OS PIRATAS DE NOSY BOHARA

Dalton Delfini Maziero
Historiador, escritor, especialista em arqueologia e explorador. Pesquisador das culturas pré-colombianas e história da pirataria marítima.
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A leste do continente africano existe uma enorme ilha chamada Madagascar. Ao longo de seu litoral e nas proximidades, outras tantas ilhotas que, juntas, formaram um refúgio perfeito para piratas no século XVIII. Desta região no oceano Índico, os famigerados partiam em expedições para interceptar as rotas comerciais que ligavam a Europa à Índia, Malásia e Indonésia. Acredita-se que da pequena ilha de Nosy
Bohara (Sainte-Marie) abrigava uma comunidade de piratas, tornando-se um verdadeiro covil para a ilegalidade. Hoje, o local abriga possivelmente o único cemitério de marinheiros piratas da história, parcialmente reconhecido.

Em abril de 1721, um poderoso navio português conhecido como Nossa Senhora do Cabo, de 700 toneladas, partiu de Goa rumo a Lisboa. A nau levava uma carga valiosa hoje avaliada em 138 milhões de euros, composta de barras e moedas de ouro, prata e prataria, pérolas, diamantes, marfim, esmeraldas, rubis, tecidos preciosos, objetos de arte e especiarias. Contudo, pesquisadores acreditam que o tesouro em seus porões era maior, pois nele estavam o vice-rei português de Goa, um arcebispo, diversas pessoas da nobreza e cerca de 200 escravizados oriundos de Moçambique.

Como é sabido, os documentos oficiais nunca relatavam exatamente o conteúdo que os navios transportavam, para esconder em parte o contrabando e pertences pessoais levado pelas próprias autoridades. Em 8 de abril de 1721 o Nossa Senhora do Cabo enfrentou uma forte tempestade e sua tripulação foi obrigada a lançar mão de 72 canhões ao mar para evitar que a embarcação afundasse. O navio foi salvo, mas encontrou-se fragilizado em uma região cheia de piratas e contrabandistas.

E foi exatamente isso que ocorreu. Um grupo de piratas bem informados abordou o navio português encontrando pouca resistência e um enorme tesouro à sua disposição. O destino do tesouro saqueado pelos piratas não é conhecido, assim como o de sua tripulação, à exceção do vice-rei que foi devolvido mediante pagamento. Não existem vestígios do destino do arcebispo e dos demais nobres viajantes. Acredita-se que parte ao menos dos escravizados tenha sido vendida a traficantes como forma de fazer dinheiro. Em seguida, como era costume, o navio saqueado era afundado de propósito para que nenhum vestígio do crime fosse detectado pelas autoridades europeias.

O saque ao navio Nossa Senhora do Cabo é atribuído ao pirata francês Olivier Levasseur, conhecido também como La Buse (O Urubu). Conhecido pela sua rapidez nos ataques e pela violência empregada contra as pessoas aprisionadas. Levasseur atuou em parceria com Edward England, John Taylor e Paulsgrave Williams, e teriam dividido o tesouro, dando origem posteriormente ao mito do tesouro perdido de Levasseur na região da Ilha Reunião e Seychelles.

Contudo, após 300 anos, especialistas do Center for Historic Shipwreck Preservation localizaram os destroços do navio, que se encontra coberto de areia e sedimentos. A equipe de mergulhadores liderada por Brandon Clifford e Mark Agostini já resgataram mais de 3.300 artefatos. O estudo do casco e os objetos resgatados confirmaram a identidade da nau portuguesa. O curioso é que uma pequena parte do tesouro ainda se encontra junto ao navio, o que leva a crer que os piratas não conseguiram transportar todos os valores ou talvez não o tenham encontrado em sua totalidade na ocasião da abordagem.

A descoberta revela muitos detalhes sobre a vida dos navegantes no século XVIII e as rotas comerciais que existiam; além dos artefatos que comprovam o estilo de vida da sociedade na época. Esta compreensão – inclusive das rotas comerciais estabelecidas – promove toda uma revisão acadêmica sobre o comércio entre Europa e Ásia. As pesquisas continuam pela equipe de arqueólogos subaquáticos, que confirmaram existir ao menos outros três navios naufragados nas mesmas condições ao redor do Nossa Senhora do Cabo, vítimas silenciosas de um antigo grupo de piratas que já não mais existe.

Dalton Delfini Maziero é historiador, escritor, especialista em arqueologia e editor da revista Gilgamesh. Pesquisador dos povos pré-colombianos e história da pirataria marítima. Visite a página: (www.revistagilgamesh.com.br).

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