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20.3 C
Balneário Camboriú

Farinhada, um filme de histórias e memórias ainda cultivadas na comunidade de Taquaras

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Balneário Camboriú e especialmente a comunidade da praia de Taquaras ganharam um presente especial este ano, que retrata uma história centenária em plena atividade: o documentário ‘Farinhada’, gravado em cenário real, dentro de um engenho de farinha, com personagens farinheiros que continuam ativos nos dias atuais: Dona Lala e seu Raul e alguns dos seus descendentes. O filme foi lançado para a comunidade no dia 19 de março e desde então está disponível nas redes sociais.

O velho engenho continua rodando cerca de três vezes por ano. Na última semana movimentou a família farinheira mais uma vez, um espetáculo de raiz, artesanal, que não pode acabar.  

O filme

O documentário nasceu do projeto Farinhada, contemplado no edital ‘Prêmio Festas Comunitárias’, da Lei Emergencial Aldir Blanc e foi produzido pelo publicitário e diretor Devian Zutter, morador de Taquaras e apaixonado pela cultura local.

A ideia do filme nasceu de uma sugestão que Devian ouviu do presidente da Associação de Moradores e Amigos da Praia de Taquaras, Marcelo Abraham Peixoto, que está sempre buscando projetos de incentivo, como esse da LIC, para dar visibilidade aos saberes presentes na comunidade.

Os dois ganharam o reforço de uma especialista em ‘Saberes e Fazeres’, a professora da rede municipal de ensino, Mestre em Educação e pesquisadora de temas que envolvem comunidades tradicionais como a de Taquaras, Jaqueline Alexandre Weiler, que conhece a ‘farinhada’ de berço.  

Devian, Marcelo e Jake se reuniram para estudar a forma de abordar e organizar o roteiro. Em seguida, foram conversar com a dona Lala e seu Raul, os personagens principais do filme.

A ideia deu certo, o documentário aprovou e o município ganhou uma peça histórica de grande importância para as gerações passadas, atuais e futuras.

A opinião de quem fez ou ajudou a fazer

“Foi um trabalho espetacular que tive imenso prazer de fazer”

Devian filmando o casal Raul e Dona Lala no engenho (Marcelo Peixoto)

Devian Zutter

Diretor do vídeo 

“O Marcelo me procurou, passou a ideia e eu falei…vamos começar amanhã mesmo!…A gente – e falo de toda a cidade – tem muito orgulho do nosso engenho de Taquaras. É muito legal ali, porque vivemos em Balneário Camboriú, uma competição de prédios luxuosos, exorbitantemente caros e o engenho da farinha está ali, é real. É um contraste muito interessante e quando o Marcelo me falou, fiquei muito feliz em fazer esse registro. 

Combinei com o casal e acho que o resultado foi muito bom, deixei claro que o vídeo aconteceria de uma forma muito natural, eu não iria interferir, direção de imagem, dizendo onde eles se posicionariam e o que deveriam falar…eu não queria nada disso. Queria que fosse espontâneo. Natural. 

Acho que foi tudo muito natural, desde a cena do café deles de manhã, eles conversaram normalmente, deixei eles à vontade, não teve texto, nada…eles foram muito bons atores, espontâneos e  durante todo o vídeo foi isso que aconteceu. Todo o processo da farinhada é cheio de detalhes, deixei eles contando, falando, acho que ficou tudo muito natural. 

Deu certo. Dona Lala e seu Raul são pessoas espetaculares, queridos. Foram 4 dias de gravação e foi muito divertido, todo mundo dando risada, bem à vontade,  foi um trabalho espetacular, que tive imenso prazer de fazer. 

Confesso que de vez em quando me pego assistindo – de novo – o vídeo de tanto que gostei e olha que não costumo fazer isso, tenho até receio de ver meu material de novo (risos)…mas o vídeo da Farinhada fluiu e eu gostei bastante. Que bom.

Foram 4 dias de captação, uns 15 dias de edição, foi tudo perfeito. 

A dona Lala trabalhando na roça quase me matou de vergonha…ela arranca uma touceira de aipim…com uma facilidade incrível… se eu fizesse isso, tava morto…ela é muito forte, muito ativa, os dois são fortes, mas ela me impressionou muito mesmo”.


