Estamos acostumados a pensar que as civilizações pré-colombianas se limitam apenas a América Latina, com exemplos como os incas, maias e astecas. Isso não é verdade. Sociedades complexas habitaram o que hoje é território dos EUA, criando cidades e monumentos conhecidos como Mounds, que incluía a terraplanagem do terreno e a alteração da paisagem. Essas civilizações possuíam características próprias e são consideradas sociedades complexas, com uma formação diferente daquelas da Mesoamérica, com as quais chegaram a comercializar.
Encontramos exemplo dessas sociedades complexas na cultura Mississippi, que ocupou toda a região leste dos EUA. Eles aprimoraram a construção de enormes estruturas de terras (mounds) com uso ritual e funerário, cultivaram o milho – produto base de sua alimentação – com o qual estabeleceram diversas rotas comerciais. Aprimoraram a cerâmica local incluindo em sua confecção pedaços fragmentados de conchas e estabeleceram uma hierarquia social com a imposição de um líder que detinha o poder político e religioso.
Eles estabeleceram uma “capital”, um local preponderante sobre os demais antes existentes que viviam em sua órbita, conhecido hoje como Cahokia. Este fascinante e original povoado abrigou cerca de 40 mil habitantes em seu auge (1050-1150 d.C.) Acredita-se que parte da população era formada por imigrantes. Cahokia possuía cerca de 120 mounds, sendo o maior deles o Monte dos Monges com 30 metros de altura, 291 metros de comprimento e 255 de largura. Sua população alimentava-se basicamente de milho, abóbora, grãos (feijão) e plantas selvagens, além de peixes e pequenos animais de caça. Uma característica interessante em Cahokia é a existência de construções com o objetivo de observação do movimento solar (equinócio e solstício) como o chamado Woodhenge. Foram encontrados cinco círculos que possuíam dezenas de postes cuidadosamente fixados, cada qual com 6 metros de altura. Os conjuntos foram construídos em épocas diferentes, cada qual contendo entre 13 e 60 postes, e 73 a 145 metros de diâmetro. Arqueólogos acreditam que se trate de um calendário solar, que marcava o período de colheitas, os períodos de eventos religiosos e mudanças climáticas.
Em Cahokia, o Mound 72 destaca-se dos demais por conter os restos mortais de 272 pessoas – muitas meninas entre 15 e 25 anos – sacrificadas na ocasião da morte de um grande líder. O sacrifício humano provavelmente fez parte de uma série de rituais, talvez associados ao ciclo solar e lunar, pois o monte está alinhado com o nascer e pôr do sol. O Monte 72 guarda diversos enterramentos importantes, incluindo casais que eram acompanhados por milhares de contas feitas de conchas marinhas. Esses pequenos objetos chegavam a conter mais de 36 mil unidades cuidadosamente dispostas. Alguns dos corpos estavam sem suas cabeças e mãos. Alguns corpos estavam cuidadosamente tratados, enquanto outros foram violentamente espancados. Os enterros não foram realizados todos de uma vez, mas ao longo de 200 anos, por volta de 1050 d.C. Junto aos enterramentos, foram também encontrados artefatos finamente trabalhados em cobre, sílex, mica, cerâmica temperada com conchas e esculturas em rochas regionais.
Uma característica curiosa do povo Mississipi foi sua cosmovisão e a possível existência de um culto difundido regionalmente, chamado “O Culto do Sul”, formado por uma série de simbolismos e possíveis práticas representadas através de sua arte. Segundo sua interpretação do Cosmo (cosmovisão), existiam 3 níveis: o Mundo Superior era habitado pelo Sol, Lua, Estrelas e Trovão. Este mundo representava a ordem e a estabilidade. O Mundo Médio era o nosso mundo real, o mundo dos homens. Já o Mundo Inferior era um lugar frio e escuro. Representava o caos e abrigava seres míticos como a “pantera subaquática” e a Mãe do Milho, conhecida também como a “Velha que nunca Morre”. Esses mundos eram conectados pelo Cedro Axi Mundo ou Poste Listrado, uma árvore que sustentava a todos. Outro símbolo característico foi a “Mão com Olho” dentro da palma, que pode estar associada a uma passagem entre os três mundos que formavam sua cosmovisão. Já a “Pantera Subaquática” era uma criatura mítica poderosa, que habitava o Mundo Inferior e que controlava todos os seres aquáticos, incluindo cobras e outros animais rastejantes. Era representada por um lince com escamas.
O declínio dos Mississippi ainda é um mistério, mas pode estar relacionado a uma mudança climática (Pequena Idade do Gelo, 1430-1800 d.C.) que causou estresse social: construção de paliçadas e valas de proteção nos aldeamentos, redução na construção dos Mounds, diminuição da produção agrícola e da população, diminuição da oferta de caça e coleta, desmatamento regional, dispersão da população dos grandes centros para regiões mais isoladas.
Dalton Delfini Maziero é historiador, escritor, especialista em arqueologia e editor da revista Gilgamesh. Pesquisador dos povos pré-colombianos e história da pirataria marítima. Visite a página: (https://www.revistagilgamesh.com.br)
