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Dia da Saudade: sentimento ganhou significado ainda mais forte com a pandemia

A palavra ‘saudade’ não é particularidade da língua portuguesa. Derivada do latim, ela existe em outras línguas, mas no Brasil tem um significado único. É muito diferente dizer que você sente saudade de alguém ao invés de dizer que sente falta (tradução de ‘I miss you’ em inglês). 

É um sentimento melancólico, mas ao mesmo tempo positivo – quer dizer que a pessoa, o momento ou o lugar de quem você sente saudade realmente marcou a sua história. 

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A saudade pode ser sentida de um tempo que não volta mais – como a juventude, os anos de colégio, e para os mais jovens, a falta dos colegas nas férias… ou ainda de um amor que ficou para trás, de uma pessoa que mora longe, de uma festa onde você se divertiu muito e, é claro, de uma pessoa querida que não faz mais parte dessa existência.

A pandemia de Covid-19 trouxe um significado ainda mais intenso para esse sentimento, porque o vírus impôs barreiras, afastou famílias e amigos, impediu que muitos se vissem e levou embora mais de 625 mil pessoas no Brasil, deixando muitas famílias desoladas.

Neste domingo, 30 de janeiro, é lembrado o Dia da Saudade. O Página 3 conversou com algumas pessoas que sentem saudades todos os dias. 

Compartilhe pelas redes sociais de quem você ou do que você sente saudade, marcando o @pagina3.


“Ele era apaixonado por pessoas e encontros e esta será para sempre nossa maior lembrança”

Luciana Zonta, jornalista, perdeu o pai, Ademar, de 78 anos, para a Covid em 2021. Ademar foi um empresário muito conhecido em Balneário Camboriú

Luciana e o pai (Arquivo Pessoal)

“Dez meses depois do meu pai ter ido embora vítima do Covid, a dor da perda já é um pouco diferente. A saudade continua apertando sim, principalmente em momentos específicos, como nos almoços de domingo ou quando vejo algo ou estou em algum lugar que ele adorava. Mas o processo de aceitação do fluxo da vida (da qual a morte também faz parte) torna a ausência como uma presença constante.

É como se ele estivesse sempre aqui, trazendo sua leveza e sua alegria. Sinto saudade de suas risadas, de seu bom-humor e de vê-lo brincar com o Davi, o Nícolas e a Lis. Ele era apaixonado por pessoas e encontros e esta será para sempre nossa maior lembrança e nossa maior saudade dele.”


“Saudades não deixa de ser também a presença permanente das memórias felizes”

Melissa Ramos Bittencourt, 50 anos, professora, perdeu a mãe Iara Regina Ramos, de 71 anos, para a Covid em maio/2021

Melissa e a mãe (Arquivo pessoal)

“Sinto muita saudade da minha mãe. Éramos muito amigas, companheiras. Adorava estar com ela assistindo um filme, as novelas que ela adorava, comer pipoca, tomar chimarrão, ir ao supermercado, entre tantas coisas que fazíamos juntas. Três a quatro vezes por semana, estávamos juntas para um café, para passear na Avenida Atlântica ou ir na minha cunhada. 

É muito difícil lidar com a saudade hoje, parece que ela ainda está lá na casa dela, sentadinha na sua poltrona, vendo televisão, me esperando para o café no final de tarde. 

Procuro ocupar a minha mente com os afazeres diários, para não ficar lembrando, mas quando paro, geralmente na hora de dormir, me vem uma saudade  daquelas que dói muito ou mesmo quando tenho um problema e quero chorar sinto falta de desabafar com ela, do seu aconchego. 

Acho que até hoje ainda não consegui viver o luto de verdade, às vezes me deparo não acreditando em tudo isso que aconteceu de uma hora para outra, parece um pesadelo, que vou acordar e ela vai estar lá. 

No ano passado ela disse que tinha que se cuidar porque se ela pegasse Covid não ia escapar. Lembro que ainda comentei: ‘credo mãe, você vai viver muitos anos ainda!’

Apesar de ela ter comorbidades, nunca imaginei que isso pudesse acontecer com alguém tão próximo. 

