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Enéas Athanázio
Enéas Athanázio
Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 60 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.
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ANIVERSÁRIO FÚNEBRE

O mês de abril marcará mais um aniversário do golpe militar de 1964, data que ficará indelével na história brasileira contemporânea. Muito tem sido dito e escrito a respeito, embora nem de longe dê uma ideia do que foram os chamados “anos de chumbo. ” A tomada do poder pela força interrompeu uma vivência democrática de dezoito anos, sob a vigência da Constituição Federal de 1946, a mais democrática que tivemos e para cuja derrocada contribuíram manifestações levianas de políticos que se julgavam democratas. Ela se preocupava tanto em garantir a liberdade individual, depois dos tempos negros do Estado Novo, que não dava ao presidente da República instrumentos legais para defender o regime, tanto que o golpe foi tramado às claras, ante os olhos do Governo, com os golpistas se movimentando e tramando com total liberdade. Usavam as franquias democráticas para destruir a democracia. Seríamos hoje uma democracia madura, com um povo politizado e hábil no exercício do voto, com mais de setenta anos de duração. Com a interrupção, eis-nos recomeçando tudo, dando passos vacilantes, com grande parte da população desinteressada da coisa pública e sem lideranças novas, uma vez que aquelas que estavam em formação foram dizimadas. Mas é imperioso seguir em frente, consolidando a democracia em definitivo, para que coisas assim nunca mais voltem a acontecer.

No curso das duas décadas autoritárias inúmeros fatos ocorreram que não foram explicados ou esclarecidos. Lutando com dificuldades, autoridades de várias áreas conseguiram trazer a público a verdade a respeito de muitos, embora outros continuem envoltos em espesso mistério. Como se costuma dizer, muitos esqueletos ainda estão no armário. Entre estes, três acontecimentos importantes esperam por investigações que levem a conclusões sérias e definitivas, capazes de afastar para sempre as dúvidas que pairam sobre eles. Refiro-me às mortes dos ex-presidentes Juscelino Kubitschek (JK) e João Goulart (Jango) e do ex-governador da Guanabara, Carlos Lacerda. Eles compunham o mais influente trio de políticos anteriores ao golpe e detinham a grande maioria do eleitorado, além de dispor de grande capacidade de mobilização popular. Todos morreram num período de apenas nove meses, em circunstâncias estranhas e que deixaram inúmeras dúvidas. Intrigados com os indícios de que poderiam ter sido vítimas de crime, os jornalistas Carlos Heitor Cony e Anna Lee, depois de muitas buscas e pesquisas, decidiram publicar o livro “O Beijo da Morte” (Editora Objetiva – Rio – 2003), espécie de romance-reportagem em que analisam todos os detalhes que envolvem os casos e as suspeitas existentes.

Esses fatos ocorreram no contexto da Guerra Fria, uma espécie de equilíbrio do terror, calcado na permanente ameaça nuclear, entre os blocos capitalista e socialista que dividiam o planeta. Cada um deles enxergava ameaças em tudo e todos, o que levou os Estados Unidos a apoiarem sangrentas ditaduras. Foi nesse clima pesado, de temores e desconfianças, que ocorreram o golpe de 1964 e os fatos posteriores, inclusive as mortes dos três líderes. Por outro lado, no âmbito regional do Cone Sul se desenvolvia a facinorosa Operação Condor (*), até hoje mal esclarecida, reunindo diversos países, inclusive o Brasil, com o objetivo de neutralizar os que se opunham às ditaduras que tomaram o poder nesses países. Suspeita-se que resultaram de operações desse tipo as mortes de Orlando Letellier, nos Estados Unidos, Juan José Torres, no Uruguai, Alexos Panagulis, em Atenas, Zuzu Angel, no Rio, Sérgio Fleury, no litoral paulista, e vários outros, inclusive do trio brasileiro. Além disso, corriam em surdina comentários de que elas representavam uma “limpeza da área”, sem a qual a abertura do regime brasileiro não aconteceria. Admitindo-se essa versão, JK, Jango e Lacerda teriam sido vítimas duas vezes: da ditadura e da abertura. É curioso recordar que os políticos civis que mais batalharam pelo golpe acabaram engolidos por ele. Foi o que aconteceu com Jânio Quadros, Adhemar de Barros e Carlos Lacerda. Sobrou Magalhães Pinto porque, parece, estava em estado terminal de saúde. Eles esqueceram o velho ensinamento da Ciência Política de que os processos políticos podem ser deflagrados, mas nunca controlados. Para completar o quadro, JK, Jango e Lacerda, antes ferrenhos adversários e até inimigos, organizavam o movimento denominado “Frente Ampla”, cujo manifesto os dois últimos já haviam assinado (**). Todos reconheciam que seria a única forma de abreviar a ditadura e, ainda que retorcendo os narizes, trataram de se entender. Com esse objetivo, Lacerda visitou Jango em Montevidéu.

