Urbanização e crescimento populacional transformam o litoral Centro-Norte de Santa Catarina

Região ganhou mais de 255 mil habitantes em pouco mais de uma década, ampliou suas áreas urbanizadas e enfrenta o desafio de conciliar desenvolvimento territorial, conservação ambiental e adaptação às mudanças climáticas.

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Texto: Marcus Polette

O litoral centro-norte de Santa Catarina vive uma das mais intensas transformações territoriais do Brasil. Dados compilados pelo Observatório Costeiro revelam que, entre 2010 e 2025, a população dos oito municípios costeiros defrontantes com o mar da região, passou de 470.287 para 725.733 habitantes, representando um crescimento de aproximadamente 54% no período.

Paralelamente, a expansão das áreas urbanizadas avançou significativamente entre 2016 e 2024, redefinindo a paisagem costeira e ampliando os desafios relacionados ao planejamento territorial.

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A região é formada pelos municípios de Balneário Piçarras, Penha, Navegantes, Itajaí, Balneário Camboriú, Itapema, Porto Belo e Bombinhas.

Inserida na Região Metropolitana da Foz do Rio Itajaí, concentra importantes atividades econômicas ligadas ao turismo, portos, logística, construção civil, economia do mar e mercado imobiliário, fatores que explicam parte da forte atração populacional observada nas últimas décadas.

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Crescimento populacional impulsiona novas dinâmicas territoriais

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Os dados mostram que todos os municípios apresentaram crescimento populacional expressivo. Bombinhas registrou o maior crescimento proporcional da região, com aumento de 101% entre 2010 e 2025, passando de 14.293 para 28.738 habitantes. Porto Belo apresentou crescimento de 96,2%, seguido por Itapema (88%), Balneário Piçarras (79,1%) e Navegantes (58,6%).

Mesmo os municípios mais consolidados continuaram crescendo de forma significativa. Itajaí aumentou sua população em 44%, enquanto Balneário Camboriú registrou crescimento de 40,3%, alcançando densidade populacional superior a 3.000 habitantes por quilômetro quadrado, a maior de todo o litoral catarinense.

Essa dinâmica evidencia a crescente atratividade do litoral catarinense, impulsionada pela qualidade de vida, oportunidades econômicas, infraestrutura regional e valorização imobiliária.

O fenômeno da Urbanização em Balneário Camboriú e a transformação da paisagem costeira

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Balneário Camboriú representa talvez o exemplo mais emblemático do fenômeno de urbanização das áreas costeiras no Brasil. Diferentemente de municípios da região, como Porto Belo ou Balneário Piçarras, que ainda possuem áreas passíveis de urbanização, Balneário Camboriú encontra-se espacialmente comprimida por condicionantes naturais e territoriais.

A literatura internacional chama este fenômeno de Urban Squeeze, ou compressão urbana, visto que em um determinado momento, as limitações físicas, ambientais e econômicas passaram a restringir a disponibilidade de novas áreas urbanizáveis.

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A cidade está limitada a leste pelo Oceano Atlântico, ao norte pelo Rio Camboriú e suas áreas estuarinas, ao sul pelas encostas da Mata Atlântica e, internamente, por uma estreita planície costeira que se estende aproximadamente da Avenida Atlântica até a região da Quinta Avenida.

Essa configuração reduz drasticamente as possibilidades de expansão horizontal e explica por que o município apresentou apenas 3% de crescimento da área urbanizada entre 2016 e 2024. Entretanto, essa aparente estabilidade territorial não significa desaceleração econômica ou demográfica. Pelo contrário. A cidade passou a responder à crescente demanda habitacional por meio da verticalização extrema, do adensamento urbano e da substituição do estoque imobiliário existente por empreendimentos de maior densidade e valor agregado.

O resultado é um modelo urbano semelhante ao observado em cidades costeiras altamente consolidadas em países desenvolvidos, como Sinngapura e Malásia, por exemplo, onde a escassez de solo urbanizável impulsiona a valorização imobiliária, a verticalização e a intensificação do uso do território. Nesse sentido, Balneário Camboriú pode ser interpretada como um laboratório brasileiro de Urban Squeeze, tendência que deverá se intensificar nas próximas décadas.

Por outro lado, municípios como Porto Belo, Itapema, Navegantes e Balneário Piçarras parecem estar em uma fase anterior desse ciclo.