A dor de perder alguém para o Covid é inacreditável, você se depara pensando mil coisas, do tipo: e se ela tivesse parado de trabalhar não teria se salvado, e se ela não tivesse ido a tal lugar, e se ela não tivesse tomado a vacina Coronavac, e se ela não tivesse lúpus, e se…

O que sempre me vem em mente é ela dizendo: ‘se cuide, minha filha’ ou ‘o que nós vamos mastigar?’ (quando ela queria comer uma bobagem, risos). 

Só quem passou a dor da perda pelo Covid sabe o que estou dizendo. Por isso, digo: independente de qualquer coisa, melhor pecar pelo excesso do que pela falta, o melhor ainda é se vacinar, eu tomei as três doses e não me arrependo. 

Para tê-la na minha memória e não esquecer a sua fisionomia mandei fazer um quadro com uma foto. Fica na parede da sala, para eu manter viva a sua imagem e as lembranças que tenho dela”.


“Ele era uma inspiração para todos que o conheciam” 

Christina Barichello, secretária de Inclusão Social de Balneário, perdeu o tio Nelson Luiz Barichello, de 71 anos, em agosto/2020; ele era integrante do Corpo Clínico do Hospital Marieta Konder Bornhausen, de Itajaí, e atuava na UTI salvando pacientes da Covid, doença que causou a sua morte

“Lido com o pesar, cada vez que eu penso no meu tio, não penso só nele como meu tio, porque o máximo de tempo ele se dedicava às pessoas. A vida dele era o hospital, ele era diretor da UTI do Marieta, trabalhou anos na rede municipal também e era voluntário do Lar dos Idosos de Camboriú há muitos anos. Eu e ele pegamos Covid ao mesmo tempo e nós dois nos falávamos por telefone, por ele ser médico eu questionava, já que peguei antes dele e queria saber sobre os meus sintomas. Ele ficou em casa, mas chegou o momento em que os médicos o internaram e não conseguimos mais falar com ele. Não teve uma despedida.

Uma hora tinha o tio, aquele tio que representava a dedicação do cuidado com as pessoas, que era uma inspiração para todos que o conheciam. Ele tinha 71 anos e continuava trabalhando, por lei poderia estar em casa, mas continuou salvando pessoas. A vida dele era isso, mesmo com a pandemia de Covid não conseguiu se afastar, mesmo sabendo que corria risco por ser idoso. Tenho pesar, a família tem uma dor muito grande, mas não é aquilo de ficarmos chorando.

Ele foi pai muito tarde, o filho dele é pré-adolescente ainda e ele dizia que tinha muito medo de morrer e não falar todas as coisas que queria para o filho, dizia que queria gravar tudo para deixar para o filho. 

Ao invés de pai, era pai-avô, teve o menino depois dos 60. 

Foi uma pessoa que me inspirava, deu a própria vida em prol do que acreditava, tinha uma missão e morreu nessa missão. Essas pessoas, como ele, transformam o mundo, não apenas trabalham, mas acreditam na missão, que é muito maior do que cumprir horário de trabalho. 

Ele foi professor na Univali, do curso de Medicina, diretor do Marieta, trabalhou no Hospital Ruth Cardoso e mesmo assim, toda sexta à tarde, mesmo com plantão de não dormir, ele ia ver os idosos em Camboriú. 

Para mim, meu tio e meu pai, que não faleceu de Covid, mas de quem também sinto muita saudade, são duas pessoas que são inspirações. 

Saudade é sentimento que representa falta, mas é sentimento positivo, porque você só tem saudade daquilo que foi importante, daquilo que trouxe estímulos positivos, sentimentos positivos… a saudade é isso”.


Família a um oceano de distância

Matheus Sampaio, 22 anos, há três anos vive distante dos pais, Alexandre e Simone, e da irmã, Maria Clara, de 14 anos, porque mora em Munique, na Alemanha, onde estuda e trabalha na área de Engenharia Mecânica, o objetivo que lhe levou para o Velho Continente

Juntos em família…

“Sempre foi um grande sonho, estudar no exterior, e minha família sempre compartilhou desse sonho comigo, porém não era algo que a gente sabia como poderia se concretizar, não fazia muito parte da nossa realidade. 

