“Balneário Camboriú: a jóia da coroa entre todos balneários de nossa pátria”

A afirmação é do engenheiro Werner Adelmann, um turista catarinense de Blumenau, que veraneia desde criança na Praia de Camboriú, que conhece como a palma da mão

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O engenheiro Werner Adelmann, 89 anos, é um turista antigo da Praia de Camboriú, onde veraneou pela primeira vez entre o Natal de 1945 e o Ano Novo de 1946.

Ele conta que a Praia de Camboriú estava inacessível à população durante o período da 2ª Guerra Mundial. Terminada a guerra a proibição foi levantada e em setembro seu pai fez uma viagem de Blumenau a Florianópolis com um colega de trabalho. 

Passando por Camboriú, o colega resolveu entrar para verificar as condições em que se encontrava seu chalé de veraneio. 

Werner Adelmann (Arquivo Pessoal)

“Verificando que se encontrava em razoáveis condições resolveu torná-lo novamente habitável. Meu pai então resolveu ajudá-lo emprestando um caminhão e alguma mão de obra de maneiras que ficou  em boas condições novamente em dezembro. Pouco antes do Natal de 1945 o colega chegou de visita à nossa casa no bairro Garcia em Blumenau, nos entregando a chave do chalé e que poderíamos usar. Imagina a nossa alegria e assim entre o Natal de 1945 e a chegada do ano 1946, nos alojamos na praia de Camboriú”, contou.

Depois disso, a família sempre veraneou em Balneário Camboriú, onde tem apartamento na beira mar.

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Em comemoração aos 61 anos de Balneário Camboriú, Werner Adelmann, um dos turistas mais antigos que virou personagem da praia, escreveu sobre memórias e histórias desta cidade que ele definiu como ‘a jóia da coroa entre todos balneários de nossa pátria’.

Acompanhe: 

Algumas considerações sobre Balneário Camboriú

Praia de Balneário Camboriú, 1972 (Divulgação/Arquivo Histórico)

“Retrocedendo historicamente o nosso atual Balneário Camboriú foi desvinculado do município de Camboriú em 1964. O município de Camboriú por sua vez pertencia a Itajaí até 1884. 

A colonização de Camboriú se deu na segunda metade do século XIX tendo se estabelecidas algumas famílias açorianas e inúmeras espanholas, com destaque da família Garcia. Estas encontraram um solo fértil, altamente agricultável que proporcionava boas colheitas alimentando fartamente seus imigrantes. 

Ao leste descortinava-se uma linda praia onde também se estabeleceram alguns pescadores. 

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A pesca era praticamente para consumo próprio uma vez que não havia condições de preservação do resultado da pesca. Nos anos 20 (portanto há um século) esta bela praia começou a despertar a atenção por sua beleza e das condições de balneabilidade, e começaram a surgir os primeiros chalés de veranistas. 

Esta migração continuou até os anos de guerra, quando houve uma severa restrição de viagem aos descendentes do eixo e que para qualquer saída de sua cidade necessitavam de um Salvo Conduto expedido pelo delegado local. 

Ademais a praia da vila de Camboriú foi declarada área de segurança nacional e um regimento militar instalado. Devido ao grande número de descendentes alemães e italianos temia-se a chegada de uma força marítima do eixo. Esta preocupação não se estendia apenas a Camboriú, mas em praticamente todas as praias de Santa Catarina. 

Havia uma torre de observação em Garopaba, no morro da Silveira, que mantinha contato direto com a base aérea de Florianópolis, onde um hidroavião Catalina equipado com bombas de profundidade estava estacionado.

A praia de Camboriú nesta época tinha talvez não mais que 100 chalés e dois hotéis: o Miramar, uma construção de madeira pintada de azul e Hotel Balneário, uma construção em alvenaria de cor amarela. 

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Terminada a guerra e levantadas as restrições começou realmente o povoamento da praia.

Balneário Camboriú 1945. Foto tirada de um catálogo antigo (Arquivo Pessoal)

Fator importante foi a rodovia (ou estrada como se dizia na época) a hoje Governador Carlos Lacerda de Blumenau a Itajaí. Nesta época Santa Catarina era o patinho feio entre os três estados sulinos. As estradas de uma maneira geral eram péssimas e havia uma grande escassez de energia. 

Como nesta época tiveram início as atividades exportadoras através do Porto de Itajaí e a estrada que levava do Vale do Itajaí ao Porto recebeu cuidados especiais, um novo traçado que persiste até hoje, e embora sem pavimentação asfáltica era mantido em boas condições. 

A movimentação do Porto de Itajaí era bastante intensa sendo que os principais produtos exportáveis eram madeira, fécula de mandioca e óleo sassafrás. 

De Itajaí a Camboriú foi realizado o atual traçado, através do Morro Cortado seguindo até a praia e vila. Daí em diante a estrada piorava cada vez mais, até Itapema pelo morro do Encano era uma subida cheia de curvas, seguindo então a Tijucas nova serra até Florianópolis. Era uma estrada sinuosa, com subidas e descidas que necessitava muita paciência e habilidade. 

