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Balneário Camboriú
Enéas Athanázio
Enéas Athanázio
Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 60 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.
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C.  RONALD

Conheci Carlos Ronald Schmidt (1935/2020) em Florianópolis quando lá me fixei para cursar a Faculdade de Direito. Muito jovem, ele também cursava a mesma Faculdade e, poeta precoce, publicava seus poemas nos jornais e revistas. Lembro-me de que realizou uma exposição de poemas e pinturas de sua autoria na vitrine do Lux Hotel, em plena rua Felipe Schmidt. A mostra permaneceu no local por longo tempo, foi bastante comentada na imprensa e visitada por numerosas pessoas, popularizando o nome do poeta e pintor. Depois de formado, ingressou na magistratura e deu início à carreira. Nascido em Biguaçu e, na prática, criado na capital, servir em comarcas distantes do mar era para ele um tormento. Depois de aposentado, tratou de retornar ao burgo natal e muito permaneceu aqui em Balneário Camboriú, onde eu o encontrava com frequência.

 No correr da carreira literária publicou numerosos livros, destacando-se como grandes sucessos “Ânua”, “Gemônias” e “Os Sempre”, que obtiveram invulgar interesse em face dos títulos inusitados e de um conteúdo surpreendente. Inovadora e criativa, a poesia de C. Ronald, nome literário que adotou, constituem sempre uma surpresa e um desafio para o leitor. Ela mereceu acurados ensaios dos melhores intérpretes catarinenses, como Salim Miguel, Mário Pereira, Iaponan Soares, Carlos Damião, Péricles Prade e outros. Todos acentuaram que o temperamento arredio do poeta dificultou a expansão de sua obra. Ele próprio escreveu: “Nunca adquiri fama literária (no máximo, prestígio) por jamais mover uma palha para adquiri-la. Sempre fui de opinião que a poesia, ela mesma, deveria arcar com tal ônus, pois, sendo verdadeira e boa, seria reconhecida com o passar do tempo, mesmo que esse (tempo) já não fosse mais o meu…”. Coerente com tal princípio, preferiu viver recluso, andando pelas praias da cidade natal, tomando sol, mergulhando, proseando com pescadores e gente do mar. É triste dizer, porém, que vivemos num país desmemoriado onde tudo é esquecido. Nomes que circulavam com grande frequência, hoje purgam o mais completo ostracismo. Com a publicação de meu “Livro Sobre Livros”, Vol. 4, constatei essa amarga realidade mais uma vez. Diversos leitores afirmam que “ressuscitei” pelo menos quatro mortos literários: Humberto de Campos, Gilberto Amado, Vargas Vila e Stefan Zweig. No entanto, todos são de ontem em termos de história literária. Por tudo isso, é com satisfação que escrevo sobre ele. Eu, pelo menos, não permaneci em silêncio. Nem agora e nem em outras ocasiões. 

Entre os livros de C. Ronald se inclui “Caro Rimbaud” (Bernúncia Editora – Florianópolis – 2006), com o qual homenageou um de seus monstros sagrados e que ele próprio me ofereceu com as seguintes palavras: “Ao prezado amigo Enéas Athanázio, melhor regionalista de nossa terra, com o abraço de C. Ronald – 14/03/2006”. Sobre essa preciosidade literária direi algumas palavras. 

O título do livro sugere uma carta ao amigo escrito distante no tempo e no espaço embora afinado com o pensamento do autor, como se observa da leitura, Jean Nicolas Arthur Rimbaud (1854/1891) nasceu em Charleville, nas Ardenas. Muito cedo revelou extraordinária vocação para a poesia. Ainda muito jovem, quase um menino, produziu uma obra que fascinou os leitores, em especial a juventude, influenciando gerações de novos poetas em todo o muno. Tão cedo divulgou sua obra genial como a abandonou, respondendo com irritação quando alguém indagava sobre a razão de tão radical atitude: ”Não me ocupo mais disso!” Desde então iniciou uma fase de andanças pela Europa e pela África, utilizando   todos os meios de transporte e até mesmo a pé. Tornou-se um mascate e andarilho, envolvendo-se em variados negócios, inclusive o tráfico de armas e, segundo alguns, até de escravos, fato jamais comprovado. Por fim, muito doente, voltou para casa e lá faleceu. Depois de vencer a burocracia, foi transportado numa carroça e sepultado. Como acompanhantes, a mãe e a irmã. Esse rompimento repentino com a arte poética entrou na história literária como “o silêncio de Rimbaud.”

Esses fatos e muito mais podem ser lidos no livro “ O Regresso – A última viagem de Rimbaud”, de autoria de Lúcia Bettencourt, publicado pela Editora Rocco (Rio – 2015) e foi por mim comentado na imprensa e em um de meus livros.

Na introdução ao livro, C. Ronald confessa o desejo de homenagear o poeta francês, não apenas pela obra mas também pela coragem de se libertar do grilhão poético de sua sociedade e buscar novos caminhos. Arrola em seguida, vários temas nos quais muito meditou influenciado pelo francês: conselho, medo, calamidade, paisagem, viagem, vícios, e muitos outros, envoltos sempre em prosa poética e revelando imensa cultura. É um capítulo escrito “para morar”, como dizia Monteiro Lobato de textos que nunca se esgotamNos capítulos seguintes, “Limpem a noite”, ”Álbum gótico” e “Os mouros que contem”, o poeta libera sua vis poetica e esparge poesia para todos os gostos. Sucedem-se poemas em forma tradicional, metrificada, como sonetos, e poemas livres, todos dominados com perfeição.  E coloca diante do leitor as grandes questões que afligem a humanidade e que os poetas sentem com maior intensidade que os mortais comuns.

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