A MONTANHA DO ESCORPIÃO

Dalton Delfini Maziero
Historiador, escritor, especialista em arqueologia e explorador. Pesquisador das culturas pré-colombianas e história da pirataria marítima.
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Ao contrário de Peru, Chile e Brasil, o México não é um dos países das Américas com maior incidência de geoglifos. Essas típicas formações terrestres com finalidades e técnicas diversas, espalharam-se pelo continente centenas de anos antes da chegada dos espanhóis, e ainda hoje continuam sendo descobertos com as novas tecnologias e prospecções arqueológicas.

Contudo, em 2014 arqueólogos descobriram uma estranha formação com cerca de 63 metros de comprimento no Vale de Tehuacán, 260 km a sudeste da cidade do México. Surpreendentemente, a formação possui o desenho de um escorpião! Montes com efígies retratando animais são bastante comuns entre os povos pré-colombianos do leste dos EUA, em especial os adena e fort ancient os construíam com certa frequência; mas nenhum havia sido descoberto na Mesoamérica.

O escorpião do Vale de Tehuacán é formado por acúmulo e empilhamento de terra e pedras, que compõem sua cabeça, corpo, ferrões e cauda. A equipe de arqueólogos – que na verdade pesquisava um sistema de irrigação pré-colombiano – escavou diversos artefatos dentro do espaço formado pelo ferrão do animal. Esses artefatos foram datados entre 600 e 1100 d.C.

James Neely, arqueólogo da Universidade do Texas (Austin, EUA) acredita que o escorpião marca os solstícios de verão e inverno e que, portanto, seria utilizado como uma espécie de observatório astronômico de origem mais popular, não controlado pelas elites da sociedade ao qual pertencia. No local, James encontrou outros 11 montes, alguns com salas e paredes construídos, mas sem o formato de um animal.

Na mitologia mesoamericana, o escorpião (Tlāhuizcalpantēcuhtli) estava associado ao surgimento de Vênus no céu, o planeta estrela que reluzia nas manhãs no prenúncio de um novo dia. Tal associação já pode ser confirmada em diversos murais pré-colombianos, entre ele o de Cacaxtla, do povo olmeca-xicalanca. Além desta associação mitológica, confirmou-se que a formação está alinhada com o nascer do sol no solstício de verão, que na região marcava o início das chuvas e, portanto, do plantio. 

Entre os artefatos escavados neste geoglifo, os arqueólogos encontraram molcajetes (moedores de alimento e grãos), um incensário, uma estatueta oca e diversos fragmentos de potes, pratos e tigelas, que provavelmente eram utilizados em alguma espécie de ritual.
Dalton Delfini Maziero é historiador, escritor, especialista em arqueologia e editor da revista Gilgamesh. Pesquisador dos povos pré-colombianos e história da pirataria marítima. Visite a página: (https://www.revistagilgamesh.com.br)

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