Especial Dia das Mães: Muito além do diagnóstico, mães atípicas contam o que mudou em suas vidas

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Ser mãe já transforma qualquer vida por completo. Mas, para mães atípicas, a maternidade costuma vir acompanhada de diagnósticos inesperados, preconceitos silenciosos, sobrecarga emocional e uma rotina atravessada por terapias, adaptações e lutas que muitas vezes acontecem longe dos olhos das pessoas.

Nesta reportagem especial de Dia das Mães, comemorado neste domingo (10), o jornal Página 3 ouviu mulheres que vivem a maternidade atípica todos os dias, entre desafios, descobertas e aprendizados profundos sobre força, exaustão, amor e resistência. 

Ao responderem sobre os momentos mais difíceis dessa jornada e sobre o que a sociedade ainda não compreende sobre a maternidade atípica, elas revelam relatos íntimos que ajudam a desmontar estereótipos e expõem uma realidade que ainda é pouco enxergada de verdade.

As jornalistas do Página 3, Marlise Schneider Cezar e Renata Rutes, fizeram a mesma pergunta para todas as entrevistadas: 

“Qual foi o momento mais desafiador da sua jornada como mãe atípica e o que ele te ensinou sobre você mesma? E o que as pessoas ainda não entendem sobre a maternidade atípica e que você gostaria que fosse visto de verdade?”

Mais do que histórias sobre dificuldades, os depoimentos mostram mães que aprenderam a reconstruir expectativas, enfrentar julgamentos e encontrar potência justamente nos caminhos que nunca imaginaram percorrer.

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Acompanhe os relatos:

“O que as pessoas ainda não entendem é que a maternidade atípica não é só sobre desafios, é também sobre amor profundo”

Jade Martins Ribeiro, 42 anos, advogada e vereadora, mãe da Luiza Martins Ribeiro, 5 anos

Arquivo Pessoal

“O momento mais desafiador da minha jornada como mãe atípica foi quando entendi que o caminho da minha filha não seguiria os ‘padrões’ que eu imaginava. Não foi um único dia, mas um processo, cheio de incertezas, medos e, principalmente, de desconstrução. Eu precisei abrir mão de expectativas idealizadas e aprender a enxergar a minha filha, por quem ela realmente é, não pelo que o mundo espera dela.

Esse processo me ensinou muito sobre mim mesma. Descobri uma força que eu não sabia que tinha, uma capacidade de adaptação enorme e, acima de tudo, aprendi a celebrar conquistas que, para muitos, passam despercebidas. Também aprendi a ter mais empatia, a desacelerar e a valorizar o presente.

O que as pessoas ainda não entendem é que a maternidade atípica não é só sobre desafios, é também sobre amor profundo, descobertas e pequenas vitórias diárias. Mas, ao mesmo tempo, é uma jornada solitária muitas vezes, porque nem sempre há compreensão, apoio ou respeito.

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Eu gostaria que as pessoas vissem além dos rótulos e diagnósticos. Que entendessem que cada criança é única, com seu próprio tempo e suas próprias formas de existir. E que mães atípicas não precisam de julgamentos ou comparações, precisam de acolhimento, escuta e respeito genuíno”.


“O autismo me ensinou a me reinventar sempre que possível”

Amanda Ribeiro de Souza, 36 anos, recepcionista de hotel e mãe do Fernando, de 5 anos

Arquivo Pessoal

 “É difícil dizer qual o maior desafio, são inúmeros e, quanto mais o tempo passa, mais dias desafiadores. Mas a falta de suporte em todos os aspectos é o pior de todos os desafios. 

O autismo te limita na vida profissional, pessoal, te tira a estabilidade ou qualquer projeção além de dedicar seu tempo, intensamente, à evolução no seu pequeno. 

A sociedade, principalmente o meio empresarial, em sua grande parte, não conseguem compreender essas necessidades específicas e são pouco ou nada flexíveis. Em contrapartida, viver com meu pequeno, me despertou a vontade de contribuir mais para termos uma sociedade inclusiva, meu olhar sobre a inclusão ficou mais apurado e empático; na busca por sobrevivência, já que o tempo disponível de trabalho já não é o mesmo, o autismo me ensinou a me reinventar sempre que possível, me ensina todos dias a paciência, a importância do estudo, não perder a fé e controlar as minhas expectativas”

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“Somos mães buscando caminhos que algumas jamais farão e não porque não querem, mas porque não precisam”

Claudia Cristine Cugnier Guenther, 51 anos, mãe do Thor Cugnier Guenther, de 21 anos

Arquivo Pessoal

“O momento mais desafiador é sempre aquele que vem da ação do ‘outro’, do outro representado pela escola, pela família, pelos amigos, pelo caixa do supermercado, pelo lojista, pelo médico… porque a gente nunca sabe o que vem de quem está do outro lado. Porque é do outro que vem o olhar, o não querer, a exclusão, o bullying, os comentários indigestos. 

