“Mais estupráveis da UDESC” tem novos relatos e universidade prevê concluir sindicância até sábado

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Alunos da Udesc mantinham lista que classificava alunas como ‘mais estupráveis’ em Balneário Camboriú

Caso envolve seis estudantes homens do curso de Engenharia de Petróleo; direção do Cesfi afirma que alunos foram identificados, comissão acompanha o caso e informações também foram encaminhadas à polícia e ao MP.
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A denúncia envolvendo seis estudantes homens do curso de Engenharia de Petróleo da Universidade do Estado de Santa Catarina (Udesc), em Balneário Camboriú, teve novos desdobramentos após a publicação da reportagem do Página 3: uma estudante da instituição procurou o jornal e apresentou novos relatos sobre o conteúdo que teria circulado no grupo mantido pelos alunos.

Na manhã desta quinta-feira (13), o Página 3 voltou a conversar com o professor Oséias Alves Pessoa, diretor-geral do Centro de Educação Superior da Foz do Itajaí (Cesfi). Ele informou que uma reunião com a reitoria e a equipe responsável pela gestão da crise foi realizada nesta manhã e que a intenção da universidade é concluir a sindicância até sexta-feira (14) ou, no mais tardar, até o meio-dia de sábado (15), que é dia letivo.

Oséias reforçou, porém, que há uma diferença entre os relatos que passaram a circular sobre o caso e aquilo que efetivamente consta no procedimento interno. Segundo ele, a universidade não teve acesso aos celulares dos envolvidos nem às conversas originais do grupo e, até o momento, não possui registro material da existência da lista intitulada “as mais estupráveis da UDESC”.

Estudante relata conteúdo ainda mais grave

A estudante que procurou o Página 3 terá a identidade preservada. Ela afirma conhecer os seis estudantes denunciados e ser amiga de algumas das mulheres envolvidas. Também disse ter acompanhado de perto as consequências do episódio para as alunas.

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Segundo ela, o conteúdo atribuído ao grupo iria além do que havia sido relatado inicialmente. A universitária afirma que os participantes falavam sobre quais estudantes “estuprariam em um quarto trancado”, além de fazer comentários racistas, homofóbicos e sobre o corpo, peso e cor das mulheres.

Ela também relatou que teriam sido produzidas, por meio de inteligência artificial, montagens de estudantes usando biquínis e lingeries.

Outro relato apresentado pela universitária é de que um dos integrantes teria fotografado relações sexuais com mulheres para compartilhar as imagens no grupo como forma de comprovar aos demais que havia ficado com elas.

Essas novas alegações são relatos feitos ao Página 3 pela estudante e não foram confirmadas pela universidade nem pelas autoridades responsáveis pela investigação.

Segundo a fonte, os seis envolvidos fazem parte do mesmo grupo de amigos desde 2023. Cinco teriam entre 22 e 25 anos, enquanto um deles teria ‘quase 40 anos’ e seria casado.

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A estudante afirma ainda que as vítimas ficaram abaladas e chegaram a evitar a universidade por medo, enquanto os estudantes denunciados continuaram frequentando as aulas.

Grupo teria sido descoberto após mensagem aparecer em notebook

A estudante apresentou também uma versão mais detalhada sobre como o caso teria sido descoberto. Diferentemente da informação inicial de que seria a namorada de um dos envolvidos, ela afirma que a mulher mantinha um relacionamento sem compromisso com um dos estudantes e era amiga de uma das vítimas.

Segundo o relato, ela teria procurado o estudante para receber ajuda com matemática para um concurso. Enquanto utilizavam um notebook, uma mensagem do grupo teria aparecido na tela. Nela, segundo a fonte, os demais integrantes faziam um comentário envolvendo estupro para justificar por que o rapaz não estaria respondendo às mensagens naquele momento.

A mulher teria questionado o estudante e, a partir disso, conseguido visualizar parte do grupo. Segundo a fonte ouvida pelo Página 3, ela teve acesso a apenas dois dias de conversas.

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Posteriormente, a mulher gravou áudios relatando às estudantes o que havia encontrado. De acordo com as informações apuradas pelo jornal, são 16 áudios.

Universidade diz não ter acesso às conversas originais

Ao Página 3, Oséias destacou que justamente esses áudios constituem a principal fonte de informação disponível no procedimento interno até o momento. “Tudo o que temos são circunstanciais”, afirmou.

Segundo o diretor, a universidade não teve acesso aos celulares dos seis estudantes nem ao conteúdo original do grupo. Os envolvidos, quando questionados, teriam negado as acusações ou afirmado desconhecer parte das situações relatadas. A mulher responsável pelos áudios também não teria prestado depoimento diretamente à comissão. Conforme Oséias, a Udesc tentou ouvi-la, mas ela se sentiu vulnerável e não quis se manifestar. Atualmente, a instituição não estaria conseguindo contato com ela.

