Nascido no Rio de Janeiro, o compositor, violonista, arranjador, produtor e professor Chico Saraiva, cresceu em Santa Catarina, viveu muitos anos em São Paulo e agora está novamente em Florianópolis. Ele foi o vencedor do 14º Festival da Canção de Balneário Camboriú, com a música “Tempos do Mar”, realizado no sábado (29), no Teatro Municipal Bruno Nitz.
Chico conversou com o Página 3 e celebrou não apenas o prêmio, mas também o encontro artístico que o aproximou da intérprete Bárbara Damásio, com quem dividiu o palco no Festival.
A canção, de MPB, conquistou o primeiro lugar e ainda rendeu quatro troféus de destaque.

Um desses troféus é o de ‘Melhor Intérprete’, conquistado pela cantora Bárbara Damásio, de Balneário Camboriú, que interpretou a música vencedora do Festival.
“Que emocionante! Eu realmente não podia imaginar esse resultado! Estou muito feliz. Muito obrigada meu amigo Chico por me convidar para interpretar essa obra de arte que fala tanto de nós, da nossa relação com o mar, com a natureza, das subjetividades humanas e do tempo como ‘compositor de destinos e tambor de todos os ritmos’”, disse.
Bárbara que canta desde menina, destacou a importância da música em sua vida e os encontros que ela proporciona.
“Foi uma vontade de costurar ambientes musicais que têm tudo para dialogar mais”

Chico conta que a escolha de Bárbara como intérprete da obra nasceu da afinidade musical, especialmente pela força do samba na trajetória dela.
“Bárbara tem carreira muito importante aliada ao samba, nesta semana (2) foi o Dia do Samba, e inclusive vamos tocar juntos com outros colegas celebrando o prêmio (do Festival da Canção) no meu espaço de cultura em Floripa, o Espaço Cultural Pedro Saraiva, na Praia do Cacupé, que vai se dar em torno da celebração do samba, cheia de frentes, muitos sotaques, que compartilho por morar muito tempo em SP, em SC também… o samba é muito maravilhoso, potente, e a Bárbara tem uma relação muito grande com isso tudo”, diz.
Para o músico, unir diferentes territórios artísticos é fundamental. Segundo Chico, sua vontade foi de costurar ambientes musicais que têm tudo para dialogar mais e que às vezes não dialogam por falta de espaço. Por isso, o palco do Festival foi um espaço importante, que uniu samba, rock, música gaúcha, música de câmara (a dele, com referências como de Edu Lobo).
“Que tem a ver com MPB, mas também muito da cultura popular tradicional, algo de vida inteira que eu tenho, e tenho conversado muito com Bárbara, porque tem muitas maneiras de se amalgamar isto. Estou muito contente com essa parceria porque é muito mais legal fazer essas coisas juntos”, acrescenta.
A criação de Tempos do Mar: perda, poesia e o vínculo com a Lagoa

Chico vive hoje no início da trilha da Costa da Lagoa, em Florianópolis, um lugar que, segundo ele, transformou seu olhar e sua música.
“Toda a sensação que tenho é de uma proximidade que eu nunca tive. Eu era veranista, morei em SP, e é bem diferente viver como morador, porque você realmente vive a variedade dos tempos do mar – quando fica feio, quando faz frio por muito tempo, quando chove, quando abre o tempo também é muito emocionante… são belezas que você só se percebe quando se vive o dia a dia”, explica.
Essa vivência somada a um momento pessoal delicado resultou na composição – ele tinha perdido seu pai, e um amigo poeta, Álvaro Faleiros, ouviu o que ele vinha vivendo e essa condição ligada ao mar, que ele [Chico] relatou em um show em São Paulo.
“E para consolar minha perda, ele deixou um poema de presente. Contei os tempos daqui, de SC, como estavam sendo os tempos na ilha (Florianópolis) e veio a poesia. Vi que era um carinho diferente, a melodia veio rapidamente [que formou ‘Tempos do Mar], remete a Dorival Caymmi, foi minha referência básica. Mandei para a Bárbara, a música faz as pessoas se expressarem, e ela se conectou diretamente”, conta.
A escolha do formato: “Fizemos bem em fazer duo, foi diferencial”

Enquanto muitos artistas optaram por bandas completas no Festival, Chico decidiu apresentar a música de forma intimista.
“Fiz o arranjo mais em cima da hora, mas vou gravar ele para poder lançar. Em geral, as pessoas fizeram em banda, e eu fui em duo com a Bárbara, algo diferente também, com violão clássico. Fizemos bem em fazer duo porque foi o nosso diferencial, foi acertado”, avalia.
Ele relembrou o reconhecimento de sua trajetória: em 2003 ganhou o consagrado VI Prêmio Visa de MPB – Edição Compositores, ao lado de grandes nomes da música nacional, e agora conquistou o Festival de Balneário Camboriú.
“Para ser reconhecido na região de onde sou. Curiosamente sou mais conhecido em SP, lugares mais distantes, por isso fiquei feliz, para poder contornar essa ‘distância’ que há. Estou muito feliz por isso, por essa conexão com nossa região, com SC… é muito importante”, diz.
Espaço Cultural Pedro Saraiva: “Agora vai dar certo”
Chico está prestes a inaugurar mais uma fase em sua carreira com a consolidação do Espaço Cultural Pedro Saraiva (@espacopedrosaraivadecultura), instalado em uma pousada construída por seu pai, a Refúgio do Cacupé.
“Tudo leva a crer que vou finalmente conseguir, porque estou construindo o Espaço Pedro Saraiva de Cultura, em uma pousada que meu pai construiu… meu pai foi um grande artista, e eu não sabia como me encaixar. Quando ficou pronta a pousada, eu vim para Floripa, na época da Covid, e entendi que eu tinha que preencher esse espaço de música”, pontua.
E a música nova começa a ganhar corpo: ele fez um estúdio e, com o valor conquistado no Festival da Canção, pretende fazer as primeiras gravações porque tem ‘muita música acumulada’, além de canções soltas, como Tempos do Mar, e também canções de sua pesquisa (https://violao-cancao.com/).
“Acredito que tenho mais de 10 ou 15 músicas que parei de gravar pelas obras no Espaço, e agora está na hora. Não sei se farei sozinho com violão e voz, ou até com trio e convidados. A sala de gravação está muito boa, e estou muito animado porque agora vai dar certo. O prêmio veio na hora certa. Vou lançar não só um disco, mas um espaço de cultura para usufruírem ainda mais de um tipo de música de câmara, algo que não é tão feito na região, com violão diferente… algo muito especial”, acrescenta.
Show de celebração neste domingo
Chico também prepara uma apresentação especial neste domingo (7), às 16h, no próprio Espaço Cultural Pedro Saraiva, com o Trio Gato com Fome, além da participação dele e de Bárbara Damásio, como uma celebração da vitória e da música autoral catarinense.
O músico pode ser acompanhado nas redes pelo perfil @chicosaraivada.