Mas a gente também aprende que o melhor também pode vir, às vezes de quem a gente menos espera, e sempre que isso acontece descobrimos que podemos não estar sozinhas. E isso é reconfortante porque por vezes andar sem amparo cansa. 

Não estamos em uma competição entre mães de quem pode mais, de quem faz mais, de quem se doa mais. Somos mães buscando caminhos que algumas jamais farão e não porque não querem, mas porque não precisam. 

Quando o Thor era bem pequeno, uma mãe perguntou porque meu filho tinha uma professora de apoio na sala? A resposta era clara; porque naquele momento meu filho ainda precisava aprender coisas que o filho dela já sabia. Ou seja, a vantagem não era do meu filho e sim do filho dela que não precisava daquele suporte. 

Estamos todos os dias buscando, tentando,  pensando em caminhos para tornar o mundo dos nossos filhos um lugar melhor. Sigo pensando na importância do meu papel, especialmente, porque sempre acreditei que o mundo verá o Thor através dos meus olhos e aquilo que eu ver o mundo também verá.”


“Ser mãe atípica é viver entre batalhas diárias e conquistas imensas e tudo isso merece ser visto, respeitado e acolhido”

Cátia Purnhagen Franzoi, Fundadora e atual Gestora Geral da AMA Litoral e presidente da Federação Catarinense de Autismo, mãe de Lino Franzoi Junior, de 36 anos

Arquivo Pessoal

“O momento mais desafiador da minha jornada como mãe atípica foi o início, quando o diagnóstico chegou acompanhado de incertezas, medos e a sensação de que eu precisaria reaprender tudo sobre ser mãe. Foi um período de luto pelo que eu imaginava, mas também de reconstrução. Com o tempo, entendi que meu filho não precisava caber em expectativas, era o mundo que precisava se abrir para acolhê-lo.

Foi diante dessa realidade que surgiu, em 2007, a AMA Litoral – Associação de Pais e Amigos do Autista, em um tempo em que pouco se falava sobre o autismo, mas que já fazia parte do nosso cotidiano. A instituição nasceu da vivência, da necessidade de apoio e do desejo de que outras famílias não caminhassem sozinhas.

Com o tempo, a AMA Litoral se fortaleceu, passando a oferecer atendimentos de habilitação e reabilitação, promovendo desenvolvimento, qualidade de vida e inclusão. Mais do que um serviço, tornou-se uma rede de apoio, luta e transformação.

Essa caminhada me ensinou sobre força, resiliência e a valorizar cada pequena conquista. Também me ensinou a me posicionar e a lutar por compreensão e direitos. O que muitas pessoas ainda não entendem é que a maternidade atípica não é feita apenas de amor, ela também é exaustiva, solitária em muitos momentos e cheia de desafios invisíveis.

Não precisamos de julgamentos, mas de empatia, apoio real e uma sociedade verdadeiramente inclusiva. Ser mãe atípica é viver entre batalhas diárias e conquistas imensas e tudo isso merece ser visto, respeitado e acolhido”.


“O que ainda falta entender é que a maternidade atípica não precisa de julgamentos, e sim de acolhimento”

Luana Pereira, Manicure, mãe de Marina, 5 anos

Arquivo Pessoal

“O momento mais desafiador da minha jornada como mãe atípica foi aprender a lidar com o medo constante do futuro e com a sensação de não ter controle sobre muitas situações. Há dias em que o cansaço emocional pesa mais que o físico, principalmente ao entender que minha filha precisa de cuidados e compreensão além do que muitos consideram “comum”.

Esse caminho me ensinou sobre uma força que eu nem sabia que existia em mim. Aprendi a ter mais paciência, empatia e a valorizar cada pequena conquista, que para muitos pode parecer simples, mas para nós é enorme.

O que ainda falta entender é que a maternidade atípica não precisa de julgamentos, e sim de acolhimento. Muitas vezes, não precisamos de opiniões, mas de respeito e apoio.