JK e Jango tiveram os mandatos cassados e os direitos políticos suspensos por dez anos, mas o prazo já havia decorrido. Lacerda tivera os direitos suspensos, mais tarde, e os recuperaria no ano seguinte. Todos poderiam, em tese, participar do processo eleitoral que se avizinhava, o que causava temor e preocupação ao governo, em especial Lacerda, cuja capacidade de mobilização era reconhecida. Num de seus arroubos, ele havia declarado que lutaria contra o sistema dominante mesmo com risco da própria vida. Aliados, os três seriam invencíveis. Cansado do exílio, Jango se preparava para retornar ao Brasil, possibilidade que andara sondando e que, a rigor, não tinha obstáculos. Estava a situação nesse pé quando todos foram colhidos pela indesejada das gentes, – como dizia o poeta, – de forma inesperada e estranha. Todas essas mortes foram, de certa forma, anunciadas, ocorreram dentro de um período curto, na esteira de mortes semelhantes no cenário internacional e deixaram indícios intrigantes.

JK foi o primeiro a perecer, em 22 de agosto de 1976, num esquisito acidente de trânsito ocorrido na Via Dutra, nas proximidades da cidade de Resende. Na semana anterior havia corrido a notícia de que havia falecido em um desastre no Distrito Federal. Ele vinha mantendo segredo sobre essa viagem ao Rio e até exibira a passagem de avião que o levaria de retorno a Brasília. Surgiram inúmeras dúvidas, inclusive a respeito de uma parada no Hotel-Fazenda Vilaforte, cuja ocorrência, ou não, influiria de forma decisiva nas conclusões do laudo técnico. Além disso, aventou-se a hipótese de uma bomba colocada no Opala do ex-presidente, tiros desferidos nos pneus e até um atirador de elite atingindo o motorista na cabeça. Os negativos das únicas fotos de JK morto, ainda dentro do veículo, desapareceram sem deixar vestígios. Seguiram-se os costumeiros “inquéritos rigorosos”, comissões e diligências, afastando sempre – como seria de esperar – a hipótese de atentado.

Em 6 de dezembro de 1976, portanto, três meses e quinze dias depois, falecia João Goulart, em sua estância de Mercedes, na Argentina. Não houve testemunhas do óbito, presenciado apenas pela viúva, e atestado por um médico pediatra, de uma longínqua cidade, como provocado “por una enfermedad.” As circunstâncias do velório e sepultamento foram estranhas, revestidas de múltiplos incidentes, e nunca se fez uma exumação. Suspeitou-se até mesmo de que o corpo não estivesse no jazigo para evitar a exumação. Ele estava bem de saúde, embora tomasse medicamentos para controle da pressão, importados da França, além de alguns adquiridos em farmácias normais. Surgiram suspeitas de que foi envenenado com esses medicamentos estrangeiros e existem pesquisadores sustentando a hipótese de atentado, baseada em inúmeros pequenos detalhes.

Cinco meses e quinze dias após, em 21 de maio de 1977, chegava a vez de Lacerda. Com sintomas gripais, foi internado na Clínica São Vicente, no Rio de Janeiro, falecendo no dia seguinte, vitimado por uma septicemia generalizada, ou seja, infecção geral, de origem externa, para a qual não havia explicação razoável. Muitas suspeitas cercaram a morte do ex-governador, mas nenhum procedimento legal foi instaurado para esclarecê-la. Não se descobriu a “porta de entrada” dessa septicemia. Segundo os autores, “Lacerda morreu devido a um estado altamente infeccioso que não foi devidamente combatido, pois havia dúvida sobre a verdadeira causa dos sintomas que apresentava” (pág. 228). É curioso que não tenham sido realizados todos os exames e investigações de praxe, ainda mais em se tratando de quem era. Ficou em aberto a hipótese, levantada na época, de envenenamento por antraz, através de correspondência, livro, alimento, pomada, peça de vestuário ou mobiliário contaminada, assento de carro etc.   

Em torno dos casos pulularam versões e comentários, surgiram depoimentos taxativos e espertalhões tentando “vender” informações. Mas as questões essenciais continuam sem respostas convincentes. Atentado ou coincidência, a verdade é que ocorrera a “limpeza do terreno” para a permanência do grupo dominante, sem perigo de retorno dos políticos derrubados, mesmo havendo a abertura estimulada pelo Governo Carter, dos Estados Unidos. Todos os três eram severamente vigiados em todos os seus passos e havia ordem superior para que Jango fosse preso caso ingressasse no território nacional. Diante de tantos indícios e circunstâncias, muitas perguntas esperam por respostas adequadas, razão pela qual o livro dos jornalistas não se fecha em torno de conclusões, deixando ao leitor o julgamento, até que um dia, quem sabe, esses esqueletos venham a ser tirados do armário.


(*) Sobre a Operação Condor, bastidores da política brasileira e do Cone Sul, personalidades da vida pública e outros fatos, vide os livros “Dossiê Brasil”, de Geneton Moraes Neto (Editora Objetiva – Rio – 1997) e “Nitroglicerina Pura”, de Geneton Moras Neto e Joel Silveira (Editora Record – Rio – 1992).

(**) O manifesto da Frente Ampla foi publicado no livro “Uma rosa é uma rosa é uma rosa”, de Carlos Lacerda  (Editora Nova Fronteira – Rio – 1977).

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