Os vales andinos localizados na região central do Peru, não param de revelar importantes assentamentos arqueológicos que apontam para uma civilização que rivaliza, em antiguidade, com outras como as existentes na Mesopotâmia, Grécia e Egito. Antes férteis e cheios de vida, esses vales hoje encontram-se desertos, erodidos e praticamente vazios no que diz respeito à ocupação humana. Arqueólogos como Ruth Shady, que estuda a região a décadas, afirma que uma drástica mudança climática no passado remoto causou a derrocada daquela antiga civilização peruana.
O “novo” sítio arqueológico localizado no Vale de Supe – um dos mais importantes locais dessa região – recebeu o nome de Peñico. Sua datação foi estabelecida em torno de 1.800 a 1500 a.C. Alguns quilômetros vale abaixo, em direção ao oceano Pacífico encontra-se Caral, fundada por volta de 3 mil anos a.C. Desta forma, entende-se que Peñico surgiu em continuidade ao colapso de Caral, provavelmente como prova que aquela civilização se adaptou e migrou de localidade, galgando a Cordilheira dos Andes e estabelecendo senhorios que comercializaram com povos da altitude e povos da floresta.
Peñico se encontra a 600 metros acima do nível do mar. Nele foram identificadas 18 estruturas, entre elas um espaço circular cerimonial. Nele e nos edifícios ao redor, arqueólogos encontraram esculturas em barro representando homens e animais, oferendas de colares e conchas, e diversos relevos representando “pututos”, um instrumento de sopro muito usado no passado em rituais e cerimônias. Embora os noticiários estejam divulgando a descoberta como atual, fato é que Peñico já estava sendo estudada há pelo menos oito anos.
Da mesma forma que Caral, sua vizinha, Peñico também apresenta uma característica curiosa: até o momento não foram encontradas armas nem muros defensivos. Por enquanto, os senhorios que habitaram aquela região dos Andes parecem nos dizer que conseguiam viver, comercializar e interagir de forma distante dos conflitos bélicos. Era, portanto, uma sociedade pautada no comércio e na prática cerimonial.
As escavações em Peñico seguem revelando novos dados e a partir deste mês, também se torna um novo sítio arqueológico visitável e aberto aos turistas. Desta forma, a cada nova descoberta, surge um novo capítulo que nos ajuda a compreender mais sobre os antigos povos pré-colombianos.
Dalton Delfini Maziero é historiador, escritor, especialista em arqueologia e editor da revista Gilgamesh. Pesquisador dos povos pré-colombianos e história da pirataria marítima. Visite a página: (https://www.revistagilgamesh.com.br)