Gostaria que as pessoas enxergassem que por trás de cada mãe atípica existe uma mulher que luta todos os dias, com medo e cansaço, mas com um amor imenso e uma dedicação sem medida”.


“Falar sobre TEA sem falar sobre as barreiras seria esconder o que mais cansa”

Tatiele Rivera, 42 anos, Jornalista, mãe atípica dos gêmeos Miguel Artigas e Kauã Artigas, de 8 anos

Arquivo Pessoal

“O momento mais desafiador foi quando recebemos o diagnóstico do TEA. Naquela época tínhamos pouco conhecimento sobre o autismo, e o que mais nos deixava inseguros era o futuro: qual grau de suporte eles precisariam, como seria o desenvolvimento deles, o que viria pela frente. Esse medo do desconhecido é real e ele logo se transformou em hiperfoco. Fomos buscar informações de qualidade para entender.

Mas o sistema não facilita. Estamos na fila do SUS há anos sem previsão, e pelo plano de saúde, após quatro anos de terapia, só conseguimos manter o atendimento através de liminar judicial. Falar sobre TEA sem falar sobre essas barreiras seria esconder o que mais cansa.

O que aprendi? A ser mais empática. A celebrar os pequenos avanços como se fossem grandes, porque para nós, são. E aprendi a nunca invalidar a dor do outro. Só quem vive essa realidade sabe o quanto ela exige de você.

O autismo é um transtorno e com ele vêm desafios reais, diários, que a maioria das pessoas não vê. O que eu peço para quem ainda não entende é simples: se você não sabe como ajudar, apenas apoie. Pergunte. Esteja presente. Toda mãe precisa de apoio; uma mãe atípica precisa ainda mais.

Mas também quero que as pessoas vejam o outro lado: meus filhos me ensinam todos os dias. Eles me mostram que a vida pode ser vista por uma ótica completamente diferente. Não porque o transtorno seja algo bom, mas porque os desafios que ele traz nos forçam a crescer de formas que jamais esperávamos. Somos todos diferentes, cada um com suas limitações. O que transforma tudo é o conhecimento, o respeito e a empatia”.


“O que mais dói não é a rotina intensa, é o julgamento de quem não conhece essa realidade”

Mahara Sampaio Lencina, 31 anos, Profissão Vendas Digital,  mãe de Julia Sampaio Lencina, de 8 anos

Arquivo Pessoal

“O momento mais desafiador da minha jornada foi o diagnóstico da Julia. Aquele dia mudou tudo, não porque minha filha tinha mudado, ela continuava sendo a mesma menina linda e cheia de vida, mas porque o mundo que eu imaginava para ela de repente parecia diferente. Senti o chão sair de baixo dos meus pés. 

Mas logo em seguida veio uma força que eu não esperava, eu precisava agir, correr atrás de tudo que fosse necessário para o desenvolvimento da Julia. Não havia tempo para me perder no medo. Foi ali que descobri uma força que eu não sabia que existia dentro de mim, uma força que, tenho certeza, Deus colocou no coração de cada mãe atípica. 

O que eu gostaria que as pessoas entendessem de verdade é que essa maternidade é exaustiva todos os dias. São terapias, lutas, batalhas invisíveis. Mas também é cheia de amor, de vitórias conquistadas com muito esforço, de avanços e desenvolvimento que para nós valem ouro. 

O que mais dói não é a rotina intensa, é o julgamento de quem não conhece essa realidade. Um olhar mais gentil e uma palavra de apoio fazem toda a diferença. Nós precisamos de empatia e respeito. A Julia me ensinou que amor de mãe não tem limite. E que eu sou muito mais forte do que jamais imaginei”.


“O autismo não está só na infância, autistas crescem e também precisam de inclusão, oportunidades e melhores políticas públicas”

Greice Hoeller, 40 anos, comerciante, mãe de Renan de Castro, de 20 anos

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“Um dos momentos mais desafiadores da minha jornada como mãe atípica foi lidar com o inesperado e a quebra de expectativas. Fui mãe cedo e precisei aprender também, muito cedo, sobre o autismo e seus desafios. Em muitos momentos me senti insegura, mas isso me ensinou sobre força, resiliência e um amor que se reinventa todos os dias.

Aprendi a valorizar pequenas conquistas, que têm um significado enorme para nós.

O que muitos ainda não entendem é que a maternidade atípica vai além dos desafios: não precisamos de pena, mas de empatia e menos julgamentos. O autismo não está só na infância — autistas crescem e também precisam de inclusão, oportunidades e melhores políticas públicas.