Tudo mudou em 2017, quando eu recebi uma bolsa de intercâmbio, a princípio por três meses, para estudar na Europa. 

Porém, diversas oportunidades foram surgindo, e em 2019 eu vim de fato para ingressar em uma universidade alemã. Inclusive, aqui há muitas pessoas de fora, e isso traz um pouco do aconchego, do sentimento de afeto que existe na família.

A minha família sempre me apoiou muito durante esse processo, sempre vibrou comigo conforme as oportunidades foram surgindo, porém tudo aconteceu muito rápido. 

A ficha só caiu quando eu cheguei aqui. Uma coisa que a gente só percebe quando sente é a tal da saudade, que não diminui com o tempo. 

Talvez ela até aumente com o tempo, mas uma coisa é fato: a gente vai aprendendo a lidar, mesmo querendo estar perto, principalmente em datas comemorativas como Natal, formatura, aniversários. 

Claro que a gente queria estar perto também no dia a dia, bater um papo com meus pais e irmã, é uma coisa que faz falta.

O jeito que podemos contornar é se manter junto, sempre tentamos estar em contato, falando como vão as coisas, compartilhando novidades, tentamos fazer ligações semanalmente. 

Claro que não é a mesma coisa, e é sempre uma grande alegria quando posso estar com eles, mas é algo que se aprende a lidar, e até mesmo evitar certos pensamentos para poder seguir em frente. 

Tenho certeza de que eles vibram muito por mim, assim como eu vibro por eles. 

A saudade não some, mas a gente tenta permanecer junto. A melhor hora de todas é quando tenho oportunidade de voltar, abraçar, ver de perto, passar um tempo juntos. 

Quando se sente saudade de verdade, é muito bom chegar lá e vê-los depois de passar tanto tempo longe”.


Simone Sampaio, 51 anos, nutricionista, é a mãe de Matheus 

“O tema saudade está bem ligado ao meu dia a dia. Há três anos o meu filho foi para a Alemanha para estudar. Foi um choque muito grande para nós, porque a saudade é um sentimento muito forte e que a gente tem que aprender a lidar com ele. Já era uma decisão antiga, ele já vinha se preparando para ir pra lá, mas nada como o momento em que tudo acontece.

Foi muito difícil nos primeiros meses, havia momentos em que eu sentia muita angústia, muita falta, e o que salvava a gente era poder ter contato, vê-lo, através da internet. 

Mas mesmo assim é muito difícil, ao mesmo tempo é um sentimento que dói, mas é uma sensação boa quando vemos. Eu já fui meio que moldada para passar por essa situação, porque eu muito jovem, também com 22 anos, saí da casa dos meus pais, mudei de Estado, viemos tentar uma vida no sul, morava no Rio de Janeiro, e a saudade da família era muito grande, apesar de que a distância era menor.

A saudade ultrapassa fronteiras, se você sente falta de alguém, a minha mãe, irmãs, estavam distantes. 

Eu fui aprendendo a lidar com a saudade, e acabou acontecendo com o nosso filho, que vem ao Brasil uma vez por ano. Ele veio, e na viagem de retorno foi quando iniciou a pandemia (em 2020). 

oi muito difícil não poder estar perto, conversar com ele, ele tranquilizar a gente, mas sempre havia uma dorzinha, porque eu queria estar lá, saber se ele estava se protegendo, saber como estava a situação lá. 

Parecia que eu estava mandando meu filho para o covil dos leões, porque até então aqui não estava tão grave.

Nos falamos por vídeo semanalmente, todas as conquistas e temores ele sempre compartilha com a gente. 

Para matar a saudade entro no quarto dele, vejo as fotos espalhadas pela casa. A saudade é um sentimento com o qual temos que aprender a conviver, para que consigamos manter a sanidade mental, mesmo com esse fantasma da saudade ao seu lado”.

…e a um oceano de distância
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