Professores da Univali falam sobre a situação crítica do Rio Camboriú: baixa qualidade da água e mau cheiro 

Eles preparam um diagnóstico, com monitoramento contínuo e plano de ação de forma integrada, para apresentar à Emasa, porque entendem basicamente que investir na qualidade da água é investir no turismo e na segurança econômica de Balneário Camboriú 

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Quatro professores da Univali, especialistas em diferentes áreas, foram chamados pela direção da Emasa para uma reunião na semana passada, em busca de soluções que envolvem o rio Camboriú, principalmente o mau cheiro em alguns pontos nobres de Balneário Camboriú.

Os professores convidados pela Emasa são Marcus Polette (Gestão Costeira), Paulo Ricardo Schwingel (presidente do Comitê do Rio Camboriú), Jurandir Pereira Filho (Poluição Marinha) e Mauro Michelena (Oceanografia).

Nesta semana, a reportagem do Página 3 conversou com os quatro professores, especialistas no assunto, que manifestaram sua preocupação com a atual situação do Rio Camboriú, que abastece Balneário Camboriú e Camboriú.

Conheça mais sobre a formação dos professores, o que dizem sobre o atual cenário, nada animador, da principal fonte de água dos dois municípios e o que sugerem para ajudar a Emasa a resolver o problema.


É preciso tratar essa questão de uma forma muito integrada e aí está o desafio

Marcus Polette possui graduação em Oceanologia e Geografia, possui mestrado em Ecologia e Recursos Naturais, doutorado em Ciências Naturais e Pós-doutorado em Ciências Políticas e Geografia. É professor da Universidade do Vale do Itajaí nos Cursos de Graduação em Engenharia Ambiental e Sanitária, Oceanografia, e coordenador do Programa de Mestrado e Doutorado em Ciência e Tecnologia Ambiental. Atua na área de Gestão e Governança Costeira e Marinha.

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Arquivo Pessoal

“A direção apresentou os problemas, principalmente o mau cheiro, que afeta os moradores da Barra Sul. A Univali já fez inúmeros diagnósticos, um deles em 2021, que foi talvez o maior diagnóstico ambiental do estuário, com 16 projetos, feitos na área social, ambiental e econômica, que demonstrou realmente que a situação da região é crítica e necessita de um programa de gestão ambiental para resolver o problema.

Mas para isso são necessários vários estudos para que possamos buscar a resolução do problema. 

Recentemente os professores Mauro Michelena e Jurandir Pereira publicaram um artigo onde demonstraram vários trabalhos realizados ao longo dos últimos anos, sobre o problema que hoje tem o rio Camboriú. Saiu em uma revista internacional e mostra o grau de criticidade do rio em termos de poluição.

A questão que não podemos deixar de colocar: temos uma bacia hidrográfica com dois municípios, Camboriú infelizmente não tem saneamento, esse é um problema seríssimo que logicamente chega no estuário fazendo com que o grau de poluição seja muito maior na região principalmente com a carga de matéria orgânica que chega dentro no estuário e depois na enseada de Balneário Camboriú.

Nossa ideia é fazer um diagnóstico ambiental para entender o problema e a partir daí fazer um plano, oferecendo soluções técnicas de natureza estrutural e não estrutural. 

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As estruturais muitas vezes com medidas em que é necessária uma intervenção no estuário e na região como um todo, dentro das questões medidas legais, por exemplo, o manguezal é uma área de preservação permanente, e partir para outras questões como programas de educação ambiental com os condomínios, tem quase dois mil condomínios, muitos desses são pequenas cidades…tem cidades no Brasil com dois mil e poucos habitantes…Balneário Camboriú tem prédios com essa população. É preciso tratar essa questão de uma forma muito integrada e aí está o desafio.

Estamos preparando uma proposta para a Emasa. Estamos felizes com isso, porque pela primeira vez o poder público municipal se coloca favorável a um trabalho integrado com a universidade, fico feliz com o Auri Pavoni que abriu essa possibilidade e esse é um ponto muito importante”.


“A solução de problemas como mau cheiro, baixa oxigenação e degradação da qualidade da água exige monitoramento contínuo”

Jurandir Pereira Filho é oceanógrafo com mestrado em Geociências, com ênfase em Geoquímica Ambiental e doutorado em Ecologia e Recursos Naturais. É professor da Universidade do Vale do Itajaí (Univali) desde 1996, atuando nas áreas de oceanografia química, biogeoquímica aquática e qualidade ambiental. É docente dos cursos de graduação em oceanografia e engenharia ambiental e sanitária e do Programa de Pós-Graduação em Ciência e Tecnologia Ambiental (mestrado e Doutorado).