Gostaria que fosse visto o respeito pela individualidade e a importância de uma sociedade mais acolhedora e inclusiva”.


“Lutei na justiça pelas terapias e fomos abençoados com o suporte da AMA Litoral”

Poliana Mello da Conceição, 42 anos, autônoma, mãe de Heitor Mello da Conceição, de 6 anos

Arquivo Pessoal

“A maternidade é o momento mais importante na vida de uma mulher, aí qdo nos deparamos com ela sendo atípica, fica ainda mais intenso e desafiador.

Meu momento mais desafiador foi quando recebemos o laudo, Heitor tinha 2 anos e 8 meses: autista nível 2 de suporte.

O sentimento é um LUTO me revoltei até com Deus, pois fui mãe tentante por 5 anos, dois abortos… não entendia o porque logo com meu filho…mas com o suporte de meu esposo Carlos e minha mãe, levantei a cabeça e fui lutar por ele, mas a dor era imensa! 

Fui na rádio para reclamar a demora da fila, lutei na justiça pelas terapias e fomos abençoados com o suporte da AMA Litoral, onde ele vem desenvolvendo maravilhosamente, acima da expectativa, porque são profissionais incríveis que sabem realmente o que estão fazendo. Hoje o Heitor tem 6 anos, está no primeiro ano do fundamental e seguindo com todo suporte que ele merece, tenho certeza que ele terá uma vida funcional, estamos lutando por isso!”


“Precisei aprender sobre autismo, TDAH e mais um montão de coisas, para poder trabalhar com os meninos, até conseguir acesso às terapias”

Cícera Edlânia Silva Souza, mãe atípica do Samuel, de 18 anos, no nível 01 de suporte, e do Gabriel, de 14 anos, no  nível 02 de suporte

Arquivo Pessoal

“Acredito que o momento mais desafiador da maternidade Atípica para mim, foi quando me deparei com dois laudos de autismo e cada laudo com suas comorbidades.

Eu ainda estava na busca pelo laudo do mais velho, na época o Samuel tinha 8 anos, o Gabriel com 4 e eu mais uma vez havia ido no pediatra para pegar encaminhamento para uma consulta com um neurologista infantil, e ao final da consulta após a pediatra nos atender e observar os dois, me falou da possibilidade do Gabriel também ter o autismo.

Ela não estava errada, recebemos o  diagnóstico do Gabriel antes mesmo do diagnóstico do Samuel.

Sempre fiz tudo que os profissionais me mandavam, mas nessa época eu travava uma guerra gigantesca comigo mesmo para aceitar a possibilidade do Samuel ter o autismo, aparentemente mais leve, e agora tinha que lidar com o autismo do Gabriel, com um comprometimento ainda maior.

E pra piorar, agora morando em uma cidade nova, em um novo estado, novas escolas e longe de toda minha família, só eu e meu marido e nossos 2 filhos.

Isso me fez ter que abrir mão da minha vida profissional para viver só em função dos dois. 

Precisei aprender sobre autismo, TDAH (Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade), seletividade  alimentar e mais  um montão de coisas, para poder trabalhar com os meninos, até que conseguíssemos acesso às terapias.

Mesmo sem formação, fui ser a professora de reforço em casa para ajudar na alfabetização, precisei tirar tempo para repassar material antes das provas do meu mais velho, pegar material extra na escola e até comprar material para repassar conteúdo da escola, passei a ser mais presente nas escolas e fazer trocas com esses profissionais para ajudar no desenvolvimento deles.

O que eu descobri sobre mim:

Descobri uma fé e uma força que nem imaginava que tinha.

Precisei desenvolver essa fé quando percebi que eles se viam pelos meus olhos e eu não podia enxergá-los pela ótica da deficiência, nem pela minha ótica de menina extremamente tímida e insegura, nascida no interior, que tinha medo de falar.

Quando olho para trás percebo o quanto evoluímos juntos.

Ainda enfrentamos muitos desafios todos os dias, porque a maternidade Atípica não facilita para ninguém, mas escolho viver um dia de cada vez na dependência de Deus, acreditando que eles têm um futuro brilhante pela frente”.


