Os costões rochosos de Balneário Camboriú ainda estão preservados, mas a limpeza precisa ser permanente

A afirmação é do oceanógrafo Ewerton Wegner, da Univali, que coordena a operação de limpeza subaquática com mergulhadores profissionais e diz que o exemplo de Balneário Camboriú precisa ser mantido e expandir para as demais praias

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Balneário Camboriú tem cerca de 11 quilômetros de praias e  quase 10 quilômetros de costões rochosos, em áreas como o Pinho, Estaleiro, Estaleirinho, Ilha das Cabras, Laranjeiras que há quatro anos vêm recebendo um cuidado especial, com a limpeza subaquática, realizada através de uma parceria entre a prefeitura, a empresa Ambiental e a Univali.

O trabalho é realizado em 25 pontos determinados pelo  coordenador do Laboratório de Mergulho Submarino (LMS), vinculado à Escola Politécnica da Univali, o oceanógrafo, pesquisador e professor Ewerton Wegner. 

Ao longo de sua experiência de três décadas na coordenação do LMS, Ewerton tornou-se um especialista no assunto e destaca o exemplo de Balneário Camboriú que gostaria de ver seguido por outras prefeituras da região.

Divulgação/LMS

“Além da limpeza, este trabalho permite reconhecer a beleza e a riqueza desse ambiente. O costão hoje ainda é uma área preservada como se fosse uma floresta na encosta, só que dentro da água, é muito bonito de ver, ele tem uma riqueza incrível, pequenos peixes, porque os grandes já sumiram por causa da pesca e da caça, mas temos quantidade de variedade de peixes coloridos, polvos, crustáceos, caranguejos de todos os tipos, que mostram que o lugar é de extrema importância para ser conservado”, disse Ewerton.

Ele definiu como uma ‘conquista’ o município cuidar dos costões, desde 2022, quando esse programa começou e segue acontecendo, com a importante parceria da Ambiental.

“Mais importante ainda seria expandir para outras regiões, como Itapema, Porto Belo, Bombinhas, Itajaí, Piçarras, ampliar essa área de limpeza subaquática seria um passo muito positivo para conservação do nosso litoral”, afirmou.

Nesta reportagem, Ewerton explica o trabalho que coordena e a importância que ele tem na conservação e preservação do ambiente.

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Acompanhe:

Laranjeiras, a campeã de resíduos

“A limpeza mais recente foi em Laranjeiras, a área com a maior quantidade de resíduos. Foram retirados quase 295 quilos de resíduos e 1.255 itens, nas coletas subaquáticas e terrestres, perto do trapiche e do costão da praia. O volume que retiramos pode parecer pequeno, mas para o ambiente em que estamos atuando é muito importante, espero que esse trabalho continue, ao longo dos anos ele precisa ser adaptado, mas tem que ser permanente, como a limpeza urbana, não dá para dizer que um dia vamos parar de fazer limpeza urbana…da mesma forma temos que cuidar dos ecossistemas do costão também, isso é um ganho sempre”. 

Políticas públicas

“As políticas públicas tem que aparecer em forma de uma ação conjunta, não dá para a Univali propor uma coisa, a Ambiental propor outra e a prefeitura propor outra, acho que precisa ser uma ação conjunta e muito necessária. 

Já conseguimos identificar algumas situações onde é necessário um regramento, vou citar como exemplo, o caso da maricultura, os locais do município onde houveram experimentos ou fazendas de maricultura, no caso de cultivo de ostras, esse local ficou com muito rejeito no fundo.

Nós atuamos nos costões mas tem uma parte da enseada que também era área de cultivo e que  ainda não atuamos, mas certamente, tem muito resíduo. 

A condição da maricultura é quase extrativista, é uma atividade que tem o trabalho da fixação das estruturas, a colocação das sementes e da coleta, mas esse trabalho gera resíduo, cabos, redes de maricultura,  rede de mexilhões e as gaiolas de ostras, caixas plásticas, fios de amarração, bóias, potes que depois são furados e vão pro fundo e esse material acaba ficando lá.”