Arquivo Pessoal

“O Rio Camboriú tem papel central na vida ambiental, urbana e turística de Balneário Camboriú. Além de integrar a paisagem da cidade, o rio deságua na Enseada de Camboriú, influenciando diretamente a qualidade da água na região costeira e, em determinadas condições, até a dinâmica da Praia Central. 

Por isso, problemas recorrentes como mau cheiro, baixa concentração de oxigênio na água e sinais de degradação ambiental vêm sendo acompanhados com atenção por pesquisadores da Universidade do Vale do Itajaí (Univali).

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Em reunião inicial realizada entre representantes da Emasa e pesquisadores da Univali, foi discutida a possibilidade de aproximação entre a universidade e o município para apoiar tecnicamente a compreensão desses problemas e contribuir com ações de monitoramento e gestão ambiental. O encontro teve caráter preliminar, mas foi considerado importante por abrir espaço para uma cooperação baseada em dados científicos, experiência acumulada e conhecimento local.

Estudos realizados pela Univali desde o final da década de 1990 mostram que o estuário do Rio Camboriú funciona como uma importante via de transporte de nutrientes, matéria orgânica e outros materiais para a Enseada de Camboriú. Esses estudos indicam que, em diferentes condições de maré, o rio pode exportar substâncias que favorecem o crescimento de algas e microrganismos, contribuindo para processos de eutrofização — termo usado para descrever o enriquecimento excessivo da água por nutrientes. 

Quando há excesso de matéria orgânica e nutrientes, o consumo de oxigênio aumenta, especialmente durante a decomposição, podendo causar baixos níveis de oxigênio dissolvido e, em situações mais críticas, mau cheiro e perda de qualidade ambiental.

Pesquisas mais recentes reforçam que o sistema Rio Camboriú–Enseada de Camboriú deve ser analisado de forma integrada. O que ocorre na bacia hidrográfica, incluindo ocupação urbana, drenagem, lançamento de efluentes e dinâmica das marés, pode repercutir no estuário e chegar até a enseada. 

Os dados também apontam que alguns indicadores, como amônio, coliformes, matéria orgânica e oxigênio dissolvido, são fundamentais para avaliar a condição ambiental do rio e acompanhar se as medidas de saneamento e controle de cargas poluidoras estão produzindo resultados.

Outro aspecto importante é que os impactos não ficam restritos ao canal do rio. Estudos sobre a Enseada de Camboriú e sobre as chamadas “arribadas” — acúmulos de organismos como briozoários e microalgas na Praia Central — mostram que a disponibilidade de nutrientes, a circulação da enseada, as ondas e as correntes podem favorecer o crescimento e o acúmulo de biomassa na região costeira. Embora esses fenômenos dependam de vários fatores naturais e antrópicos, eles reforçam a necessidade de compreender a conexão entre bacia, estuário, enseada e praia.

A aproximação entre Emasa e Univali pode, portanto, representar um passo importante para transformar conhecimento científico em apoio à gestão pública. A solução de problemas como mau cheiro, baixa oxigenação e degradação da qualidade da água exige monitoramento contínuo, identificação das fontes de impacto, avaliação da eficiência do tratamento de esgoto e acompanhamento dos resultados ao longo do tempo. 

Mais do que uma ação pontual, trata-se de construir uma estratégia permanente para proteger o Rio Camboriú, a Enseada de Camboriú e a qualidade ambiental de uma das principais regiões turísticas de Santa Catarina”.


“A água é matéria prima de tudo e sem ela não temos turismo, construção civil…Investir na qualidade de água é investir na segurança econômica do município”

Paulo Ricardo Schwingel é Graduado em Oceanologia, possui mestrado em Oceanografia Biológica e doutorado em Ciências Naturais. É professor da Universidade do Vale do Itajaí nos Cursos de Graduação em Engenharia Ambiental e Sanitária, Oceanografia e Biologia, bem como no Mestrado e Doutorado em Ciência e Tecnologia Ambiental. Atua na área de  recursos hídricos (gestão de bacias hidrográficas e qualidade ambiental de rios e estuários). É presidente do Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio Camboriú.

Arquivo Pessoal

“A Univali tem uma composição técnica de alto nível. Temos trabalhos com a parte física, química da água, biota da água, análise de toxicidade da água, hoje temos uma capacidade instalada excelente para fazer qualquer levantamento, diagnóstico e monitoramento futuro das intervenções. O Auri Pavoni pediu para elaborarmos uma proposta de projeto integrado junto com a Emasa, para trabalhar em diversos segmentos, desde a qualidade química da água até um programa de educação ambiental, não só trabalhando com crianças, mas também com condomínios, para que toda população possa se envolver. 