O diretor ponderou que a universidade não possui poder de polícia para apreender ou exigir acesso aos aparelhos particulares dos estudantes. “Não tivemos acesso aos celulares, nenhum deles confirmou as informações. Tudo o que temos são circunstanciais”, explicou.

Udesc diz que não encontrou registro de lista

Oséias afirmou que as informações disponíveis no processo foram relidas diversas vezes e que, até as 9h45 desta quinta-feira, não havia nos autos qualquer print, imagem ou outro registro que comprovasse a existência de uma lista intitulada “as mais estupráveis da UDESC”.

Segundo ele, existe nos relatos uma menção à expressão “poderia ser estuprada”, mas não uma lista nos moldes relatados ao jornal.
“Todas as informações que chegaram destoam totalmente de uma lista de ‘estupráveis’. Isso não foi mencionado. Relemos inúmeras vezes”, afirmou.

O diretor ressaltou que isso não significa que a universidade descarte a gravidade das demais informações. Segundo ele, há relatos envolvendo comentários sobre a aparência de estudantes, além de manifestações de cunho racista e homofóbico. “Não toleramos nenhum tipo de situação como essa”, afirmou.

Entre os seis estudantes investigados, segundo Oséias, haveria um caso no qual as palavras atribuídas ao aluno poderiam configurar crime. Diante disso, a própria universidade orientou que a situação fosse denunciada às autoridades policiais.

Caso começou em maio e foi levado à polícia

De acordo com a direção do Cesfi, a situação chegou ao conhecimento da universidade em 5 de maio, há pouco mais de três meses.
A partir do momento em que a instituição identificou relatos que poderiam envolver condutas criminosas, o material foi encaminhado às autoridades policiais.

Oséias disse que a universidade procurou a Polícia Civil, que, segundo ele, registrou o caso. A instituição também já havia informado ao Página 3 que representantes estiveram no Ministério Público para tratar da situação. Apenas uma estudante teria registrado um boletim de ocorrência, mas sob orientação de advogado preferiu não torná-lo público. A apuração criminal corre paralelamente à sindicância administrativa da Udesc.

Bolsas dos seis estudantes foram retiradas

A estudante que procurou o Página 3 afirmou que os seis investigados continuaram frequentando normalmente a universidade, inclusive compartilhando disciplinas com algumas das mulheres envolvidas. Segundo ela, todos possuíam bolsas e perderam os benefícios após o caso. Um deles também atuava como monitor de uma disciplina e, conforme o relato, fazia comentários no grupo sobre estudantes calouras.

A retirada das bolsas foi confirmada por Oséias.

O diretor afirmou que a instituição tomou as providências que estavam ao seu alcance diante das informações disponíveis. Ele ponderou que a falta de provas materiais torna a decisão administrativamente delicada.

Segundo Oséias, caso nenhuma prova venha a ser materializada, poderá haver questionamento sobre as próprias medidas já adotadas contra os estudantes, uma vez que as bolsas foram retiradas com base nos elementos circunstanciais disponíveis.

Estudante diz que vítimas buscaram ajuda

A universitária que conversou com o Página 3 afirma que o número de mulheres mencionadas no grupo seria superior a oito. Segundo ela, oito teriam participado das primeiras denúncias relacionadas ao caso. Ela também relata que houve procura pelo Ligue 180 e pela Delegacia de Proteção à Criança, ao Adolescente, à Mulher e ao Idoso, além de tentativa de obtenção de medida protetiva.

Segundo a estudante, as medidas protetivas não teriam sido concedidas e as mulheres teriam se sentido desacolhidas durante a busca por ajuda. Ela afirma ainda que um estudante gay, que também teria sido alvo de comentários homofóbicos no grupo, procurou denunciar a situação.

Sindicância deve ser encerrada nos próximos dias

Uma portaria para apurar os comentários foi instaurada em 26 de julho. Oséias reconheceu que existe uma expectativa por respostas mais rápidas, mas afirmou que a universidade precisa seguir o rito administrativo e trabalhar com aquilo que consegue efetivamente comprovar.

Ele avalia ainda que os três meses transcorridos desde o surgimento do caso podem ter contribuído para que informações relatadas em conversas internas e nos corredores da universidade se misturassem àquilo que consta formalmente no processo.

A expectativa da direção é finalizar a sindicância até esta sexta-feira ou, no máximo, até o meio-dia de sábado. Até a manhã desta quinta-feira, entretanto, Oséias reforçou que a Udesc seguia sem ter acesso ao conteúdo original do grupo e sem provas materiais das acusações mais graves que passaram a circular.

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