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Redes no fundo que continuam pescando

“São situações que não aparecem, porque estão debaixo da água, mas elas têm bastante peso na saúde do ecossistema. Resíduos de rede, tanto de maricultura quanto de redes de costão que ficam no entorno das rochas e se perdem, vão para o fundo, geram uma situação… elas continuam pescando, foram perdidas, mas estão no fundo e continuam pescando, então o peixe se malha ali, o caranguejo se malha ali, atrai novos peixes que vão comer o caranguejo, o peixe morto e acabam ficando presos e assim continuamente seguem pescando. Precisa uma ação conjunta para fazer uma varredura, recolher esse material que causa um grande prejuízo ao ambiente”.

Pesca artesanal/recreativa

Divulgação/LMS

“Outra situação são os pescadores artesanais, recreativos que vão durante a semana ou no fim de semana pescar espada, garoupa no costão, eles levam material de pesca que muitas vezes é largado dentro da água ou em cima na região das pedras. É comum achar grandes quantidades de linhas, embalagens, produtos de pesca, produtos originados da permanência do pessoal ali, como lata de cerveja, garrafa plástica, térmica, isopor que vai se partindo e se espalhando no ambiente. 

Todo esse material oriundo da pesca amadora, recreativa  também é um componente que pode ser trabalhado com políticas públicas. A quantidade de chumbadas que recolhemos do fundo…e o chumbo é um produto tóxico, já retiramos centenas de quilos, é um contaminante do ambiente, nada se fixa nele por causa da toxicidade, mas ele está lá”.

As perigosas iscas luminosas

Divulgação/LMS

“Outro produto muito utilizado nesta pesca são as iscas luminosas que tem dois tipos, as que usam bateria, que é o elemento mais prejudicial, porque ela acaba se decompondo e contaminando a região do entorno e a outra isca luminosa tem um produto químico dentro de uma ampola, retiramos centenas delas do fundo. 

Essas ampolas tem um produto muito tóxico que dá a luminosidade, em um momento num futuro talvez não tão distante, essas ampolas vão se romper,  e aí vai ter a contaminação da área onde estão.

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A gente diz ‘ah, o mar é grande’, mas localmente isso vai gerar um efeito e se continuar usando dessa forma, uma venda super barata, o pessoal compra, deixa no local, não se preocupa com isso, então estaremos jogando veneno direto no mar. É possivel fazer uma ação conjunta, envolver empresas fabricantes, revendedores e consumidores, que são os pescadores e assim tem muita outra coisa que podemos levantar com esse trabalho para proteger o ambiente”.

Seis toneladas em quatro anos

“Esse trabalho acontece desde 2022, já retiramos cerca de 6 toneladas de resíduos, tem muito material ainda que está no fundo, estruturas mais pesadas, que não conseguimos com nossa logística retirar, como motor de barco, restos de embarcações que naufragaram, são peças grandes, estruturas de metal espalhadas, tem bastante coisa ainda no fundo.

Do total recolhido nestes 4 anos, 40% foram retirados da área submersa dos costões, a maioria os ítens citados de atividades pesqueiras, redes, chumbadas, fios de nylon, iscas, e em terra, recolhemos mais plásticos, isopor, latas de bebidas”.

Mergulhadores profissionais

Ewerton e sua equipe (Divulgação/LMS)

“Este serviço subaquático é feito por uma equipe de sete mergulhadores profissionais, do Laboratório de Mergulho da Univali, porque o fundo tem baixa visibilidade e muitas vezes os resíduos estão presos nas rochas. O trabalho atua na retirada, quantificação e análise técnica do lixo submerso. Os dados gerados a partir dessas ações são essenciais para o monitoramento ambiental e o planejamento de políticas de preservação a longo prazo”.

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