O Dia Mundial de Conscientização da Violência contra a Pessoa Idosa, lembrado nesta segunda-feira (15), foi instituído pela ONU há duas décadas, para alertar e combater todo tipo de abusos, desde físicos, psicológicos e financeiros, praticados contra maiores de 60 anos.


No Brasil, o assunto é lembrado através da campanha Junho Violeta com atividades de conscientização para a sociedade durante todo mês.
Em Balneário Camboriú, a Secretaria da Pessoa Idosa, em parceria com o Serviço Social do Comércio (SESC) e o Instituto Sentir, realizou um encontro para a população idosa na segunda-feira (15).
A programação segue com uma Caminhada de Conscientização na segunda-feira (22), na Praia Central. A concentração é às 8h na Pracinha da Barra Sul. A Caminhada seguirá pela Atlântica (meia pista) até a Rua 4000. Ao final da Caminhada todos participarão de um aulão de ginástica na praia. Na terça-feira (23), às 14h, a SPI promoverá a palestra ‘É real ou é golpe’? em sua sede, na Rua 1822. Todos estão convidados.
“Todos os idosos estão convidados para a Caminhada e para a palestra, que oferecerá orientações e será de muito proveito para todos”, convidou o secretário da Pessoa Idosa, Claudir Maciel.
Ele destacou que em Balneário Camboriú o Junho Violeta é trabalhado com palestras, oficinas e rodas de conversa com foco na conscientização, informação e orientação.
“Também atuamos forte no Programa Abraço ao Idoso, com um atendimento permanente e humano, que tem feito a diferença na segurança e no bem-estar dos idosos”, disse o secretário.
Projeto Valorização e cuidado com idosos

As psicólogas do Instituto Sentir, Lenita Novaes e Hélida Alves, responsáveis pelo projeto ‘Valorização e cuidado com idosos: Formação, Cultura e Redes em Balneário Camboriú’, que desenvolvem há vários anos, transmitiram a vivência de relatos que recebem nas reuniões semanais.
“Fizemos uma palestra vivencial com relato de experiências sobre a velhice e suas características, além da importância do cuidado e do respeito com os idosos. Nessa idade a violência vai além da agressão física, outras formas também configuram violências, tais como: Abandono, abusos psicológicos, violências verbais, etarismo, preconceitos, exploração financeira e outras negligências”, comentou Lenita.
Hélida Alves destacou a importância das necessidades pessoais relacionadas à saúde e ao bem-estar.
“É muito importante que todos avaliem suas necessidades, seus cuidados pessoais. Essa é uma das primeiras demonstrações de saúde mental, um passo importante para combater violências”, disse Hélida.
Segundo as psicólogas, até o momento o projeto, financiado pelo Fundo Estadual do Idoso de Santa Catarina, já atendeu mais 600 idosos. Além de palestras e vivências sobre temas relevantes, o projeto realiza também oficinas de teatro e contação de histórias para os idosos, atendimentos psicoterapêuticos, encontros intergeracionais, curso de cuidadores de idosos e distribuição dos livros da Trilogia da Longevidade da editora Inteligência Educacional.
‘A violência física não é a ocorrência mais frequente’ (secretário Claudir Maciel)

O secretário Claudir Maciel disse que a experiência diária da Secretaria Municipal da Pessoa Idosa, por meio do Programa Abraço ao Idoso, permite identificar com clareza quais são as formas de violência que mais afetam a população idosa de Balneário Camboriú.
“Ao contrário do que muitas pessoas imaginam, a violência física não é a ocorrência mais frequente. Os casos que mais chegam ao conhecimento da equipe são situações de negligência, abandono, violência psicológica, violência financeira e patrimonial, além de conflitos familiares e isolamento social. Muitas vezes, o idoso está cercado de familiares, mas não recebe os cuidados necessários, tem seus recursos financeiros utilizados por terceiros ou acaba privado de sua autonomia e dignidade”, afirmou.
Segundo Claudir, também são recorrentes os casos de autonegligência, quando o próprio idoso, por questões de saúde física, mental ou emocional, deixa de cuidar de si adequadamente, exigindo a intervenção da rede de proteção.
“Em muitas situações, o trabalho da Secretaria não se limita ao atendimento da denúncia, mas envolve visitas domiciliares, mediação familiar, encaminhamentos para serviços de saúde, assistência social e, quando necessário, acolhimento institucional”, segue o secretário.
Números mostram que o Abraço é cada vez mais procurado
Em 2024, o Programa Abraço ao Idoso realizou aproximadamente 1.300 atendimentos. Até meados de 2025, esse número saltou para 1.970 atendimentos, um crescimento superior a 50%.
“Esse aumento não significa necessariamente que a violência contra os idosos tenha crescido na mesma proporção, mas evidencia que mais pessoas estão denunciando, que a rede de proteção está mais acessível e que os idosos passaram a ter maior confiança nos serviços oferecidos pelo município”, detalhou Claudir.
Proteção é prioridade e responsabilidade de todos

Claudir reforçou que Balneário Camboriú possui uma das maiores proporções de população idosa de Santa Catarina, e a proteção desse público é uma das prioridades da gestão municipal.
Por isso, a Secretaria Municipal da Pessoa Idosa trabalha com base em três pilares fundamentais: proteção, promoção e acolhimento.
Ele explicou que além do enfrentamento às situações de violência, a Secretaria desenvolve uma ampla política de promoção do envelhecimento ativo e saudável.