“O engenho é uma identidade que lembra as origens de nossa cidade”

Marcelo (E) e Devian (D) com o casal de farinheiros (Marcelo Peixoto)

Marcelo Abraham Peixoto

Presidente da Associação de Moradores e Amigos da Praia de Taquaras

“O documentário Farinhada registra de forma belíssima o que a tradição do engenho de farinha representa para a comunidade tradicional de Taquaras. Devian e Jake conseguiram elaborar um filme que é ao mesmo tempo um registro histórico e didático, que mostra a relação da comunidade e da família Alexandre com a cultura do engenho ao longo de gerações até os dias de hoje.  É difícil assistir sem se emocionar… É tocante entrar no engenho e ver a comunidade feliz, em família, com as crianças, raspando a mandioca, conversando, brincando, recordando o passado, resolvendo problemas, dando conselhos… e depois consumindo o que foi produzido em comunidade… A manutenção desta tradição pela Família Alexandre, e em especial por Sr. Raul e dona Lala tem um valor inestimável.  O engenho de farinha é uma identidade que une e lembra as origens de nossa cidade”


“O documentário é um instrumento para salvaguardar memórias, saberes, fazeres”

Jaqueline Alexandre Weiler (Jake)

Professora, pesquisadora e integrante da família

As irmãs Odete e Lala com Jake (Arquivo Pessoal)

“O documentário Farinhada pode cumprir lindamente esse papel de dar visibilidade aos saberes sobre a produção de farinha, e ser um material para ser usado nas escolas. Eu acredito que Escola e Comunidade, constituem-se em uma profícua trama de saberes que podem e devem se inter-relacionar, e que é preciso haver espaço no currículo para o que acontece no entorno. E não sou eu que digo isso, são os documentos oficiais que embasam a educação brasileira.

Eu também vejo o documentário como um instrumento para salvaguardar memórias, saberes, fazeres, e atuar no fortalecimento identitário dessas pessoas, e até tirá-las do campo da invisibilidade. 

Eu me senti representada no documentário, minha família se sentiu. Mas, esse não é um “saber/fazer” nosso, pois produção de farinha de mandioca faz parte da construção histórica e cultural de Santa Catarina e do Brasil, e por isso é tão importante, e tão necessário que outras ações como essa sejam incentivadas e colocadas em prática”.


Farinheiros em ação, o engenho rodou mais uma vez

(credito Marcelo Peixoto)

A família de farinheiros consegue rodar o engenho cerca de três vezes ao ano. No último final de semana e nesta terça-feira (3) o engenho funcionou a todo vapor. O presidente da Associação de Moradores do bairro, Marcelo Peixoto registrou em fotos e vídeo a produção da farinha, um encontro que mistura muito trabalho com muita alegria, roda de conversa, animação, um ‘saber/fazer’ que ficará para sempre na história.


Personagens do documentário Farinhada

(Marcelo Peixoto)

Nome: Eulália Maria Alexandre (dona Lala)

Idade: 66 anos

Relação com a comunidade: Nascida e criada na comunidade. Filha de um casal de pequenos agricultores, casou-se com Raul Alexandre, passando a ser nora de José Gregório, patriarca da família que possui o único engenho de produção de farinha de mandioca artesanal ainda em funcionamento na região. 

É preciso dar destaque especial para o seu trabalho de dar visibilidade para a Cultura Alimentar Tradicional de Balneário Camboriú, principalmente com receitas preparadas à base de mandioca. Além do tradicional pirão de farinha, prepara beiju, rosca de massa, rosca de polvilho e cuscuz.

“Amo esse serviço, trabalho em outro serviço, mas amo essa parte da roça. Gosto de levantar cedo, colher a mandioca, vou para o engenho, trabalho o dia inteiro sentada, chego em casa de noite, tomo um banho, faço a janta, vou dormir, sabendo que no outro dia vamos cedo para o engenho de novo, mas faço com amor mesmo. Adoro esse trabalho”.


(Marcelo Peixoto)

Nome: Raul Alexandre

Idade: 70 anos

Relação com a comunidade: Nascido e criado na comunidade. Filho de José Damásio Alexandre, conhecido como José Gregório, e de Thibéria Alexandre, passou grande parte da vida envolvido com as atividades da família, trabalhando na produção de farinha de mandioca. 

Um pouco antes da morte do pai, assumiu definitivamente a atividade artesanal no engenho, passando a ser um referencial de resistência e amor pela manifestação cultural. Ele, junto com os outros irmãos e irmãs, tem mantido viva a tradição que já está na família há quase um século, e que tem sido passada de geração em geração.

