais qualificados, também enfrentamos a escassez de mão de obra de forma geral. Por isso, temos trabalhado em parceria com entidades que incentivam a formação profissional, como o Sistema S, promovendo cursos gratuitos, programas de capacitação, bônus por assiduidade e oportunidades reais de contratação para quem conclui os cursos de formação.
É uma forma de aproximar as empresas daqueles que buscam uma oportunidade no mercado de trabalho.
Em relação ao debate sobre carga horária, entendemos que é um tema relevante e legítimo, mas que precisa ser conduzido com responsabilidade e diálogo amplo entre todos os envolvidos.
O Brasil atravessa um momento econômico desafiador, e qualquer mudança estrutural exige equilíbrio, razoabilidade e análise cuidadosa de seus impactos. Medidas dessa natureza precisam considerar, com serenidade, os reflexos na geração de empregos, na sustentabilidade das empresas e na capacidade de crescimento do país. Temos confiança que, com equilíbrio, planejamento e cooperação entre todos os setores, o Brasil pode voltar a crescer, gerar renda e criar novas oportunidades para trabalhadores e empresas.”
“Enquanto as empresas buscam talentos prontos para operar tecnologias complexas, muitos jovens ainda carecem de acesso a uma formação”

Dão Koeddermann, secretário de Inclusão Social de Balneário Camboriú
“O grande desafio atual é a desconexão entre a velocidade da inovação tecnológica e o ritmo de formação dos profissionais.
Em Balneário Camboriú, atuamos diretamente para reduzir esse hiato através de políticas que unem qualificação prática e inserção real.
Hoje, vivenciamos uma dualidade: enquanto as empresas buscam talentos prontos para operar tecnologias complexas, muitos jovens ainda carecem de acesso a uma formação que alie competências técnicas (hard skills) a competências comportamentais.
Para combater esse cenário, fortalecemos programas de base. Atualmente, contamos com aproximadamente 300 jovens ativos no programa Jovem Aprendiz, e nossa meta é ampliar ainda mais esse alcance, com a abertura de novas turmas confirmada para o segundo semestre de 2026.
Iniciativas como o Selo Empresa Amiga da Juventude e workshops de qualificação em áreas como marketing digital são vitais, além do PIT – Programa de Iniciação ao Trabalho pois não apenas preparam o profissional, mas sensibilizam o setor privado sobre a importância de investir no desenvolvimento contínuo das novas gerações.
Sobre a carga horária, o caminho é o equilíbrio: o mercado exige produtividade, mas a sustentabilidade do trabalho depende de ambientes que ofereçam condições para o desenvolvimento humano e a manutenção da saúde mental”.
“Trabalhadores com baixos salários e jornadas extensas, têm menos recursos e tempo para investir em cursos e especializações”

Newton Olm, presidente do Sindicato dos Empregados no Comércio de Balneário Camboriú – SECBC
“O salário baixo é um dos motivos centrais desse apagão de mão de obra. Embora as empresas apontem apenas a falta de competência técnica, o fator financeiro atua como uma barreira, em especial no setor do comércio.
Trabalhadores com baixos salários e jornadas extensas (como escala 6×1), têm menos recursos e tempo para investir em cursos e especializações. Sobretudo, os trabalhadores, especialmente os mais jovens, têm trocado empregos formais com salários baixos por trabalhos autônomos ou em plataformas de serviços, onde conseguem um ganho melhor.
Entre outros fatores, como qualidade de vida e ambiente de trabalho saudável, sejam cada vez mais decisivos, a remuneração permanece como prioridade máxima na retenção de mão de obra, principalmente em nossa região onde os aluguéis são caros, e grande parte dos trabalhadores são de outras cidades”.
“De um lado, empresas que buscam inovação; do outro, uma escassez de profissionais preparados para esse novo cenário”

João Tomás , Presidente da Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL) de Balneário Camboriú
“O mercado de trabalho vive um momento de transição profunda, e o principal desafio hoje não é apenas tecnológico, mas humano.
Estamos na era da conectividade e da Inteligência Artificial, o que exige uma mão de obra extremamente qualificada. No entanto, o que vemos na prática é um descompasso: de um lado, empresas que buscam inovação; do outro, uma escassez de profissionais preparados para esse novo cenário.
Para os empresários que a CDL representa, o foco atual precisa estar na produtividade. Afinal, o que realmente transforma nossa economia é a eficiência dos processos e o investimento contínuo em educação. Entendemos que qualquer mudança estrutural na jornada de trabalho deve ser acompanhada de discussões que não onerem ainda mais quem gera emprego, garantindo que a competitividade do setor produtivo seja preservada.
Sabemos que a chave para superar esses desafios é o investimento real na qualificação das pessoas. Por isso, nosso compromisso é acompanhar a classe empresarial não apenas com suporte institucional, mas com ações práticas: temos em nosso planejamento diversas iniciativas de capacitação e treinamento voltadas à mão de obra local. Queremos transformar os entraves atuais em oportunidades reais de crescimento para toda a nossa cidade.”
“Não se pode adotar em Balneário Camboriú os mesmos critérios de contratação que se adota em outras cidades”