“Para mim, o autismo não é apenas um diagnóstico. É a realidade que vivo todos os dias”

Simone Cristina da Costa Zeferino, 43 anos, pedagoga clínica com pós em ABA e Tea transtorno global no desenvolvimento, mãe de Miguel da Costa Zeferino, de 8 anos

Arquivo Pessoal

“O momento mais desafiador da minha jornada como mãe atípica começou quando passei a perceber alguns traços de autismo em meu filho. Mesmo diante dessas observações, encontrei grande dificuldade para conseguir encaminhamentos para profissionais que pudessem avaliá-lo e ajudá-lo.

Na época, muitos pediatras afirmavam que era apenas a chamada “adolescência dos dois anos” e que, no tempo dele, meu filho começaria a falar. No entanto, por já ter experiência com desenvolvimento infantil, algo dentro de mim dizia que meu filho precisava de um suporte maior.

Foi então que começou uma luta constante: a busca por atendimento adequado, por profissionais que escutassem minhas preocupações e pela avaliação que finalmente pudesse  trazer respostas.

Quando o laudo chegou, ele trouxe também um sentimento inesperado: o alívio.

Alívio por finalmente ter respostas para tantas perguntas que ecoavam dentro de mim:

Por que ele ainda não fala?

Por que Miguel não reconhece as cores?

Por que Miguel não identifica os números?

Por que ele não parece sentir frio?

Por que muitas vezes só atende quando quer?

Eram inúmeros “porquês” que acompanhavam cada dia da nossa caminhada.

Mas, em meio a todas essas dúvidas, descobri algo muito maior. Descobri em mim uma mãe, uma mulher e uma profissional que estava se transformando. A cada dia, eu buscava mais conhecimento para compreender meu filho e para ajudar outras crianças atípicas que chegassem até mim.

Foi nesse processo que entendi meu verdadeiro propósito: dar voz àqueles que muitas vezes não conseguem se expressar.

A maternidade atípica é uma jornada diária de busca por terapias, compreensão, respeito e inclusão. Muitas vezes estamos cansadas, emocionalmente sobrecarregadas, mas ainda assim seguimos firmes, porque sabemos que alguém depende da nossa força.

Graças a Deus tenho uma grande rede de apoio, meu esposo, meus filhos e a AMA Litoral, aonde encontro refrigério e recurso para o Miguel.

Para mim, o autismo não é apenas um diagnóstico.

É a realidade que vivo todos os dias.

É aprender a amar de forma ainda mais profunda, compreender as diferenças, respeitar o tempo de cada um e lutar constantemente pelo desenvolvimento e pela evolução do outro”.


“Nossos filhos são luzes de Deus brilhando na terra para muito ensinar com as diferenças. Através deles renascemos”

Elizabeth Martins Oliveira, 41 anos, professora, mãe do Ian Mateus Martins Oliveira, de 13 anos (Autista, suporte III)

Arquivo Pessoal

“Acho que o momento mais desafiador foi perceber que a quantidade de terapias oferecidas ‘gratuitamente’ ao meu filho não era suficiente para ele adquirir todas as habilidades necessárias para sua vida. Que eu precisava aprender a cada dia para saber lidar com aquele novo mundo, tão diferente para mim e mais ainda para quem não vive na pele a experiência de ter uma pessoa com necessidade especial em casa.

No início chorava muito pensando no futuro, pois quem iria cuidar de meu filho quando eu não estiver mais aqui? 

Com o passar do tempo, fui trabalhando minha mente para fazer o meu melhor a cada dia, sem pensar muito no depois. Dessa forma, ao mesmo tempo em que vivia um luto não expressivo fisicamente (as pessoas diziam que sou guerreira, forte…), meu interior gritava e se revoltava. Uma voz dizia: – Vai e faz você mesma! 

Nunca esqueço um dia em que estava voltando do trabalho, de ônibus, triste, tentando achar um conforto, quando me deparei com a entrada de um rapaz, que se sentou no banco, em minha frente. Na sua camisa estava escrito em letras graúdas “Deus não escolheu os capacitados, mas capacitou os escolhidos”. Gravei na alma aquelas palavras e desde então não deixo passar um dia sem pensar que ser mãe atípica é uma missão de honra!

Ser mãe atípica é desafiador, faz você navegar por mares agitados, com a sensação de que não vai resistir e ao final naufragar… Acho que é o início de todas nós, mas quando conseguimos sair dessas águas e olhamos para nossa criança, eliminamos qualquer dificuldade que possa existir, conseguimos ver possibilidades de grandes conquistas através do nosso empenho e dedicação.  

