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Balneário Camboriú

Deixa eu ser sua voz?

De repente me dei conta que a minha vida tem tido muito mais despedidas que encontros… embora de certa forma isto seja mentira, porque tu não te despediste! Ainda fico parada olhando o telefone mudo, o portão fechado. Ainda espero o teu sorriso e o “tchau” tão teu que ninguém nunca conseguiu reproduzir…

Talvez porque eu tenha passado dos 50 anos, deve ser isso… já não vejo os encontros com a mesma poesia e encantamento de outrora… não tenho mais tantos sonhos, e nem desejos para o ano “vindouro”, pra usar uma palavra que gostavas de usar…

Também pode ser porque meu coração está bastante amarrotado de tanto bater a esmo, descompassado mesmo nesta pandemia. Eu vi tantos amigos partirem nestes dois anos que perdi as contas de quantas vezes me despedacei.

Agora, contigo foi diferente. Tu não tinhas o direito de furar a fila do céu. Mas, pensando bem, sempre foste meio metida, tentando passar de fininho… Agora, fala pra mim, quem vai comer a coxa do galinhão de domingo? No prato de quem eu vou enfiar os cogumelos??? Quem vai fazer a sobremesa dos almoços? Quem vai me fazer companhia na cozinha pra lavar os pratos e fofocar baixinho das outras?

Tu eras minha confidente… e me dói demais saber que sofreste sozinha. Eu estava ali o tempo todo e não conseguiste te abrir. Fico aqui agora pensando se eu não deixei a porta claramente aberta pra ti, se em algum momento posso ter te dado a impressão de que não te acolheria. Mas é mentira, viu? Eu sempre te dei colo e puxão de orelha, sempre sequei tuas lágrimas e te ajudei a levantar.

Talvez tu não quisesses que eu soubesse de tua dor pra eu não ficar triste, mas, puta merda, agora eu estou sofrendo muito mais!! Tu não devias ter me poupado! Tu não devias ter nos poupado! Nós somos tua família, te acolhemos e continuaríamos te acolhendo quantas vezes fosse necessário. Nós daríamos tudo o que temos pra não ter que te conduzir até tua última morada.

Agora fico aqui, sozinha, na minha sala, olhando a cafeteira que me deste, e chorando. Só peço a Deus que nenhuma família mais passe essa dor. Nunca mais.

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Céres Fabiana Felskihttp://www.ceresfelski.com.br
Médica formada pela Universidade Federal de Santa Catarina em 1991, atuando na rede pública de Balneário Camboriú há 21 anos. Escritora, apaixonada por educação em saúde e literatura. Lançou romances educativos sobre insuficiência renal crônica, hemodialise, diabetes tipo 1 (insulinodependente), diabetes 2 (não insulinodependente), além de livros de poesia. Blogueira
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