Antônio Demos, presidente da Associação das Micro e Pequenas Empresas e Empreendedores Individuais de Balneário Camboriú e Camboriú (AMPE-BC)
“A dinâmica do mercado de trabalho atualmente, em Balneário Camboriú, tem se pautado, para além da qualificação, por dois fatores recorrentes que estão a exigir da classe empresarial compreensão e capacidade para resolver.
Considerando que grande parte da mão de obra vem de fora, que na sua maioria são pessoas sem uma qualificação pronta ou até mesmo sem qualificação.
Devido ao chamado alto “custo de vida”, elas acabam por não conseguirem um salário acima da média para pagar o aluguel, que também está acima da média.
Essa situação faz com que muitos retornem ou tentem um segundo emprego para poder se manter na cidade, situação que exige do empregador uma postura empática e um modelo de gestão mais humanizado, sob pena de sucumbir por falta de mão de obra.
Não se pode adotar em Balneário Camboriú os mesmos critérios de contratação que se adota em outras cidades que tem o “custo de vida” dentro média.
A empresa, para solucionar o problema precisa se engajar em programas de moradias, tipo auxílio moradia, construções de casas populares e outros, além do pagamento de um salário diferenciado, como forma de reter a mão de obra.
A história tem nos mostrado que a economia se molda e se desloca de acordo com as circunstâncias, principalmente na agricultura e indústria, já no segmento de serviços o deslocamento das atividades na maioria dos casos é impossível, exigindo criatividade e uma boa visão de gestão no que se refere às relações de trabalho.
Faço aqui um paralelo com a cidade de Zurique, na Suíça que é considerada a cidade mais cara do mundo para se viver, consequentemente os serviços são caros, os salários são altos e não há programa de incentivo à moradia, alimentação ou transporte, a relação oferta x procura se encarrega de estabelecer o equilíbrio para a economia fluir.
Por isso é comum vermos lá muitos trabalhadores portugueses, brasileiros, indianos e outros, geralmente morando longe do centro, porém o transporte público é muito eficiente.
A questão da qualificação nos dias atuais não depende só das escolas, engana-se quem pensa que irá receber um profissional pronto, as empresas, independente do porte, precisam resgatar os conceitos de treinamento contínuo interno, raramente vamos admitir um profissional 100% qualificado e se conseguirmos é porque ele, provavelmente, adquiriu experiência em um outro ambiente, isso comprova a necessidade de treinarmos internamente nossos profissionais independente se eles irão ou não abandonar a empresa.
Os trabalhadores sempre procurarão as melhores oportunidades.
Estamos atualmente no centro de uma discussão sobre jornada de trabalho que no meu entendimento é perda de tempo, haja vista que muitas empresas no Brasil e em muitos outros países já adotam esse padrão e não tiveram prejuízos ou perda de produtividade.
Não acredito que a escala 5×2 irá afetar as empresas, o que tenho certeza é que a escala 6×1 não é boa para o trabalhador e essa discussão não deveria tomar o tempo dos empregadores.
As empresas de países tido como desenvolvidos, dependendo da atividade, já estão liberando a sexta-feira, por isso acho essa discussão irrelevante e politiqueira para os dois lados.
No passado tivemos resistência quando se propôs o fim do trabalho escravo, a implantação da CLT, Consolidação das leis do trabalho, e hoje não conseguiríamos ver o mundo trabalho sem essas duas grandes mudanças, acredito que fim da escala 6×1 terá o mesmo desfecho.
Precisamos exercitar a empatia com os trabalhadores para estabelecer uma relação cada vez mais confiante e respeitosa nessa via de mão dupla que é a relação capital x trabalho”.
“Muitos trabalhadores buscam melhores condições, salários mais justos e qualidade de vida”