“Eu chego a sonhar de noite que tô trabalhando no engenho.Quando chega a época de fazer farinha fico todo contente. Estar dentro do engenho é um grande investimento para mim, para minha vida, ali dentro estou sempre alegre, como meu pai também era”. 


Nome: Lara Weiler

Idade: 11 anos

Relação com a comunidade: Bisneta do patriarca da família Alexandre, foi criada em meio a manifestação. Viu o bisavô e o avô envolvidos com a atividade, e faz questão de participar de todo o processo de produção. É uma entusiasta da atividade, demonstra especial interesse por estar nas “rodas” de raspagem da mandioca. Guarda recordações preciosas da relação com o bisavô, como por exemplo, o fato dele ter lhe ensinado a segurar o instrumento para a raspagem. Suas narrativas, dão conta de deixar claro, que reconhece que tal manifestação cultural compõe sua identidade cultural, e tem orgulho desse fato.


Nome: Fernando Eladio Euflorzino

Idade: 13 anos

Relação com a comunidade: Nascido e criado na comunidade, onde permanece até os dias de hoje. Apesar de não fazer parte do núcleo direto da família Alexandre, desde muito pequeno faz questão de participar de todas as farinhadas. Demonstra muito interesse pela atividade, procura saber como cada etapa acontece, e é um exemplo de que a manifestação cultural dessa natureza, é para além de uma simples atividade, pois se constitui em um rito comunitário. As pessoas se reúnem em torno dos montes de mandioca como um verdadeiro ritual, uma das características, que inclusive, ajuda a definir uma comunidade como tradicional.


(Arquivo Pessoal)

Nome: Jaqueline Alexandre Weiler

Idade: 40 anos

Relação com a comunidade: Nascida e criada na comunidade. 

Passou toda a vida envolvida com as manifestações culturais que circulam pela comunidade de Taquaras. Viu seu bisavô, seu avô, seu pai e seus tios trabalhando na produção de farinha de mandioca de maneira artesanal. 

Esta atividade acontece na minha família há aproximadamente 100 anos, talvez mais do que isso. Confesso que por muito tempo eu não dei atenção a essas manifestações, mas quando iniciei minha formação acadêmica, e principalmente o Mestrado em Educação, vi que eu poderia ajudar a dar visibilidade a algumas práticas que estavam caindo no esquecimento. Eu comecei a perceber que eu vivia em um território diferenciado, ou seja, não era só uma praia agreste com belezas naturais exuberantes, era também, mas tinha mais. Então eu iniciei uma pesquisa que consistiu em mapear todos os saberes e fazeres que “encharcavam de vida” a comunidade, e então mapeei a pesca artesanal, o terno de reis, a produção de farinha, a alimentação, as simbologias, os rituais, e cheguei à conclusão, baseada nos escritos científicos disponíveis, que Taquaras era uma Comunidade Tradicional, e uma comunidade tradicional correndo sérios riscos de descaracterização.
O trabalho foi apresentado em muitos lugares no Brasil e no exterior, e se transformou em referência para algumas políticas públicas importantes. Eu me alegro com isso, e tenho me esforçado, como professora da Rede Pública de Balneário Camboriú, para que esses saberes e fazeres que circulam na comunidade, possam transitar pelos espaços da sala de aula”.


“É extraordinário o envolvimento da comunidade em torno do engenho”

(credito – Ivan Rupp)

A diretora de Artes da Fundação Cultural de Balneário Camboriú, Lilian Martins definiu a farinhada como um evento na comunidade, uma manifestação coletiva, onde todos se envolvem.

“Esse filme retrata bem as relações: do homem com o meio, da família em seus membros, os vizinhos. É extraordinário o envolvimento da comunidade em torno do engenho”, disse. 

Lilian destacou o envolvimento da Associação de Moradores do bairro.

“A associação de moradores é muito presente nas questões do patrimônio cultural, e desde nosso primeiro contato enquanto Fundação Cultural, foram sendo construídas estratégias de fortalecimento da cultura local. A UNESCO trabalha com um conceito que se aplica muito bem à essa comunidade: o de Paisagem Cultural – que trata das relações do homem com o seu meio ambiente – o uso sustentável desta paisagem. A produção acompanhou todos os processos, desde a roça até o produto final e muito importante, o Devian Zutter é muito sensível, foi emocionante o envolvimento dele nesse filme”, resumiu Lilian.

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