A japonesa Yayoi Kusama, conhecida pela sua obsessão em pintar bolinhas, faleceu, aos 97 anos, no dia 14.08. 2026. A artista tinha alucinações, além de pânico e outras fobias, adquiridas na infância e adolescência, quando passou pelas agruras da II Guerra, com seu país tendo sido vítima de duas bombas atômicas.
Começou a desenhar aos dez anos, quando iniciaram suas alucinações psicóticas. Desenhava e pintava bolinhas mas, a mãe a proibia, castigava e jogava fora as tintas, destruía suas pinturas, a obrigava a espionar o pai, mulherengo; essas e outras atitudes traumatizantes levaram Yayoi à uma profunda aversão ao sexo.
Em alucinações psicóticas via-se rodeada de bolinhas, redes e flores e abóboras que falavam com ela e sentia-se desaparecer neste universo sem fim – terror do apagamento. Pela vida aprendeu a canalizar as visões na arte de forma terapêutica.
Com pouco mais de 20 anos já aparecia no cenário artístico no Japão mas, após breve correspondência com a pintora Georgia O’Keeffe, foi para Nova York. O Japão era feudal demais, servil demais e desdenhoso demais para com as mulheres dizia, e que, sua arte precisava de liberdade irrestrita e de um mundo maior. Estava na sua fase surrealista.
Nos EUA ficou impressionada com o trabalho expressionista de Jackson Pollock, que pintava para acalmar seus demônios e Willem de Kooning. Pintou grandes telas monocromáticas iniciando fase minimalista, mas nunca deixou de pintar seus universos de bolinhas. Também elaborou diversas esculturas macias e fálicas, estratégia que empregou para lidar com os traumas e visões que marcaram sua infância. Esse trabalho consistiu na obra: Agregação: Mostra de mil barcos, 1963. Andy Warhol gostou tanto do efeito deste trabalho que, ao que consta, copiou a ideia em seu: Papel de Parede de Vacas. Isso irritou profundamente Yayoi, mulher, pioneira, asiática, sentiu que estava sendo ignorada e excluída por um sistema que privilegiava homens brancos e ocidentais.
Yayoi realizou performances, nua, chamando a atenção da imprensa mundial contra a Guerra do Vietnam. Na Bienal de Veneza de1966, fez uma instalação, “Jardim de Narcisos Kusama”, provocativa, ao lado de fora do pavilhão italiano, com 1500 bolinhas: “seu narcisium à venda por dois dólares”. Foi retirada pela segurança da Bienal.
Em 1977, de volta ao Japão, voluntariamente se internou num hospit1al psiquiátrico, em Toquio, mantendo próximo, seu ateliê, para onde ia todos os dias trabalhar. Trabalhou até o último dia de vida, e faleceu dia 14, mas sua morte só foi anunciada no dia 26 de agosto, 13 dias depois.
Ficou famosa e apreciada depois que se afastou do mundo artístico. Em 1993 foi convidada a representar seu país na Bienal de Veneza, na condição de primeira mulher a representar sozinha o Japão no prestigioso evento. Ela fez da doença, arte e, nos mostrou o mundo dela: cheio de bolinhas e amor. Uma estrela que partiu, mas deixou seu legado.