Atualmente ainda dispõem de áreas para expansão urbana, mas os dados sugerem que a continuidade das elevadas taxas de crescimento populacional e imobiliário poderá levar, em médio prazo, a processos semelhantes aos observados em Balneário Camboriú.

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A crescente ocupação da planície costeira, a valorização do solo urbano e felizmente as restrições ambientais impostas pela legislação ambiental deverão ser progressivamente as alternativas de expansão horizontal.

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Os municípios que mais expandiram suas áreas urbanizadas na região foram também aqueles que apresentaram as maiores perdas de cobertura florestal, como Balneário Piçarras (-12,7%) e Navegantes (-6,4%). Essa tendência evidencia que a urbanização continua como sendo um dos principais vetores de transformação da paisagem regional.

Entretanto, alguns municípios demonstram que trajetórias alternativas são possíveis. Balneário Camboriú (+3,44%), Bombinhas (+0,76%) e Itajaí (+0,23%) registraram estabilidade ou aumento da cobertura florestal no período analisado. Embora os fatores explicativos sejam distintos em cada caso, os resultados sugerem que a combinação entre planejamento territorial, áreas protegidas, legislação ambiental e modelos urbanos mais compactos pode contribuir para reduzir a pressão sobre os remanescentes naturais.

Nesse cenário, o principal desafio não será apenas produzir novas moradias ou ampliar a infraestrutura urbana, mas garantir que o crescimento ocorra sem comprometer os serviços ecossistêmicos que sustentam a própria atratividade da região.

Unidades de Conservação, Florestas urbanas, restingas, manguezais, praias, dunas e estuários desempenham funções essenciais para a mitigação das mudanças climáticas, redução de enchentes, regulação térmica e proteção contra eventos extremos e devem ser preservadas como o maior ativo econômico da região.

A demografia continua sendo uma das forças mais poderosas na transformação do mercado imobiliário e da organização do território.

No litoral centro-norte catarinense, os dados indicam que o crescimento populacional continuará impulsionando a demanda por habitação, infraestrutura e serviços.

A questão central para os próximos anos será definir se esse crescimento ocorrerá de forma dispersa e ambientalmente custosa ou por meio de um modelo territorial mais compacto, resiliente e alinhado aos princípios da sustentabilidade e da adaptação climática, neste sentido urge um Zoneamento Ecológico-Econômico Costeiro em escala regional.

Em outras palavras, o litoral catarinense começa a experimentar seu próprio processo de Urban Squeeze Costeiro, no qual o desafio deixa de ser apenas expandir cidades e passa a ser gerir, com inteligência e planejamento, um território cada vez mais disputado entre a urbanização, a conservação ambiental e a qualidade de vida.

Fonte dos dados: IBGE, MapBiomas e Observatório Costeiro. 
Organização: Observatório Costeiro – Setor Centro-Norte de Santa Catarina.

Marcus Polette é o coordenador do Observatório Costeiro; é graduado em Oceanologia e Geografia, possui mestrado em Ecologia e Recursos Naturais, doutorado em Ciências Naturais e Pós-doutorado em Ciências Políticas e Geografia. É professor da Universidade do Vale do Itajaí nos Cursos de Graduação em Engenharia Ambiental e Sanitária, Oceanografia; é coordenador do Programa de Mestrado e Doutorado em Ciência e Tecnologia Ambiental e atua na área de Gestão e Governança Costeira e Marinha.

Sobre o Observatório Costeiro

O Observatório Costeiro busca traduzir ciência em ação, conectando governos municipais, sociedade e iniciativa privada em torno de um mesmo objetivo, o de tomar decisões baseadas em dados confiáveis para a melhor gestão e governança costeira e marinha do setor centro-norte de Santa Catarina.

O Observatório é uma iniciativa do Laboratório de Conservação e Gestão Costeira Integrada e do Programa de Pós-graduação em Ciência e Tecnologia Ambiental da Escola Politécnica da Universidade do Vale do Itajaí – UNIVALI. Este é formado por um conjunto de pesquisadores e professores que atuam nas áreas de oceanografia, geografia e das ciências ambientais.

A coordenação é realizada pelo Prof. Dr. Marcus Polette tendo como base o projeto de produtividade em pesquisa do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico – CNPq.

Os dados apresentados têm como base o levantamento, organização e análise de dados de fontes secundárias (dados já existentes) das principais fontes de dados das instituições brasileiras e internacionais.

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