Para prevenir o isolamento social, fortalecer vínculos, estimular a autonomia e valorizar a pessoa idosa, a SPI mantém mais de 60 oficinas e atividades gratuitas, realizadas diariamente. São ações nas áreas de saúde, cultura, esporte, lazer, inclusão digital, artes, dança, idiomas, memória, atividade física e convivência social, proporcionando qualidade de vida e participação ativa na comunidade.
“A violência contra a pessoa idosa muitas vezes acontece de forma silenciosa, dentro da própria residência. Por isso, é fundamental que familiares, vizinhos, síndicos, zeladores, comerciantes e toda a comunidade estejam atentos aos sinais de abandono, maus-tratos, exploração financeira e isolamento social. A proteção da pessoa idosa é uma responsabilidade de todos nós”, resumiu o secretário.
Como acionar o programa
O atendimento presencial ocorre na sede da Secretaria da Pessoa Idosa (Rua 1822, nº 614, Centro), das 7h às 19h. Fora desse horário, o plantão funciona via WhatsApp pelo número (47) 99982-1632.
Outro canal é o Disque 100, mantido pelo Governo Federal para denúncias relacionadas a casos de violação de direitos humanos.
Mais de 15 mil atendimentos em nove anos

Daiana Caroline Prestes Feil, assistente social da Secretaria da Pessoa Idosa, trabalha no Programa Abraço ao Idoso desde que ele foi criado, em abril de 2017. Desde sua instituição realizou aproximadamente 15265 atendimentos.
Daiana contou que nesse período, de quase uma década, aconteceu uma mudança no perfil das demandas que chegam até o Programa, pois no início existia uma procura grande por situações de negligência familiar, violência financeira e casos complexos que envolviam questões de saúde mental e a autonegligência da pessoa.
“Com a pandemia, e principalmente após o final dela, observa-se casos mais graves envolvendo a saúde dos que procuram esse atendimento especializado, que muitas vezes, possuem mais questões crônicas de saúde do que antes do contexto pandêmico”, colocou Daiana.
A violência financeira, segundo a assistente social, permaneceu em destaque, pois ampliaram-se os casos envolvendo golpes de todas as espécies, principalmente pelo meio digital.
“São situações graves, que exigem intervenção da segurança pública e dificilmente é possível reaver o valor financeiro que foi perdido”, disse.
Autonomia sobre finanças
Daiana salientou que existem casos em que a pessoa idosa ainda é a principal referência ou provedor financeiro da família, gerando diversas questões que precisam ser trabalhadas.
“Nesses casos é importante deixar claro aos dependentes que ao se tornar idosa (a partir dos 60 anos) a pessoa não perde autonomia sobre sua vida e suas finanças, sendo responsável e plenamente capaz de gerir seus recursos, exceto em casos graves que comprometam sua saúde cognitiva, assim como não existe herança de pessoas vivas, sendo legalmente impossível vender ou utilizar o patrimônio contra a vontade de seu proprietário”.
Conflito familiar e acolhimento institucional
Os casos de conflito familiar, envolvendo ou não questões financeiras ou de saúde, se tornam cada vez mais frequentes com famílias solicitando o acolhimento institucional para pessoas idosas.
De acordo com o Estatuto da Pessoa Idosa, a pessoa idosa tem direito à convivência familiar e comunitária, sendo o acolhimento institucional a última alternativa para garantir sua proteção, quando esgotadas todas as outras possibilidades de cuidado e manutenção no convívio familiar e comunitário.
“Ainda em relação aos pedidos de acolhimento institucional, outro fator que chamou a atenção nos últimos anos foi a prevalência de casos envolvendo homens idosos. A maioria desses casos consiste em situações de vínculos fragilizados ou rompidos com a família, devido a abandono e violência contra os filhos na infância, além do uso abusivo de álcool e outras drogas e contribuição insuficiente com a previdência social, gerando dificuldade para aposentadoria ou aposentadoria insuficiente para suprir as necessidades básicas. Essas situações refletem a preponderância da cultura patriarcal e machista da nossa sociedade, que também resulta em diversas vulnerabilidades na velhice”, enfatizou Daiana.
Evitar isolamento e investir no preparo para a velhice
Com toda experiência adquirida, Daiana disse que é importante prevenir a violência contra a pessoa idosa, evitando o isolamento e continuar participando da sociedade, conhecendo seus direitos e mantendo vínculos sociais fortalecidos.
“Também é importante a educação para o envelhecimento, que deve estar presente em todas as outras fases da vida, gerando uma cultura de respeito e consideração com a população idosa”, concluiu.