Olga Ferreira, presidente do Sindicato dos Empregados no Comércio Hoteleiro, Bares, Restaurantes e Similares de Balneário Camboriú e Região – Sechobar
“Em Balneário Camboriú e Região, cidades fortemente impulsionadas pelo turismo, os desafios do mercado de trabalho são ainda mais evidentes. O setor de hotéis, pousadas, bares e restaurantes vive uma alta demanda, especialmente em temporadas, mas enfrenta dificuldade para contratar e manter profissionais qualificados.
Essa realidade está diretamente ligada a fatores como jornadas intensas, trabalho aos finais de semana e feriados, além da necessidade constante de adaptação às novas tecnologias e formas de atendimento.
Ao mesmo tempo, muitos trabalhadores buscam melhores condições, salários mais justos e qualidade de vida, o que torna essencial repensar as relações de trabalho no setor.
O Sechobar atua justamente nesse ponto: defendendo a valorização dos trabalhadores, incentivando a qualificação profissional e promovendo o diálogo para que o crescimento do turismo na nossa região seja acompanhado de condições dignas e sustentáveis para quem faz esse setor acontecer.
Neste Dia do Trabalhador, queremos parabenizar todos os trabalhadores e trabalhadoras, especialmente aqueles que atuam no setor de serviços, que muitas vezes trabalham enquanto outros descansam. São vocês que movimentam a economia, acolhem moradores e turistas e fazem de Balneário Camboriú uma referência. Nosso reconhecimento, respeito e compromisso em seguir lutando por mais dignidade, valorização e direitos para todos”.
“Esse cenário impacta diretamente na motivação e tem contribuído para a evasão de profissionais qualificados”

Valéria Paz Arend Rosa, presidente da Associação de Professores e Especialistas de Balneário Camboriú – APROBC
“Ao discutir os desafios do mercado de trabalho atual, que exige profissionais cada vez mais qualificados e conectados às tecnologias, é imprescindível olhar para a realidade dos professores, que estão no centro desse processo formativo. No entanto, há uma contradição evidente.
Ao mesmo tempo em que se ampliam as exigências sobre esses profissionais, nem sempre há a devida valorização e condições de permanência na carreira.
Em Balneário Camboriú, por exemplo, após a Lei Complementar nº 091 de 2022, houve uma deformação no plano de carreira, resultando na falta de atrativos para a entrada e permanência na profissão, além da ausência de isonomia entre profissionais que desempenham as mesmas funções, mas recebem salários e benefícios distintos.
Esse cenário impacta diretamente na motivação e tem contribuído para a evasão de profissionais qualificados, que acabam buscando outras cidades com melhores condições de trabalho.
Diante disso, o desafio não é apenas formar mão de obra qualificada, mas garantir condições justas e atrativas para que esses profissionais permaneçam e se desenvolvam em suas áreas. Sem valorização, qualquer avanço na qualificação tende a ser insustentável”.
“Profissionalizar a mão de obra iniciante pode ser um caminho, mas isso gera um custo que em determinado momento terá que ser repassado ao consumidor”

Augusto Munchen, empresário, presidente do Sindicato do Comércio Varejista de Balneário Camboriú e Camboriú – Sindilojas
“Em resumo, a contratação de mão de obra aqui na nossa região está muito difícil por alguns fatores e isso prejudica o desenvolvimento das empresas e o próprio desenvolvimento pessoal do trabalhador. Faltam profissionais e os que temos no mercado estão muito abaixo da qualificação básica.
Quando falamos em qualificação estamos nos referindo tanto a escolaridade muito baixa, quanto a pouca ou nenhuma aptidão para resolver situações do dia a dia mesmo.
Sentimos a necessidade de contratar pessoas com capacidade de atender públicos diferenciados e que precisam, por vezes, de vocabulário e até mesmo educação básica mais desenvolvida.
Existe ainda uma carência de iniciativa dos candidatos em se aprimorar e buscar conhecimento. Isso ocorre nas áreas básicas como citei e se agrava quando entramos na área tecnológica. É crescente a nossa demanda por pessoas capacitadas para vendas on-line, por exemplo, e isso deixa muitos empresários fora do mercado por não encontrar mão de obra.
A carga horária é outro enfrentamento do comércio. Hoje em dia as pessoas querem, cada vez mais, ter liberdade de horário e não ter que enfrentar o dia a dia de um balcão de loja. Estamos em uma cidade com alta demanda de entregadores, trabalhadores home office, e isso nos traz dificuldade de incentivar que jovens queiram se comprometer em trabalhar 8 horas no comércio local.
Profissionalizar a mão de obra iniciante pode ser um caminho, mas isso obviamente gera um custo que em determinado momento terá que ser repassado ao consumidor. O mesmo ocorre com a redução de carga horária, se ocorrer. Não acredito que seja o caminho, porque inevitavelmente vai recair sobre o consumidor.
Então também entendo que estamos passando por uma transformação da mão de obra e as empresas vão ter que moldar sua forma de trabalho ao novo colaborador, que está muito diferente de anos atrás”.