Normalmente a viagem de carro de Blumenau a Florianópolis tinha uma duração de 6 a 7 horas. Por este motivo Camboriú se tornou facilmente o alvo da população do Vale do Itajaí que procurava um clima mais ameno para se refrescar no verão. Antes mesmo ao direcionamento à Praia de Camboriú muitos veranistas optaram pela Praia de Cabeçudas. Esta pertencente ao município de Itajaí já possuía uma boa infraestrutura dotada de energia elétrica e água encanada, e um hotel renomado. 

Deve-se mencionar que no início da chegada dos veranistas apenas a elite tinha condições de veranear junto ao mar. Assim por muitos anos ainda, embora o crescimento vertiginoso da Praia de Camboriú a elite (principalmente blumenauense) via de regra veraneava em Cabeçudas. 

Outro acidente geográfico determinante nesta época era o rio Itajaí. Não havia ponte, apenas uma pequena balsa puxada manualmente. Assim a travessia demorava em média de 3 a 4 horas. 

Por este motivo os veranistas do norte de Santa Catarina (Joinville, Jaraguá etc..) desenvolveram como lugar de veraneio a Praia de Piçarras. 

Nos anos 50 ainda havia uma certa rivalidade entre as praias de Piçarras e de Camboriú. A qualidade das condições físicas (areia fina e compacta, declive suave na entrada do oceano) formatou o desenvolvimento da praia de Camboriú de uma maneira incomparavelmente maior que Piçarras. 

Quando se começou realmente a povoar o Balneário, não havia nenhuma estrada ou rua que ligasse a parte norte a parte sul. Todo movimento era pela areia da praia. Embora este intenso movimento de viaturas nenhum atropelamento foi noticiado. 

Praia servia para aprender a dirigir e era pista de pouso

A areia da praia era vastamente utilizada para o aprendizado de motorista, visto que não havia obstáculos e só havia raras escolas de aprendizagem nas cidades nesta época. 

Também a praia era utilizada como pista de pouso para pequenos aviões normalmente dos aeroclubes da periferia. Como não havia energia, alguns instalavam um cata-vento como costumam aparecer até hoje em filmes de Farwest. Problema maior representava a água de consumo. Não havendo canalização pública com o devido tratamento as casas (ou chalés) da época possuíam poços abertos que devido ao baixo lençol freático forneciam uma água salubre. Para consumo esta água antes de seu uso devia ser fervida. Embora sem energia elétrica, porém, as noites eram marcadas por um firmamento simplesmente espetacular, pois a atmosfera era limpa, sem a poluição de hoje e uma escuridão quase completa. 

A luz que foi barrada

Fato inusitado ocorreu em 1948 quando foi construída uma linha de energia elétrica para a praia de Camboriú. Tenho lembrança que era um sábado à noite e uma chave instalada onde hoje é praça Tamandaré atraiu uma grande multidão (eu sou testemunha ocular) para ver o superintendente da praia ligar a iluminação da praça. Porém, quando a chave foi acionada, nada aconteceu. 

Veio então o representante da companhia elétrica explicar que o prefeito da vila de Camboriú mandou derrubar alguns postes da linha de transmissão, pois não poderia admitir que a praia recebesse iluminação elétrica antes da vila.

Anos 60 marcaram o início das edificações 

Balneário levava uma vida pacata despertada apenas pela contínua atividade construtora de novas edificações. 

Nos anos 60 começaram as edificações, pequenos edifícios de 3 a 6 andares, disponibilizando apartamentos para os veranistas, que fugiam das altas temperaturas de verão no Vale do Itajaí. 

É desta época a construção do Hotel Marambaia que foi considerado na época o melhor hotel das praias catarinenses. Nem em Florianópolis havia qualquer similaridade. Naquela época o predomínio das construções estava na parte norte. O primeiro hotel construído na parte sul foi o Hotel Fischer e muitos duvidaram de seu sucesso, pois nas horas de maré alta era praticamente inacessível.

Foto tirada por mim em uma temporada de verão de 1962 (Arquivo Pessoal)

Digno de nota foi um acidente na construção de um prédio nos anos de 1965 que durante a construção colapsou. Era um dos primeiros edifícios de 6 andares. Justamente ao seu lado estava sendo executado o estaqueamento para um outro edifício e como nesta época as estacas eram batidas, sempre ocasionavam uma certa trepidação em seu entorno, o que alegadamente poderia ter causado este incidente. 

Foi então encarregado para análise o famoso professor Eládio Petrucci, das Universidades do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina. A sua conclusão, porém, foi de ter sido usado material impróprio (areia da praia) no preparo do concreto. Sua conclusão resultou numa melhor fiscalização das construções em curso pelas autoridades competentes, não tendo mais havido até os dias de hoje qualquer acidente construtivo nas obras civis. 

Os ‘inconvenientes’ da praia

Vale mencionar que nesta época inconvenientes faziam parte do divertimento da gurizada: 

– Após a areia da praia (onde hoje se situa a Avenida Atlântica) havia uma vegetação rasteira dotada de pequenas esferas cheias de espinhos (chamadas de roseadas). O piso nestas roseadas era bastante doloroso. 

