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Balneário Camboriú
Dalton Delfini Maziero
Dalton Delfini Maziero
Historiador, escritor, especialista em arqueologia e explorador. Pesquisador das culturas pré-colombianas e história da pirataria marítima.
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AS ROUPAS DE UM PIRATA

A pirataria é um tema repleto de armadilhas, que podem ser traduzidas pelo forte imaginário social que ela carrega. A simples menção do nome “Pirata” já nos remete a uma imagem estigmatizada, que nem sempre condiz com a realidade histórica. Graças a um forte marketing da literatura – ao longo de séculos – e do cinema mais recentemente, a imagem do pirata parece estar ligada definitivamente ao que achamos ser usual na região do Mar do Caribe, no oceano Atlântico das américas.

No que diz respeito as roupas utilizadas por um pirata, gostamos de imaginar que eles trajavam longas botas, enormes chapéus emplumados, brincos espalhafatosos, anéis, faixas de panos na cintura e casacos vermelhos pesados com botões dourados! Mas seria desta forma que os piratas se vestiam no seu dia-a-dia? Afinal, os piratas possuíam algum tipo de uniforme?

No universo da pirataria, nenhuma resposta é fácil, devido ao fato que a prática do roubo marítimo atravessou milênios, desde a Antiguidade aos dias atuais, e tanto a definição de pirata quanto seus hábitos mudam de região para região e época para época. Mas de forma geral, não existem evidências que os piratas usassem roupas diferentes de qualquer marinheiro de suas respectivas épocas. Na chamada Era de Ouro da Pirataria (Caribe, entre 1650-1730), os piratas costumavam usar roupas rústicas, feitas de linho ou lã, largas o suficiente para lhes permitirem escalar mastros, subir escadas, agachar, lutar, correr, ou seja, qualquer movimento que a dura vida nos mares lhe exigisse. Eram de forma geral, roupas baratas. Mas a imagem de alguns filmes de cinema, mostrando um bando de piratas trajando as roupas mais diversas possível também é verdadeiro; e isso ocorre porque muitos piratas se vestiam com o que roubavam em suas abordagens. Desta forma, não é difícil imaginar passageiros e viajantes obrigados a cederem seus melhores casacos e calçados em troca de suas vidas.

Mas existiam exceções. Em 1719, o inglês William Snelgrave (1681-1743) – um traficante de marfim e escravos – foi capturado por piratas (Howell Davis, Thomas Cocklyn e Olivier Levasseur) no litoral africano de Nova Guiné. Posteriormente, descreveu sua aventura na obra A new account of some parts of Guinea and Slave-Trade (1734), onde uma curiosa passagem relata a disputa dos capitães piratas por vestir a roupa mais vistosa. O objeto de desejo neste caso era um casaco escarlate bordado com prata que, acreditavam, teria a preferência das mulheres em terra. Também existem referências que o pirata galês, Bartholomew Roberts (1682-1722), dedicava bastante atenção à sua indumentária, vestindo um longo casaco vermelho com botões dourados e um colete damasco, complementado com uma pesada corrente de ouro da qual pendia uma cruz cravejada com diamantes. Seja como for, roupas extravagantes pareciam estar associadas apenas aos capitães, que ganhavam mais nos saques e, portanto, podiam pagar por roupas caras.

Além das roupas folgadas de tecido cru, os piratas comuns costumavam usar jaquetas curtas de lã ou fustian (fustaneum, um tecido sarjado que muitas vezes misturava lã, linho e algodão). Era comum também usarem lenços no pescoço e bandanas na cabeça, com o objetivo de enxugar o suor e proteger os cabelos da salinidade dos mares. Tanto nas calças quanto nas jaquetas, poderiam acrescentar bolsos de couro para carregar e guardar objetos pequenos, como canivetes, moedas e balas de tiro. Poucos piratas usavam chapéus, pois estes se não fossem bem presos a cabeça, poderiam voar com os ventos da navegação. Era muito mais comum o uso de gorros de lã, justos na cabeça –em tempos de frio – ou um chapéu pequeno de abas curtas, para proteção do sol. 

Em regiões frias e chuvosas, era comum o uso de gorros de lã, justos na cabeça. Também o uso de uma capa impermeável pesada, feita em lona, era utilizada para as tarefas inadiáveis no convés debaixo de chuvas. Essas capas de lona, ao contrário das demais, geralmente não pertenciam a um único marinheiro, mas seria uma roupa coletiva, revezada entre os piratas no convés. Para proteger os pés, muitos usavam um sapato de couro baixo, fixado com cadarço ou fivela. 

O uso de outros acessórios não era tão comum como imaginamos. Tapa olhos, brincos e anéis eram provavelmente usados, mas com pouca frequência. Brincos de ouro ou prata podiam ter a função de moeda de troca em terras longínquas. Mais comum era o uso de faixas de tecido amarradas ao corpo, na qual fixavam armas e objetos de luta em especial facas e pistolas.

Mas a verdade é que muito do que imaginamos ser real é oriundo de obras como Bucaneiros da América (1678) de Alexander Oliver Exquemelin; Uma História Geral dos Roubos e Crimes de Piratas Famosos (1724) de Charles Johnson; A Ilha do Tesouro (1883) de Robert Louis Stevenson e The Little White Bird (Peter Pan, 1911) de J. M. Barrie. Estas obras, algumas declaradamente fictícias enquanto outras de uma duvidosa veracidade histórica, moldaram nosso imaginário sobre a imagem dos piratas.   

Dalton Delfini Maziero é historiador, escritor, especialista em arqueologia e explorador. Pesquisador dos povos pré-colombianos e história da pirataria marítima. Visite a Página do Escritor.
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