Comecei meus estudos na bacia do rio Camboriú em 1999 há 27 anos e continuamos fazendo até hoje. Temos uma série de estudos nestes últimos quase 30 anos, o que nos qualifica para fazer um estudo mais completo, que seria em um primeiro momento, um diagnóstico para sabermos o estado em que se encontra a estuarina do rio, que inclui afluentes como o Rio Peroba e o Ribeirão das Ostras. 

O primeiro passo que estamos trabalhando é em um projeto integrado: um diagnóstico para identificar o estado e as fontes desse estado, a partir disso, estabelecer um plano de gestão e ações com a Emasa para os próximos anos com acompanhamento de um monitoramento.

Não adianta ter uma cidade com qualidade de vida bastante alta, que não suporta o cheiro do rio porque está com qualidade ambiental muito baixa.

Como se encontra a qualidade do rio hoje? Estive na bacia fazendo um trabalho de campo, há duas semanas. Na região próxima da ponte do Barranco, na Via Gastronômica, medimos oxigênio, estava 1,5 miligramas por litro. Para ter vida em um ambiente, necessitaríamos 4 miligramas por litro, o ideal seria acima de 6 miligramas. Estamos numa situação de quase anoxia, ou seja, total falta de oxigênio. É um indicador muito importante, provavelmente resultado de muita decomposição de matéria orgânica que chega nessa região do estuário e consome o oxigênio.

Não existe uma mágica, é um processo que deve começar e ao longo dos anos certamente a água vai melhorar, especialmente junto com melhorias na ETE de Balneário Camboriú e também na implementação do esgotamento sanitário de Camboriú. A qualidade do Rio Camboriú significa a qualidade da praia.

A situação é que temos um rio nessa porção estuarina que vai desde a Barra Sul até o centro de Camboriú, um ambiente degradado ambientalmente. Para esse quadro se reverta é necessário um diagnóstico com monitoramento de ações, lembrando que a qualidade ambiental do rio não é só uma questão de proteção  ao meio ambiente, mas é uma qualidade de vida da população que se reverte também no aspecto econômico. 

A segurança econômica de um município passa sempre pela segurança dos recursos hídricos. Não há desenvolvimento econômico, não há novos investimentos com segurança senão não tivermos água de qualidade. A água é matéria prima de tudo e sem ela não temos turismo, construção civil, então as coisas não funcionam…investir na qualidade de água é investir na segurança econômica do município”.


“Comparamos estudos recentes com outros realizados há 20 anos e concluímos que a qualidade da água do Rio Camboriú só piorou”

Mauro Michelena Andrade é oceanógrafo e mestre em Oceanografia pela FURG, com doutorado em geociências pela UFRGS. É professor e pesquisador na Univali nos cursos de Oceanografia e pós-graduado em Ciência e Tecnologia ambiental. Atua com monitoramento ambiental da parte física dos oceanos.

Arquivo Pessoal

“Na Univali trabalho com a Oceanografia física, que estuda os movimentos da água do mar. Conduzimos um estudo recente e publicamos como artigo científico em janeiro sobre dados coletados em 2021/2022 no estuário do Rio Camboriú. Dados coletados durante 25h, um grande esforço amostral. 

Depois de analisar esses dados comparados com outros coletados em 1999/2001, concluímos que a qualidade da água do rio só piorou. 

A novidade neste estudo foi o entendimento sobre essa conexão do estuário com a baía, vimos que tem uma grande influência dessa péssima qualidade da água do rio na enseada.

Essa péssima qualidade determinamos por alguns fatores, entre eles, os coliformes fecais muito altos, relacionados a lançamento de esgoto sem tratamento, também a quantidade de nutrientes em excesso, que fazem mal ao ambiente, que tem entre as consequências, a diminuição do oxigênio. 

Neste monitoramento no estuário do rio, vimos que em momentos de maré baixa, o oxigênio era zero. Imagina os peixes que utilizam o oxigênio que está na água para respirar e sobreviver…se ele está a zero, naquele momento não tem vida, os peixes vão fugir, os animais que ficam não conseguem se movimentar bem, podem até morrer e isso pode causar um mau cheiro na água, que sentimos nessa atividade de campo, bem perceptível, durante a maré baixa.

Por sorte esse ambiente está sempre trocando água com a enseada, então quando a água do mar entrava, melhorava um pouco a qualidade do estuário, dava uma sobrevida momentânea, mas quando ela sai, carrega todos os nutrientes e coliformes para a enseada de Balneário Camboriú, causando problemas ali. Percebemos uma grande influência nesse sentido próximo a região da Barra Sul. Em março a Univali publicou um artigo (https://mail.google.com/mail/u/0/#search/carinaa%40univali.br/FMfcgzQfCMqdSBVWbxRlbdSGdfsgTDNx) que abordou a piora da qualidade da água do Rio Camboriú nos últimos 20 anos”.

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