– Havia uma grande disseminação de bichos geográficos. Estes atravessavam a pele e se alojavam entre a pele e a epiderme formando canais (verdadeiros mapas) e produzindo não só irritação, mas principalmente enorme coceira na área localizada. O tratamento naquela época era bastante precário. Constatou-se, porém que os bichos geográficos estavam inclusos como larvas nas fezes dos cachorros e expelidos encontravam na areia quente da praia um ambiente propício de proliferação. Assim foi proibido a permanência de cachorros na praia, proibição que persiste até nos dias de hoje.

Avenida Atlântica impulsionou o crescimento

Mas o que realmente impulsionou a enorme expansão do Balneário foi sem dúvida a implantação da Avenida Atlântica que trouxe consigo as grandes edificações. 

Muito bem executada logo com uma arborização adequada, permite uma caminhada à sombra por toda avenida. Assim foi incrementada a velocidade construtiva desde a época de 60 até nossos dias. 

Deve-se ressaltar ainda que com a implantação de BR-101 a facilidade de deslocamento tanto do norte (Paraná e São Paulo) quanto do sul (Rio Grande do Sul) e não por último Uruguai e Argentina tornaram Balneário Camboriú uma alternativa singular para o veraneio. Aliado a este fluxo de veranistas instalou-se simultaneamente uma destacada rede hoteleira e um pujante mercado local.

Foto copiada de uma agenda (Reprodução)

Cumpre salientar que Balneário é uma área muito privilegiada pela natureza. Além da linda praia e do mar, possui um rio (Rio Camboriú) que além de suprir as necessidades aquáticas da população, possui facilidade de navegação de barcos recreativos, o que levou a instalação de uma série de marinas ao longo de seu percurso. 

A sua bela geografia (plano montanhosa) permitiu a instalação de pontos turísticos como o Teleférico e o Morro do Careca. 

Continuamente foram e são agregados novos elementos turísticos como Barco Pirata, Parque dos Dinossauros, Roda Gigante. etc.. permitindo aos turistas além das facilidades praianas, vasta recreação.

Geologia&Construções

Por último, mas não menos importante é a sua geologia. Na era mesozoica teve lugar um grande derramamento de granito de muitos quilômetros de extensão, hoje encoberto por uma crosta terrestre de aproximadamente 40 metros de espessura e que constitui um excelente suporte para as grandes construções. Isto permitiu a construção de elevados edifícios ao longo de toda extensão, contando hoje BC de sete entre os dez edifícios mais altos do Brasil. Este surto construtivo criou sem dúvida construtoras da mais alta tecnologia de nosso país. 

O lançamento do Senna Tour, um edifício com mais de 500 m de altura, está a mostrar a pujança e audácia de nossas construtoras num empreendimento sem similar em todo mundo. (será o edifício residencial mais alto do mundo). Esta construção só se torna possível pelo lençol granítico, onde as fundações destes megaempreendimentos se ancoram oferecendo toda rigidez necessária pelas fundações. 

Não existe aqui em BC nenhum temor sobre danos estruturais, devido problemas nas fundações do empreendimento, como está acontecendo recentemente em Miami e já aconteceu na cidade de Santos. 

Uma cidade dotada de um balneário

Em 2021 foi alargada a faixa de areia da praia em 70 metros, operação bem sucedida e que persiste sem perda significativa até os dias de hoje. 

Assim terminou o inconveniente especialmente difundido constantemente pela mídia que dificultava o recreio na praia à tarde, devido a sombra causada pelas grandes edificações. Com o novo paisagismo já experimentalmente implantado num pequeno trecho deste alargamento, Balneário Camboriú se tornará sem dúvida a mais bela e famosa praia do Brasil. Devemos mencionar ainda as festividades na virada do ano, que se destacaram sobremaneira, inclusive superando a tradicional queima de fogos de Copacabana. 

Embora a atração maior seja nosso Balneário, pelas facilidades proporcionadas aos veranistas, o mesmo na realidade está se tornando cada vez mais uma cidade dotada de um balneário. 

Hoje já contamos com excelentes hotéis, escolas, universidades e hospitais. Seu excelente clima está a atrair cada vez mais moradores permanentes (especialmente da 3ª idade) tornando as atividades comerciais independente da temporada de veraneio. 

Destacamos que este fluxo migratório aliado as belas construções proporcionaram uma extrema valorização imobiliária tendo hoje nosso Balneário o metro quadrado de maior preço de todo Brasil. 

Embora os esforços das entidades públicas, com excelentes traçados nas recentes vias como 3ª, 4 ª e 5ª avenida, ligação da parte norte à parte central pela rua Martin Luther, o tráfego continua congestionado nas horas de pique. É o preço a pagar pelo progresso. 

É portanto orgulhosamente que podemos classificar Balneário Camboriú como a jóia da coroa entre todos balneários de nossa pátria”. 

Werner Adelmann [email protected]

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