Nossos filhos são luzes de Deus brilhando na terra para muito ensinar com as diferenças! Através deles renascemos…Nossos planos pessoais são replanejados e modelados como uma arte abstrata passiva de muitas interpretações.

Temos em mente que tudo aquilo que não conhecemos, o novo, pode parecer assustador, mas ele é agente de mudanças para um novo agir e pensar”.


“Vivemos um dia de cada vez e em cada dia fizemos com que o amor tudo supere”

Emanuela Haake, 48 anos, Autônoma, mãe de Lorenzo Stein, de 13 anos

Arquivo Pessoal

“Cada fase se torna um momento desafiador, pois não sabemos o que nos espera, cada autista tem sua forma de se comunicar e expressar, cada pequena evolução é uma vitória, vivemos um dia de cada vez e em cada dia fizemos com que o amor tudo supere.

E quanto às pessoas? Elas só irão entender quando tiver o seu próprio autista. O ser humano tem muito a evoluir ainda”.


“Por trás de uma mãe atípica, existe uma mulher que precisa de compreensão. E nossos filhos não precisam ser consertados, eles precisam ser respeitados”

Paloma Ariane Moeller, 40 anos, mãe de Anthony Moeller e Silva 14 anos (TEA Nível 3 suporte)

Arquivo Pessoal

“Um dos momentos mais desafiadores da minha jornada como mãe atípica foi lidar com a quebra das expectativas que eu tinha sobre a maternidade. Existe uma ideia do que é ser mãe e, de repente, eu me vi em um caminho completamente diferente. Foi um processo de ressignificar tudo aquilo que eu imaginava.

Esse momento me ensinou muito sobre mim. Eu precisei me reinventar, aprender a ter mais paciência e a olhar pras coisas de um jeito diferente. Com o tempo, entendi que o que pra muita gente é pequeno, pra gente é gigante. Passei a valorizar cada conquista de verdade.

O que muitas pessoas ainda não entendem sobre a maternidade atípica é o peso do dia a dia. Existe cansaço, sobrecarga, medo e, muitas vezes, solidão. Também existem olhares e julgamentos de quem não conhece a nossa realidade. Eu sempre tenho que dar conta de tudo sozinha, mesmo quando estou exausta.

Eu gostaria que as pessoas olhassem com mais empatia e menos julgamento. Por trás de uma mãe atípica, existe uma mulher que também cansa e precisa de compreensão. E nossos filhos não precisam ser consertados, eles precisam ser respeitados.

Ser mãe atípica é viver desafios todos os dias. É aprender, na prática, que o amor, a persistência e a dedicação fazem diferença”.


“Gostaria que olhassem menos para rótulos e mais para a criança como ela é: única, capaz e cheia de potencial”

Camila Tobias, 38 anos, Coordenadora Societária na empresa BCCONT, mãe de Benjamim 11 anos 

Arquivo Pessoal

“O momento mais desafiador da minha jornada como mãe atípica foi o diagnóstico do meu filho, aos 2 anos. Eu chorei por uma semana inteira. Foi um período de muito medo e incerteza sobre o futuro — principalmente sobre até onde ele seria independente. Nesse momento, tive o apoio essencial da minha mãe, que hoje já não está mais aqui, mas foi ela quem me deu força para seguir e enfrentar tudo no início.

A AMA teve um papel fundamental na nossa caminhada. Meu filho está lá desde os 3 anos, e o acompanhamento fez toda a diferença no desenvolvimento e na evolução dele. Foi um suporte que nos trouxe direção, acolhimento e esperança nos momentos mais difíceis.

Com o tempo, fui entendendo que cada criança tem seu próprio caminho. Meu filho é um menino incrível, muito inteligente, e no ano passado também recebeu o diagnóstico de superdotação. 

Tivemos momentos difíceis, principalmente na escola, onde enfrentamos desafios e buscamos apoio no município para garantir os direitos dele. Hoje, ele voltou para o ensino particular e está vivendo uma fase incrível, e eu sinto um orgulho imenso da trajetória dele.

Essa jornada me transformou profundamente. Sempre fui uma pessoa mais reservada, que evitava conflitos, mas quando se trata do meu filho, aprendi a me posicionar, a lutar e a defender o que é melhor para ele.

O que muitas pessoas ainda não entendem sobre a maternidade atípica é que, por trás dos desafios, existe muito amor, dedicação e uma força que a gente descobre no caminho. Gostaria que olhassem menos para rótulos e mais para a criança como ela realmente é: única, capaz e cheia de potencial”.

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